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sexta-feira, dezembro 20, 2024

Leituras 2024


 Foto Designer IA

As minhas leituras de 2024 das quais destaco

Daniel Kahneman, Olivier Sibony, Cass Sunstein - «O Ruido – uma falha no julgamento humano»

Talit Sharot – «A Mente Influente»

Francesca Gino - «Talento Rebelde»

James Clear – «Hábitos Atómicos»

Yuval Noah Harari - «21 Lições para o seculo XXI»

Robert Waldinger e Marc Schulz - «Uma Boa Vida»

Dacher Keltner - «O Paradoxo do Poder

Morgan Housel - «A Psicologia do Dinheiro»

Satya Nadella - «Faça Refresh»

Annie Duke - «Desistir»

Susan Cain - «Silêncio»

Dr. James Doty - «Dentro da Loja Mágica»

Paulo Finuras «As Outras Razões»

Mustafa Suleyman - «A Proxima Vaga»

David Brooks - «Como Ler as Outras Pessoas»

Dr. Bessel van der Kolk - «O Corpo Não Esquece»

O critério utilizado para a escolha dos livros, deve exclusivamente aos seus autores, investigadores de renome cuja temáticas, tais como os hábitos, as relações, o trauma, a recuperação e resiliência, pessoas e a felicidade, são temas recorrentes no meu trabalho. Desde 1993, dedico uma parte substancial, da minha longa carreira profissional à aprendizagem contínua a fim de prestar o melhor serviço de aconselhamento possível a todos aqueles que procuram na doença e na adversidade, encontrarem competências que lhes permitam navegar nos mares tempestuosos e vencer. O que seria de nós, se não houvesse problemas, defeitos, se não estivéssemos expostos à adversidade e/ou se não tivéssemos ajuda? Quando descobrimos a honestidade, quando definimos um sentido na vida, quando estabelecemos relações resilientes fazemos a diferença, pela positiva. As pessoas mais felizes gostam de pessoas.

 


sexta-feira, dezembro 06, 2024

Motivação para a Mudança - sentimento raiva

 

 


A violência é um comportamento irracional humano complexo e transversal na sociedade. Em cada um de nós, existe um potencial significativo de raiva, hostilidade, agressividade. Ao longo de mais três décadas de experiência profissional observei/observo esse comportamento irracional (cérebro – mecanismo fight ou fly) em pessoas que jamais pensávamos assistir. Indivíduos, homens e mulheres de “ar doce” tornarem-se agressivos. Há muito que decorre um debate científico inflamado sobre o comportamento violento; é resultado de fatores psicológicos, sociais ou biológicos. Investigação atual indica que violência resulta, de facto, de uma combinação dos três.

No tratamento dos comportamentos adictivos o sentimento de raiva e o ressentimento (gestão de conflitos e gestão da raiva) assumem destaque no plano de tratamento do individuo, quando existem evidências de passividade/agressão verbal, física ou emocional, quer seja durante a adicção ou também ao longo da vida.  Alguns indivíduos com comportamentos agressivos/passivos desenvolveram mecanismos psicológicos de forma ocultar, reprimir e a negar a raiva e o ressentimento incapacitando os a ser honestos consigo próprios e com os outros, consciente ou inconscientemente. Estes mecanismos servem, principalmente, para culpar os outros afastando-os de qualquer responsabilidade, alimentar egos (preconceitos sociais) direcionar o foco da raiva, das doses elevadas de adrenalina e cortisol a fim de reforçar a crença distorcida de que é preciso estar alerta porque o mundo não é um lugar seguro.

