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quarta-feira, julho 22, 2026

A Paz de Espirito tão desejada na recuperação dos comportamentos adictivos


 imagem gerada por IA

A paz de espírito não é somente um estado de alma ou de graça, a paz de espírito exige acção, é estar disponível para olhar novos horizontes, rumos e aceitar a mudança. Não há garantias.

Paz de Espirito é estar no momento presente.

Paz de Espirito é estar conectado com a consciência de si proprio (Ser).

Paz de Espirito é uma experiencia livre de qualquer sentimento ou sensação de stress toxico.

Paz de Espirito é a liberdade, assertiva com limites e fronteiras, regras e valores.

Paz de Espirito é livre da adicção (obsessão e compulsão).

Paz de Espirito é ausência do ego. É uma experiencia transcendental de ego-free.

Paz de Espirito é recuperação. Recuperação é __________________ .

Paz de Espirito é honestidade, compaixão, gratidão, espiritualidade (não religioso).

Paz de Espirito sente-se o poder da contemplação. Contemplar novos horizontes, rumos,etc.

A Paz de Espirito desperta com a observação do nascer do dia (energia renovada, novo dia, não existem dias iguais) e também com o por do Sol (gozamos o presente de um dia ativo. Energia relaxante e acolhedora, Estamos em paz), 

A Paz de Espirito permite a reflexão e a inspiração da criatividade, da resiliência, da relação com um espirito criador/poder superior - renovar a fé.

A Paz de Espirito pode ser também uma experiencia social/grupo de pessoas na mesma sintonia (por exemplo, pratica do mindfulness, meditação, oração, musica, arte, rituais, partilha, servir)

domingo, julho 19, 2026

" De regresso a mim"



 
fotografia da autora

 

De regresso a mim!

 

O fundo do poço não é necessariamente o fim. Quando já não há mais por onde escavar, surge a oportunidade de recomeçar, de nos reconstruirmos.

Este livro “ Hoje tenho opção”, que escrevi com toda a humildade e honestidade, não é apenas a minha história, é um testemunho de que, mesmo quando tudo parece perdido, existe uma luz ao fundo do túnel que se transforma em esperança.

Ao longo das páginas, partilho, sem máscaras, a dor, as perdas e, acima de tudo, a minha escravidão. Viver sem liberdade de escolha, sem amor próprio  e sem rumo foi extremamente doloroso.

O meu processo de recuperação começou quando pedi ajuda. Mas foi preciso chegar ao ponto de pensar em acabar com a minha vida para perceber que sozinha não seria capaz.

A minha espiritualidade era nula durante a minha adição ativa. Quando entrei em recuperação, não recomecei a minha vida,  iniciei uma nova.

Através do programa dos doze passos, recuperei a minha espiritualidade , a minha fé e a minha esperança. Reconstrui-me por dentro, dia após dia, redescobrindo quem realmente sou.

Hoje vivo em liberdade. Tenho escolha. E todos os dias escolho viver- viver em recuperação.

Um dia de cada vez, faço a minha parte e entrego os resultados ao meu Poder Superior, com quem mantenho uma ligação consciente numa base diária,  cheia de esperança. Ele reserva sempre o melhor para mim,  muitas vezes não é o que eu quero,  mas sim aquilo de que preciso.

Nem sempre o caminho é o mais fácil,  mas aprendi a reconhecer quando é o certo.

A mensagem que quero transmitir é simples: é possível recuperar. É possível viver em paz e serenidade.

Claro que nem todos os dias são fáceis, mas a fé e a esperança são sempre maiores.

Onde antes via obstáculos, hoje vejo oportunidades de crescer  e sinto que o caminho é por aqui.

Não escrevi este livro “ Hoje tenho opção” para ensinar ninguém. Escrevi-o para que quem ainda sofre saiba que não está sozinho e que há sempre uma saída.

Se estas palavras chegarem a alguém,  desejo apenas que guardem esta certeza: não desistam antes do milagre acontecer.

Fazer as pazes com o passado, perdoar  e perdoar-se, é transformar esse passado numa nova jornada. A transformação acontece naturalmente,  conduzindo-nos a uma nova vida.