As pessoas agressivas/passivas costumam ter reações irracionais despoletadas, por “gatilhos”, devido a sentimentos de injustiça reais ou cenários imaginários e repisam/ruminam os pensamentos incessantemente, assim como, ficam frequentemente emperradas em certas ideias fixas distorcidas ou comportamentos impulsivos. Também costumam interpretar as situações, com um grau de critica excessiva reagindo impulsivamente. Existem indivíduos com longo historial de problemas com agressividade e o abuso de drogas e álcool, jogo patológico, problemas com figuras de autoridade, passividade, incapacidade de aceitar críticas, relações tóxicas, violência doméstica, problemas com a justiça, indivíduos institucionalizados (exemplo, cadeia, estabelecimentos de apoio a crianças), trauma, comportamentos antissociais, ruminar ideias (vingança), problemas familiares disfuncionais, problemas de impulsividade no local de trabalho (colegas, direção, chefia, questões de género, etc.)  depressão e ansiedade. Evitando estereótipos, os homens e a agressividade está associada a comportamentos físicos, irracionalidade, ameaça ao estatuto (macho) e impulsivos (adrenalina, cortisol). Enquanto nas mulheres a agressividade é reprimida e manifestada de uma forma mais impercetível e indireta, por exemplo, evitam o confronto direto, partilham com os seus pares (boatos), criam ligações e argumentos que servem para ruminar (ideias de vingança). Todavia, existem homens e mulheres agressivos e impulsivos.

domingo, setembro 08, 2024

Se os outros conseguem eu também consigo

Imagem Dall E 2

Um estudo publicado no Journal of Studies on Alcohol and Drugs apurou que os indivíduos que acreditavam não ter força para combater as suas ânsias eram mais propensos a voltar a beber ou consumir drogas. As crenças dos adictos relativamente à sua impotência eram tão relevantes para determinar se teriam uma recaída após tratamento quanto o nível de dependência física a que haviam chegado. O quadro mental é tão importante como a dependência física. Aquilo que pensamos e dizemos a nós próprios revela-se de uma importância extrema. Rotular-se a si mesmo como possuidor de fraco autocontrolo conduz a menos autocontrolo. Em vez de pensarmos e dizermos a nós próprios que falhamos (por exemplo: mais uma vez… é a segunda tentativa…) devido a qualquer tipo de carência, devíamos de pensar e dizer, a nós mesmos, precisamente o contrário. A conversa interior (selftalk/mentalmente) será mais produtiva se o fizermos com auto compaixão por enfrentarmos adversidades, por desistir, pela rendição, por dores de crescimento e cometer erros é ok. Vários estudos, concluíram que a auto compaixão proporciona uma forte motivação (mindset) relacionado com o bem-estar. Podemos mudar a moldura mental (selftalk - mindset)? Sim, através da mesma mente irrequieta que gera problemas (castigadora/rigidez/pensamentos negativos, juízo excessivamente critico) iniciamos um pacto de tréguas através do autoconhecimento, da autocritica construtiva (feedback com pessoas de confiança) e o poder da auto compaixão. Aquilo que pensamos e dizemos a nós mesmos, principalmente, nas situações adversas revela-se de extrema importância, se queremos mudar, mudamos o que pensamos e o que dizemos a nós próprios – a mente é a mesma, as crenças é que mudam.

Reprimir ou adaptar-se à emoção?

 

Fiodor Dostoievsky, 1863 escreveu o seguinte «Tente atribuir a si mesmo esta tarefa. Não pensar num urso polar. Imediatamente, verá que a maldita menção ao urso polar lhe vem à cabeça a palpitar durante um período de tempo. Mais recentemente, foram efetuados estudos sobre «pensarmos no urso polar e ficarmos a ruminar no assunto» e os resultados referem que a repressão do pensamento e emoção durante os primeiros cinco minutos, conduz a uma forma mais proeminente e intensa na mente dos participantes (artigo divulgado na publicação Monitor on Psychology). Quando reprimimos uma emoção estamos a enganar a nós próprios, pensando que ao faze-lo conseguimos afastar a fonte do descontentamento. É um mito, é uma falsa crença, não controlamos pensamentos e sentimentos. Quando estamos a reprimir pensamentos e sentimentos, naquele momento, estamos a permitir que as emoções surjam mais tarde, com intensidade e com diferentes nuances e dinâmicas. Gerador do efeito de «bola de neve», ficamos expostos aos impulsos, à negação, ao ressentimento, raiva e à autocritica negativa. Nestas situações, surgem as ânsias, a ruminação ansiosa, a ausência de auto compaixão, perda das funções cognitivas (lidar com conflitos adicionando mais conflitos) e o sentimento de autoeficácia mingua, sinais e sintomas identificados nos comportamentos adictivos.