Se uma única pessoa, ao ler este livro, encontrar força para dar o primeiro passo,  então cada palavra valerá a pena.

Neste momento,  o livro está numa editora. Seja qual for o resultado, já me sinto realizada por ter tido a coragem e a humildade de o entregar ao mundo!!

 

Desejo a todos umas serenas 24h, com amizade

Marta Mendes

terça-feira, janeiro 30, 2024

A avaliação na prevenção da recaída (fatores de risco e fatores de proteção)




Capacidades e competências cognitivas e emocionais em recuperação.

Como podemos executar melhores, e mais eficientes, planos de prevenção de recaída dos comportamentos adictivos personalizados (cada caso é um caso), sabendo de antemão que estamos, como seres humanos, expostos à perda da capacidade de avaliação? Da perda do juízo, do discernimento, do bom senso e capacidade critica.

Nascemos e vivemos com esta característica enviesada, portanto em recuperação dos comportamentos adictivos este enviesamento está presente no caminho. Qual é a atitude que desenvolvemos no caminho de recuperação que construímos, gostamos, protegemos, queremos ver reconhecido e melhore a autoeficácia (olhar para nós mesmos como vencedores perante a adicção)? Acontece com um número significativo de indivíduos, há medida que avançam no caminho, pretendem que a recuperação seja duradoura, mas mais importante, revele a melhor versão deles próprios (presente). A recuperação dá trabalho, senão vejamos. Diante a mudança de atitudes e comportamentos (por exemplo, reestruturação cognitiva e literacia emocional) já não se utiliza o termo “Porquê”. Utiliza-se o termo “Como.” O individuo é o agente da mudança.

Vou tentar resumir o conceito de recuperação da adicção. Cada individuo, deverá ter o seu próprio conceito de recuperação. Não é um único evento, é um caminho abrangente e personalizado, abarca a abstinência de drogas lícitas e/ou ilícitas, incluindo o álcool, a sobriedade, crenças/convicções, relações especiais com pessoas significativas, planear e coordenar, identificar traumas e/ou comorbilidades e procurar ajuda, reestruturação cognitiva e literacia emocional (honestidade, compromisso, regular as emoções, assertividade, espiritualidade, promover um estilo de vida que contempla a saúde física e mental, a carreira profissional, hobbies, auto cuidado, fatores de risco e fatores de proteção da deslize/recaída, relações saudáveis e um caminho/rumo com sentido e propósito.

 O que significa avaliação? Quando procuramos a melhor resposta/abordagem é importante recorrermos à avaliação/discernimento/capacidade critica. Diante problemas, desafios e conflitos almejamos possuir capacidades e competências eficientes e resilientes que promovam a autoeficácia.

Porque é que o discernimento/bom senso/capacidade critica é tão importante nas decisões, planos, objetivos?

domingo, março 11, 2018

" A Recuperação é uma dádiva"





“A Recuperação é uma dádiva, que só foi possível acolhê-la quando me rendi, baixando os braços com humildade, pedindo ajuda.”


 Vivi muitos anos a acreditar que controlava o uso de drogas. Uma vida dupla, com muita manipulação, “a brincar com a vida”. Tempos limpa, tempos a usar, tempos a fazer tratamentos, a construir e a destruir. A última recaída, levou-me rapidamente a um estado de degradação, um completo descontrolo facilitado com dinheiro que meu pai deixou quando faleceu.

Completamente obcecada pelas drogas e a usar compulsivamente à procura de algo que não sabia o que era. Comecei a ter medo de morrer, mas também tinha medo de deixar as drogas e viver sem elas.  Desconectada de mim.  Onde é que eu estava? E foi essa necessidade de me encontrar, mais o amor das minhas filhas que deu coragem para parar de usar, mais uma vez…
Pedir ajuda foi a primeira etapa. Por um lado, sentia-me tão frágil e por outro, queria viver.