 

domingo, julho 28, 2024

Contra o estigma, a negação e a vergonha


Contra o estigma, a negação e a vergonha. Em pleno seculo XXI, estas três palavras poderosas, possuem um efeito nocivo e têm um  impacto devastador na sociedade, são como uma pandemia. A sociedade somos todos nós. O fenómeno é transversal, no dia a dia, afectam pessoas, familias e instituições no tratamento e recuperação dos comportamentos adictivos, através de preconceitos, tabus, segredos, recaídas, solidão e crenças retrogadas profundamente enraízadas no individuo. O meu trabalho, contra o estigma, a negação e a vergonhar é diagnosticar, informar, educar, acreditar, emponderar e ser um aliado na transformação de juizos, crenças, atitudes e comportamentos no individuo, na familia e na sociedade. Apesar dos efeitos adversos, é possivel recuperar dos comportamentos adictivos e adoptar um novo e saudavel estilo de vida. Existe a esperança.

terça-feira, maio 28, 2024

A Perda, a Dor e o Luto

 



A perda de um ente querido ou a mudança “radical” de estilos de vida e a dor associada, são temas transversais à sociedade. Sabemos da existência de tradições, rituais, regras, atitudes e comportamentos que adotamos a fim de carpir a perda e a dor. Contudo, persistem mitos e tabus sobre a regulação das emoções e a dor. Por exemplo, existem indivíduos, nos períodos de perda e dor, buscam o alívio e o alheamento no consumo de substâncias psicoativas, vulgo drogas, incluindo o álcool e/ou adotam comportamentos repetitivos, geradores de dependência, cujo intuito é o alívio imediato.

A perda e a  dor são reações, indícios à perda de um ente querido ou mudança significativa na vida de uma pessoa (por exemplo, divórcio). Gostaria de referir que os indivíduos, homens e mulheres, dependentes de substâncias psicoativas, vulgo drogas, incluindo o álcool, assim como os comportamentos adictivos são afetados por este fenómeno, especialmente, quando iniciam o tratamento. Conheço centenas e centenas de pessoas que iniciaram o tratamento e nenhuma delas alguma vez pensou, apesar de terem consciência da existência de um problema grave, que mudar as atitudes e comportamentos (estilo de vida) fosse algo tão desafiante e exigente no compromisso, na confiança, na esperança, na motivação e persistência e na fé. Ao longo da progressão da adicção o individuo está exposto e vulnerável a situações de abuso emocional e/ou traumático (perda e dor)

Sentir a perda e a dor é condição para avançar na recuperação.

 O tratamento psicossocial e espiritual contempla a abordagem à MUDANÇA. Para recuperar é preciso que o individuo contemple o desafio de enfrentar-se a si próprio, à perda e à dor, à mudança de estilos/hábitos/comportamentos na sua vida, existe o passado e barreiras a serem destruídas e substituídas por pontes para o presente ( e o futuro). Tudo isto, na prática, representa um desafio enorme, uma motivação musculada, tempo para reflexão e introspeção. Tenho sido testemunha, a nível profissional, de indivíduos que se re-inventam e adquirem competências que jamais sabiam da sua existência. A grande maioria das pessoas que é admitido em tratamento, seja em regime de internamento ou ambulatório, encontra-se descrente, resistente, assustado porque houve tentativas anteriores que fracassaram e consequências negativas muito dolorosas, em si próprio, na família, incluindo as crianças, e na sociedade. Recordo um caso, o Carlos (nome fictício), 40 anos, adicto ao sexo de longa duração, chegou a tratamento em regime de internamento, acompanhado pelos pais e irmã. Foi efetuada a admissão do Carlos, entretanto a família despediu-se dele e foram embora do Centro de Tratamento. Nessa noite, os restantes pacientes que estavam em tratamento não conseguiram dormir, porque o Carlos, confrontado com a sua atual realidade, descompensou, a nível psicológico (ansiedade extrema, ataques de pânico, etc.) foi necessária uma intervenção médica para o acalmar. Foi possível acalma-lo no momento, mas as crises e a descompensação psicológica mantiveram-se durante várias semanas. A adaptação do Carlos a um novo estilo de vida foi muito dolorosa (mudança)

 

quinta-feira, maio 09, 2024

Escuta Ativa para Quebrar o Silêncio




Foto de Betina La Plante

Obrigada pela "persistência" da dica “Arte Bem Viver” que agora recebi e li.

Chorei, confesso.

Porque aprendi recentemente e constantemente luto para conseguir ser silêncio...

Passei por quase tudo, perdas, divórcio, doença crónica, acidentes, ameaças à integridade física e financeira, pessoas alegadamente amigas que não o eram, alienação parental, desilusão atrás de desilusão e riscos de perda de esperança, que felizmente inverto porque nasci a reclamar, mas a mirar o "copo meio cheio". Sou aquela que é “forte”, “supermulher”, se desenrasca e “adeus”, qual descartável humano, ou desnecessitada de qualquer ajuda por me encararem como lutadora que tudo ultrapassa sozinha.

Se me perguntam como estou nem posso dizer que bem, nem que mal, porque as respostas são desastrosas e nada empáticas, encolho então os ombros, sorrio e digo "um dia de cada vez". Hoje aprendi a sua expressão: se me perguntarem “como estás”, não direi o habitual, mas "faz - se por isso".

Um dos meus amigos ensinou-me sem querer, uma expressão que anotei, "sempre em frente" e "força". Nunca me disse "pensamento positivo" felizmente, pessoa sábia. Não suporto ou sequer admito tal expressão, viro costas com uma desculpa, se estão por bem.

Queira - se ou não, há um estigma brutal contra a doença, a incapacidade física ou limitação mental, por muito que se fale disso... Modas. Estigma contra os pobres, doentes, idosos, pessoas instituídas, desempregados. Sou direta. Não adocem pílulas com intenções ou falsa compreensão.

Os meus sonhos … não penso neles, são impossíveis. Sou demasiado lúcida, citando esta característica dita por alguém que muito considero há muitos anos, para acreditar na possibilidade real de sonhar...  Sou empática e seria bom para a minha saúde geral, mudar de profissão que tanto amo, para outra que igualmente ame. Ajudar os outros, porém não tenho habilitação específica para tal, nem condições para a adquirir, como com tantos outros sonhos que não me pagam as contas ou resolvem problemas. Sobra a reconversão, de difícil gestão.

quarta-feira, abril 24, 2024

Adicção fonte de mitos, tabus e segredos



É mito? Tabu? Negação? Ou a realidade diz-nos que as crianças também sofrem, em silêncio, com os comportamentos adictivos?

Vamos indagar e procurar compreender este fenómeno observado no contexto de tratamento (em regime de internamento ou regime de consultas ambulatórias) do comportamento adictivos, segundo os pais e seus familiares afirmam: “Os meus filhos não são afetados pela adicção.”

Há três décadas, com demasiada frequência, escuto pais adictos com filhos, e familiares, afirmarem, convictamente, que a dependência de substâncias psicoativas, vulgo drogas, incluindo o álcool e/ou comportamentos adictivos (jogo patológico, relações de dependência, adicção ao sexo, compras, furto nas lojas, adicções cruzadas/comorbilidade) não afetam as crianças. 1) são muito pequeninas, não têm o mesmo discernimento que os adultos ou 2) porque não sabendo do problema não sofrem as consequências.

Algumas afirmações mais comuns.

“Os meus filhos são crianças muito pequenas e não se apercebem do problema da minha dependência.”

“Como pai/mãe jamais faria alguma coisa que prejudique os meus filhos.”

“As crianças ainda não se aperceberam o que se passa lá em casa. Apesar das discussões com a família, não consumo drogas em casa.”