Rendi-me perante os factos evidentes da minha destruição total como ser humano. A mais visível era a componente física, mas a mais dolorosa, era destruição da minha alma, invisível a olho nu, mas visível ao meu olhar- uma mágoa enorme, vergonha, desespero, frustração e muita confusão.
Foi quando conheci o programa dos 12 passos que comecei uma viagem diferente. Encontrei pessoas como eu, que tinham problemas com drogas e que queriam aprender a viver sem ter que as usar. As identificações sucederam-se, o sentimento de pertença e amor contribuíram para que começasse a acreditar, que afinal o meu caso, não era um caso perdido, como tantas vezes ouvi.
Após muitas lágrimas e desabafos, deixei-me guiar, deixei de querer controlar tudo em mim. Abri a mente e o coração e só aí começou a aceitação. Aceitei, sou uma adicta, impotente perante a minha doença e contribuiu para perder o domínio da minha vida. Com a experiência que tinha do passado, sabia que estar apenas abstinente não era suficiente, era preciso algo mais. Saber que tinha uma doença e a aceitação deram-me um certo alívio – podia fazer algo – converter a adicta activa e destrutiva na adicta em recuperação e construtiva. Estava determinada a fazer diferente, precisava de mudar atitudes e comportamentos. Não mudar os estímulos externos, que ilusoriamente tantas vezes tinha feito, mas mudar os estímulos internos. Descobri em mim, muitas coisas através daqueles que partilhavam comigo, foram muitas vezes o meu espelho. Descobri que era arrogante, teimosa, orgulhosa, insegura, o que para mim foi um choque, mas que permitiu ter consciência. Nunca tinha olhado para mim e a partilha é mágica. Nasceu, muitas vezes, luz no meu coração e alívio. Eu não estava sozinha. Foi o início de um percurso, que até hoje, eu acarinho e afago, com gratidão!

quarta-feira, março 16, 2016

Recuperar é auto conhecimento



Em 2015 o Professor David Best e colegas da Universidade de Sheffield Hallam, Inglaterra, em parceria com a Action on Addiction conduziram o primeiro questionário sobre a recuperação da adicção - dependência de substâncias psicoativas do Sistema Nervoso Central, vulgo drogas, lícitas e/ou ilícitas. Os participantes no estudo incluíam indivíduos do sexo masculino (53%) e indivíduos do sexo feminino (47%) que atualmente residem em Inglaterra. 74% dos participantes, dependentes de outras drogas, afirmaram estar também em recuperação do alcoolismo. O questionário abrangente contemplou varias áreas da vida dos indivíduos:
  • Relacionamentos, educação, emprego
  • Saúde e bem-estar
  • Tipos de adicção
  • Recuperação (duração, abstinência)
  • Envolvimento em tratamento e/ou participação em grupos de ajuda mutua
  • Área financeira
  • Família e vida social
  • Justiça/questões legais

- De acordo com os resultados do questionário os indivíduos afirmaram ter um historial de dependência de substâncias psicoativas (adicção) de 20.4 anos. De salientar que os indivíduos dependentes de álcool apresentaram uma tendência para serem admitidos, em tratamento (receber apoio profissional - meia idade, 40 e os 65 anos), em faixas etárias diferentes, dos indivíduos dependentes de substâncias psicoativas, licitas e/ou ilícitas (drogas).
- O tempo/duração da recuperação do grupo dos intervenientes ronda os 8.3 anos
- Os indivíduos do sexo feminino revelam um historial diferente, quanto ao tempo que permanecem dependentes de substancias psicoativas, comparativamente aos indivíduos do sexo masculino, 17.7 (feminino) vs. 22.4 anos (masculino). Os indivíduos do sexo feminino iniciaram a recuperação mais cedo, comparativamente aos homens – 37.2 vs. 39.2 anos.
- 65% dos participantes consideram que continuam em recuperação, enquanto 7% considera estar recuperado, vulgo «curado».
- 70% afirma ter participado, pelo menos uma vez, numa reunião dos grupos de ajuda mutua, por exemplo, dos Narcóticos Anónimos, Alcoólicos Anónimos e SMART Recovery.
- 69% afirma ter recebido apoio profissional/tratamento.
- 51%. afirma ter sido sujeito a medicação prescrita pelo medico.