“Posso ter um problema de adicção, mas consigo separar da relação que tenho com os meus filhos, impedido assim que eles sejam prejudicados.”

“A minha dependência não é assim um problema tão grave…consigo controlar a situação.”

“Quando discuto com a minha/meu esposa/o sobre o tema é a dependência não há agressividade e antes levamos as crianças para os seus quartos. Não queremos que elas estejam presentes.”

Apesar de o ser humano, ignorar a evidência científica, este fenómeno, sobre a adicção não afeta as crianças, pode ser mais um caso a juntar a tantos outros?

Na sociedade atual, os exemplos sobre a descrença popular na investigação científica são numerosos e não é possível descreve-los a todos neste texto. Estes exemplos que irei expor são suficientes para constatarmos os factos. Sem mais delongas, vejamos vários casos do conhecimento geral. Segundo a investigação científica está comprovado que a obesidade representa risco de doença cardíaca, colesterol elevado, regimes alimentares altamente calóricos, hábitos sedentários, ausência de exercício físico e seguir uma alimentação saudável. Segundo a investigação científica está comprovado que a dependência do tabaco representa um sério risco de cancro nos pulmões. Segundo a investigação científica está comprovada que a exposição excessiva ao sol está associada a cancro da pele, no verão as praias estão repletas de pessoas, mesmo no período do dia em que a temperatura é mais elevada.

quarta-feira, abril 03, 2024

Passagem pela metamorfose para a liberdade de ser

 

Atualmente, sabemos que certos circuitos e estruturas neuronais estão associados à adicção, a dopamina (neurotransmissor) é uma caraterística biológica comum em todas as dependências e comportamentos adictivos.

Dopamina, neurotransmissor que despoleta o gatilho (desperta) do desejo, da vontade associado ao prazer/recompensa é o mesmo que influencia a distorção do pensamento e do autoengano.  A adicção é uma doença que consegue defraudar o individuo ( e família). Diz, “Não existe tal coisa…” ou “Existe doença, mas só os outros é que ficam doentes…” ou “Eu consigo controlar…” Existem uma longa lista de justificações e auto engano (falsas crenças, rotinas, rituais, tradições), que o individuo, consciente e/ou inconscientemente, fomentam a incapacidade de diálogo racional consigo próprio (mente para si mesmo, sem ter a noção que o raciocínio/lógica não corresponde aos fatos e realidade). Interessante, observar que este processo também é identificado nas dinâmicas familiares. Nestas situações, se o individuo fosse sujeito ao poligrafo (detetor de mentiras), as suas afirmações eram consideradas verdadeiras. No prazer, na recompensa, no alheamento proporcionado pela adicção, paralelamente, existe um custo, uma divida, “um castigo moral”, “uma sentença”, um estigma que pode levar anos a desaparecer da vida e da recuperação do individuo, assim como, da família.

Durante os anos 50 investigadores americanos conduziram uma experiência sobre os mecanismos neurobiológicos associados ao desejo e à motivação. Para surpresa dos investigadores, quando bloquearam a libertação de dopamina em ratos, estes perderam toda a vontade de viver. Passados uns dias os ratos deixaram de beber água e morreram de sede. Quando os investigadores inverteram o processo, os cérebros dos ratos foram inundados de dopamina, ficaram de tal modo desejosos e motivados que se deslocavam ao local onde obtinham a dopamina 80 vezes por hora. Será assim tão diferente nos humanos? O jogador médio de slot machines é capaz de acionar o dispositivo das máquinas barulhentas 600 vezes por hora. A dopamina é libertada não apenas quando se sente prazer, também é libertada quando se antecipa o prazer. Os indivíduos dependentes do jogo, do alcoolismo, drogas, co dependência, sexo apresentam picos elevados de dopamina antes de jogarem, beber bebidas alcoólicas, consumir drogas, ausência de limites na relação (caos/disfuncionalidade), ou desejo intenso/fantasias sobre o sexo. Esta antecipação do desejo e do alheamento é complexa e pode revelar-se extremamente poderosa na personalidade de alguns indivíduos, por exemplos, nos impulsos, nas funções cognitivas, certo e errado (valores morais universais), regular emoções.

quarta-feira, março 13, 2024

"É um problema de adicção e ponto final."


 

Boa tarde João.

Vi o seu artigo no blog: https://recuperardasdependencias.blogs.sapo.pt/70656.html

Achei muito interessante e agradeço. Tenho efetivamente um problema de vicio de compras, no meu caso de tecnologia / computadores, associado a quando estou em estado mais ansioso ou aborrecido com o meu trabalho (sou arquiteto, mas adoro desenhar livros para crianças e de tocar no meu sintetizador).

Ou simplesmente compro quando não tenho nada que fazer e aparece "aquele pensamento" de "o que poderia comprar agora para completar o meu setup?", por exemplo. Ou seja, não vale a pena dourar a pilula com justificações: é um problema de adição e ponto final.

Já fiz psicoterapia durante quase 1 ano, até ao ponto em que a minha psicóloga, depois de 1 ano de sessões em que me aconselhou diversas estratégias de comportamento / atividades que eu não seguia, me convidou educadamente a terminar as sessões, pois afinal eu não as estava a aproveitar e outras pessoas necessitavam também da assistência dela (eram financiadas pelo estado: gratuitas). Deixou, no entanto, a porta aberta se eu quisesse regressar. Não regressei mais. Fiquei triste e desiludido na altura, mas hoje vejo que ela teve toda a razão ao fazê-lo.

Mas o meu email tem a ver com estar neste preciso momento e por vontade própria, em fase de desmame de vários meses de compras seguidas. Ao todos foram 24 anos disto, com 2 divórcios pelo meio: mais do que suficiente.... Estou agora e há 5 anos numa relação estável, mas não tenho ilusões - se continuo a persistir no mesmo - a minha companheira vai-se embora tal como as outras fizeram. E aí irei ficar bem pior do que antes fiquei. E sozinho.

Portanto tenho a intenção de resolver de uma vez por todas este vício. De preferência sem medicação, apesar de ter Valium 2,5mg comigo que utilizo em SOS em caso de necessidade.

Mas claro, como em todos os desmames, estou em processo de ressaca, ou seja, a vontade de pesquisar este gadget ou outra coisa para comprar está cá sempre. Umas vezes mais forte outras menos forte.

Sem querer abusar da sua generosidade, o João poderia aconselhar-me por favor - para esta fase muito especifica - uma estratégia de comportamento para quando vêm estes pensamentos? Ou outra que entenda ser adequada neste momento?

Muito obrigado,

Marco António (nome fictício)

Importante: Todos os dados pessoais foram excluídos de forma a manter a confidencialidade.

 

My Shopping Addiction Is Out Of Control | Compulsive Shoppers | Our Stories

 

Comportamentos adictivos - compras, gastar dinheiro. 
  • Qual é o limite entre fazer compras, como algo inofensivo, proporciona sensações prazerosas, cuidar da imagem, estatuto, seguir tendências/modas, socializar e o comportamento compulsivo e repetitivo (craving/desejo intenso) cujas consequências é a perda total do controlo (impotência, agir no prazer imediato, sensação de alheamento, isolamento, ansiedade e depressão)?
  • Considera que perde o controlo do seu comportamento e comprar, gastar dinheiro? Peça ajuda e fale procure esclarecimento/informação. 