Conclusões
Os autores do estudo, admitem serem defensores do conceito de recuperação das dependências de substancias psicoactivas lícitas e/ou ilícitas, concentrando assim os seus esforços, principalmente, sobre os efeitos positivos da recuperação:
  • Redução acentuada, na colocação dos filhos de pais dependentes de substâncias psicoativas em recuperação, em instituições de apoio à criança, assim como, em relação ao reagrupamento/estrutura familiar apresentam resultados positivos concretos.
  • O índice de violência domestica, em indivíduos adictos ativos calcula-se entre os 39%, enquanto a mesma taxa entre os indivíduos em recuperação calcula-se entre os 7%, uma diferença significativa de 32%.
  • Aumento da empregabilidade, segundo o relatório do estudo, 74% dos indivíduos em recuperação permanece durante longos períodos no local de trabalho e 70% afirma pagar impostos, as suas dividas, assim como, voltam a ter acesso ao crédito, por exemplo, em instituições bancarias. 
  • Apresentam taxas reduzidas de problemas com a justiça, por exemplo; prisão. Aqueles indivíduos em recuperação, de longa duração, gradualmente deixam de se envolver em actividades ilícitas.
  • A conclusão final dos autores, sobre este estudo, reforça que a recuperação das dependências de substancias psicoactivas, licitas e/ou ilícitas, vulgo drogas, não se resume somente à interrupção dos comportamentos problemáticos e ao consumo de drogas, visa também a adoção de estilos de vida responsáveis e positivos em prol do autoconhecimento (selfcare) e da sociedade.
  • 79.4% dos participantes no estudo, após terem iniciado a sua recuperação, refere ter participado em ações de voluntariado na comunidade e participado em grupos cívicos.


Nota pessoal: Este estudo vem reforçar e contrariar o estigma, a negação e a vergonha associadas aos indivíduos dependentes de drogas, vulgo toxicodependentes, termo em desuso, a Organização Mundial de Saúde, designa de dependência de substâncias psicoativas.
Se recuarmos duas décadas, os indivíduos dependentes de drogas eram considerados marginais e excluídos da sociedade preconceituosa e mal informada. O mesmo preconceito também se alastrava às suas famílias. Para agravar ainda mais o cenário, já dramático, existia a crença generalizada que as pessoas dependentes não conseguiam recuperar, ou melhor dizendo, não conseguiam ficar curadas do seu «vicio»; era uma condenação para o resto das suas vidas. O diagnostico era considerado muito grave e estes indivíduos só conseguiam estabilizar da sua condição recorrendo a medicação, em doses excessivas, prescritas pelos seus médicos e ao internamento em instituições de longa duração e isoladas da sociedade, como se de um vírus tratasse.

sábado, dezembro 20, 2014

Estrutura do cérebro associada à recompensa/prazer e a adicção



O abuso de drogas, substâncias psicoactivas, do Sistema Nervoso Central, lícitas e/ou ilícitas podem comprometer o funcionamento normal do cérebro (estruturas cérebro responsáveis pela recompensa/prazer) contribuindo assim para a adicção/dependência.
Alguns sintomas:

  • Síndrome da abstinência, vulgo ressaca.
  • Tolerância à substancia psicoactiva, aumenta a frequência, a dose e o consumo (abuso), vulgo prazer imediato e oscilação dos sentimentos.
  • Continuar a usar drogas apesar das consequências negativas, vulgo perda do controlo.
  • De acordo com recentes estudos, as mesmas estruturas cerebrais associadas à recompensa/prazer também estão relacionadas com outros comportamentos adictivos, tais como o sexo, o jogo, as compras, os relacionamentos e o distúrbio alimentar. 

 Veja o video

sexta-feira, outubro 24, 2014

O poder da palavra.



"Bom dia Caro João Alexandre!
 Regra do silêncio.
Chamo-me Maria José, tenho 40 anos, sou alcoólica (adicta) e estou em recuperação há 13 meses após internamento de 5 semanas e frequento as salas de Alcoólicos Anónimos (1) (AA).

A regra do silêncio reinou entre o meu ex. marido e eu durante todos os anos do meu consumo - quase 20 - e estendeu-se ao início da minha recuperação.

Foi sempre um acordo mútuo entre os dois. Eu acreditava que era uma componente do amor e um factor de protecção. Portanto, acreditava que era algo de positivo entre nós. Sentia muita gratidão pelo meu marido manter este segredo.

Conseguíamos, mais ou menos, esconder os meus consumos. Nos últimos anos, passei a beber de forma solitária, nunca ficava bêbeda, era discreta nas compras. O meu marido jurava que ninguém sabia, a preocupação era a família dele que desde a nossa falência nos ajudava financeiramente, assim como também se ocupava da nossa filha, de tenra idade, nenhum de nós trabalhava.

Oficialmente, eu estava doente e dependente das benzodiazepinas (2), que também era verdade. Por dia, tomava duas boas dezenas de comprimidos juntamente com o álcool. Não para me "drogar" ou me sentir "bem", nunca senti esse efeito. Fazia-o para me acalmar, buscava o efeito terapêutico, que não sentia, tal era a tolerância que já lhes tinha ganho. Na realidade, não podia passar sem elas.

quarta-feira, agosto 27, 2014

sexta-feira, agosto 15, 2014

Robin Williams- Homenagem ao actor e ao homem que lutou contra a adicção.



Algumas frases famosas do actor

  • A cocaína é a forma de Deus nos dizer que estamos a ganhar demasiado dinheiro.”
  • Pensava que a pior coisa era acabar sozinho. Não é. É acabar junto de pessoas que te fazem sentir só.”
  • “Não importa o que as pessoas te dizem, palavras e ideias podem mudar o mundo.”
  • Nunca lute com uma pessoa feia, pois ela não tem nada a perder.”
  • “Só tens direito a uma pequena dose de loucura, não deves desperdiçá-la.”
  • “Deus deu aos homens um pénis e um cérebro, mas infelizmente não lhes deu a capacidade de utilizar os dois ao mesmo tempo.”
  • “Sabe qual é a diferença entre um tornado e um divórcio? Nenhuma, em ambos os casos alguém está perdendo a casa.”
Soube da sua morte na passada segunda-feira. Fiquei em choque, sem palavras, e com imensas questões na minha cabeça, para as quais, ao longo da semana, procurei as respostas. Porquê? Como é possível?
O suicido é uma realidade cruel. Somos seres complexos e multitalentosos, quer na busca da realização pessoal, como na busca de soluções imediatas e irracionais para a dor, o sofrimento, o desespero e a solidão. É um paradoxo com o qual precisamos de viver, e por ultimo aceitar, o melhor possível.

Como não podia deixar de ser, e apesar de tanto se ter falado e escrito durante esta semana, tenho que prestar homenagem ao actor e ao homem que lutou, com todas as suas forças, contra a doença mental e a adicção e acabou por falecer de uma forma abrupta. Como adepto do cinema que sou, desde muito cedo, Robin Williams, foi dos actores que mais ajudou a compreender e a identificar, através dos seus mais variados papeis, a importância da sensibilidade, do sentido da humanidade, do sentido de humor, da paixão, do altruísmo, do sonho e da alegria, da irreverência contra o preconceito e o estereótipo, da coragem, etc. Os adjectivos que classificam este artista não têm fim, era uma força da natureza genial, tal como a grande maioria dos adictos que conheço. Por varias ocasiões, Robin veio publicamente, assumir a sua dependência de substâncias psicoactivas, vulgo drogas, (cocaína e alcoolismo) e reafirmar a esperança na recuperação, contra o estigma, a negação e a vergonha. Robin era actor, um marido, um pai e um membro activo da sociedade prestando apoio em várias causas sociais.  

Para terminar a minha homenagem, gostaria de reforçar que é um mito considerarmos que o suicídio é um acto de coragem. Não tem nada a ver com coragem. É um acto de alguém que está angustiado, só e desesperado, e naquele momento de sofrimento intenso, mas efémero, contempla o suicídio, como a solução definitiva para o desespero. Ironicamente, o seu último filme, com o título “Aproveita a vida” é sobre um homem decepcionado. O homem morre, mas a sua genialidade, permanecerá presente, na memória colectiva, para a eternidade. Os adictos são pessoas, de extremos, ora apaixonadas ora decepcionadas, porque procuram viver intensamente, por vezes, demasiadamente; é tudo muito.