sexta-feira, fevereiro 02, 2024

Se nada muda, fica tudo na mesma com tendência para piorar




Cultura que bebe, abusa e encoraja o consumo do alcool, droga legal. Como profissional, trabalho há mais de 30 anos no tratamento das substâncias psicoativas, vulgo drogas considero que o alcool é a droga mais perigosa. Por exemplo, inicia-se o consumo na adolescência, depois os jovens adultos abusam do alcool, o agravamento dos padrões durante a fase adulta e terminam com problemas de abuso e dependência que se prolonga ao longo de 20 anos, 30 e 40 anos. Uma vida inteira expostos aos efeitos negativas na saude fisica e mental - contra o estigma, a vergonha e a negação. A esta dura realidade, acrescentamos os efeitos na familia ( incluindo as crianças), no trabalho, etc. Conheço casos de indivudos com 60 anos que parecem ter 80. Segundo o site do Sicad (2018) calcula-se que existam mais de meio milhão de alcoolicos cronicos em Portugal e segundo novos estudos morrem, em media, por dia, 20 pessoas cujas causas estão directamente relacionado com o alcool. O alcool é uma droga legal que gera imenso sofrimento às pessoas e pode matar.  Os líderes politicos conhecem esta realidade, não só pelo efeito negativo nas pessoas, mas os  custos para o estado são enormes. Todavia, existe tratamento para o abuso e dependência alcoolica, é possivel recuperar, não me refiro somente ao individuo, mas a toda a familia, incluindo as crianças.

quarta-feira, janeiro 31, 2024

Recuperação: Sou a Inês e sou uma adita.

 


Sou a Inês e sou uma adita. Sim hoje aceito que sou uma adita e que usei mascaras demasiado tempo vivendo uma vida dupla, e negando a minha adição.

Na verdade quando estava na minha adição ativa, tinha uma visão distorcida de mim mesma e da realidade á minha volta. Mas esse foi mesmo o objetivo inicial dos meus consumos, anestesiar a imagem que tinha sobre mim e todos os sentimentos associados a ela.

Hoje, estou limpa há mais de 4 anos e quando faço uma retrospetiva da minha vida, consigo identificar com muita facilidade a minha adição desde muito nova. As compulsões por obter prazer imediato estão bem presentes desde muito cedo, numa tentativa de controlar a intensidade das minhas emoções negativas e de calar a voz autodestrutiva que ecoava na minha cabeça que me dizia que eu não tinha nenhum valor, e que ninguém nunca podia gostar de mim. No fundo era a minha baixa autoestima e a minha falta de sentir pertença e a minha incapacidade de aceitar a vida como ela é. 

Mas na altura não o sabia, e encontrei no álcool e nas drogas um alívio temporário e ilusório para o meu problema. Era como se anestesiassem o que sentia sobre mim. Quando consumia, aquela voz que me destruía e me fazia sofrer intensamente parava de falar, e assim julguei que tinha encontrado o que precisava para não sofrer mais.

No entanto as consequências desta solução, a longo prazo foram devastadoras. Tanto quis fugir de mim que me perdi completamente, os consumos foram cada vez mais frequentes, os riscos corridos cada vez maiores, no peito a sensação de vazio crescia, escavando um buraco cada vez maior. Já não sabia quem eu era, e apos várias tentativas falhadas de parar de consumir sozinha, estava num círculo vicioso de autodestruição, achava que enganava os outros com as minha vida dupla e manipulação, mas enganava-me era a mim própria cada vez mais em cada moca e cada ressaca.

Aos 35 anos graças á ajuda da minha família, fui internada num tratamento para dependências, onde iniciei a minha recuperação que começou com a abstinência de substâncias num ambiente controlado, onde me confrontaram com as evidências do descontrole em que a minha vida se tinha tornado. Aí foi quando baixei os braços e aceitei a minha impotência perante as drogas e tomei a decisão de começar o processo de reconexão comigo mesma que graças ao meu poder superior, até hoje continuo a trilhar

Nas salas de Narcóticos Anónimos (1) encontrei exemplos, ouvi experiências de vida e para mim mais importante do que tudo, percebi que não estava sozinha e que havia ali pessoas que eram capazes de sentir as emoções mais negras e autodestrutivas, exatamente como eu. Independentemente de onde vinham, de quais as drogas que haviam consumido, quando falavam eu revia-me nas suas palavras, eu conseguia facilmente identificar em mim os mesmos sentimentos e os mesmos comportamentos. Pela primeira vez na vida senti que pertencia em algum lugar, senti o poder do que se costuma dizer nas salas “juntos conseguimos o que sozinhos nunca fomos capazes”. 

Desde o momento que entrei em recuperação iniciei um processo profundo de autoconhecimento e de transformação pessoal. Fui tirando camadas sobre mim mesma e mergulhando cada vez mais em quem eu sou e só por hoje continuo a querer este caminho. Só por hoje não me vou autossabotar nem ser desonesta com o que sinto.

Aprendi a gostar de mim a viver em paz com quem eu sou e que tenho tudo o que preciso no meu mundo interior. As feridas só saram quando as destapamos, não vão lá com pensos rápidos, como são o álcool e as drogas.

Uma coisa tenho a certeza estando limpa e serena, na minha vida, muito mais será revelado….

Deixo a sugestão de um livro que fez parte deste meu processo e que fala sobre a coragem de ser quem somos.

“Propósito” de Sri Prem Baba da editora pergaminho.

(1) Narcóticos Anónimos (NA) são grupos de ajuda mutua, em Portugal desde 1985 e existem reuniões no continente e ilhas. Existem reuniões de NA em praticamente em todo o mundo.

Comentário: Bem hajas Inês pela tua participação no Recuperar é que está a dar. O facto de seres uma mulher em recuperação, contraria o estigma e a vergonha oriundo da sociedade e o teu exemplo consegue mudar atitudes moralistas e preconceitos. Certamente, o teu texto será uma fonte inspiração e identificação a outras mulheres que procuram soluções para o seu sofrimento e perda do controlo, caracteristicas da adicção activa. Ao longo de 30 anos de experiência profissional, considero que as mulheres sofrem mais do que os homens as consequencias negativas da adicção. Desejo-te sucesso, paz e felicidade. Obrigado.


terça-feira, janeiro 30, 2024

A avaliação na prevenção da recaída (fatores de risco e fatores de proteção)




Capacidades e competências cognitivas e emocionais em recuperação.

Como podemos executar melhores, e mais eficientes, planos de prevenção de recaída dos comportamentos adictivos personalizados (cada caso é um caso), sabendo de antemão que estamos, como seres humanos, expostos à perda da capacidade de avaliação? Da perda do juízo, do discernimento, do bom senso e capacidade critica.

Nascemos e vivemos com esta característica enviesada, portanto em recuperação dos comportamentos adictivos este enviesamento está presente no caminho. Qual é a atitude que desenvolvemos no caminho de recuperação que construímos, gostamos, protegemos, queremos ver reconhecido e melhore a autoeficácia (olhar para nós mesmos como vencedores perante a adicção)? Acontece com um número significativo de indivíduos, há medida que avançam no caminho, pretendem que a recuperação seja duradoura, mas mais importante, revele a melhor versão deles próprios (presente). A recuperação dá trabalho, senão vejamos. Diante a mudança de atitudes e comportamentos (por exemplo, reestruturação cognitiva e literacia emocional) já não se utiliza o termo “Porquê”. Utiliza-se o termo “Como.” O individuo é o agente da mudança.

Vou tentar resumir o conceito de recuperação da adicção. Cada individuo, deverá ter o seu próprio conceito de recuperação. Não é um único evento, é um caminho abrangente e personalizado, abarca a abstinência de drogas lícitas e/ou ilícitas, incluindo o álcool, a sobriedade, crenças/convicções, relações especiais com pessoas significativas, planear e coordenar, identificar traumas e/ou comorbilidades e procurar ajuda, reestruturação cognitiva e literacia emocional (honestidade, compromisso, regular as emoções, assertividade, espiritualidade, promover um estilo de vida que contempla a saúde física e mental, a carreira profissional, hobbies, auto cuidado, fatores de risco e fatores de proteção da deslize/recaída, relações saudáveis e um caminho/rumo com sentido e propósito.

 O que significa avaliação? Quando procuramos a melhor resposta/abordagem é importante recorrermos à avaliação/discernimento/capacidade critica. Diante problemas, desafios e conflitos almejamos possuir capacidades e competências eficientes e resilientes que promovam a autoeficácia.

Porque é que o discernimento/bom senso/capacidade critica é tão importante nas decisões, planos, objetivos?