RIP, Robin ( 1951-2014). As minhas condolências para a família que irá viver com esta tragedia, contra a sua vontade, para o resto das suas vidas. 

sábado, março 15, 2014

O «Vicio» de drogas, incluindo o álcool, é uma doença; não é uma escolha individual.


10 Questões importantes para reflectir sobre as dependências de drogas, incluindo o álcool, e o jogo patológico.

1. De acordo com estimativas das Nações Unidas (United Nations Office on Drugs and Crime - UNODC) existem mais de 10 milhões de pessoas dependentes de heroína no mundo. Em cada 1.000 consumidores de heroína, 2,6 morrem, por exemplo, de overdose. A heroína é uma substancia psicoactiva extremamente adictiva.

2. Sabia que o abuso de drogas, incluindo o álcool, distorce a percepção da realidade. As pessoas podem revelar-se irracionais, excêntricas e excessivamente desinibidas. Em alguns casos, podem revelar-se violentas.

3. Associado ao abuso e à dependência de drogas, incluindo o álcool, o individuo é sujeito à oscilação acentuada das suas emoções que podem variar entre o ódio e a euforia, do entusiasmo à apatia. Por exemplo, é frequente o individuo dependente, estar triste e apático, e ao consumir drogas, incluindo o álcool, proporciona a si mesmo uma sensação de felicidade, apesar de ser efémera.

4. Para um individuo dependente de drogas, incluindo o álcool, e o jogo patológico revela-se extremamente difícil ter a percepção sobre os efeitos e as consequências negativas dos seus comportamentos. A dependência é a causadora da maioria dos fracassos e da frustração tornando assim a vida insuportável e em alguns casos mais extremos pode revelar-se caótica. Quanto mais dificuldades, maior será a necessidade de recorrer ao comportamento problemático associado às dependências – abusar de drogas, incluindo o álcool, e/ou o jogo patológico.

5. No início do consumo de drogas ilícitas, estas intensificam a actividade; mais concentração, mais desinibição, bem-estar e alívio. Gradualmente, na dependência as drogas suprimem a actividade; menos concentração e perda de memória, mais desadequação e constrangimento, desconforto físico e psicológico.

6, Dependência de drogas incluindo o álcool.
Você sofre da síndrome de abstinência, vulgo ressaca?
Os sintomas de ressaca surgem quando o individuo abusa das substâncias psicoactivas, do sistema nervoso central até à intoxicação. Os sintomas da ressaca estão associados à frequência, à intensidade e à duração do abuso das drogas, incluindo o álcool.

7. Benzodiazepinas: medicamentos tranquilizantes e/ou ansiolíticos sujeitos a receita medica. São substâncias que geram dependência física e psíquica. Caso o abuso seja continuado, a interrupção abrupta representa um risco grave para a saúde. Algumas pessoas dependentes de benzodiazepinas são também dependentes de álcool e/ou outras drogas ilícitas (adicção cruzada) - uso concomitante de substâncias.

8. Sabe o que são os analgésicos? São drogas poderosas que interferem com a transmissão de sinais eléctricos do sistema nervoso central pela qual entendemos e percebemos a dor. A maioria dos analgésicos estimula as partes do cérebro associadas ao prazer. Se toma medicação siga a prescrição do seu médico. Não faça auto medicação.

9. Alguns efeitos do abuso do álcool e/ou dependência: descoordenação motora, perda da concentração e da memória, danos cerebrais, depressão e doenças do fígado (cancro). O abuso do álcool e a dependência afectam seriamente as relações pessoais; família, trabalho, sociais.


10. A dependência de drogas, incluindo o álcool, e o jogo afectam seriamente o desempenho e os relacionamentos profissionais; abstenção laboral, perda de memória e concentração, negligencia, falta de ética profissional, conflitos com colegas e entidade patronal.

sábado, fevereiro 15, 2014

A adicção não é um vírus


A recuperação da adicção é um processo para o resto da vida.
Após as noticias recentes sobre o falecimento do actor de Hollywood,  Philipe Seymour Hoffman vítima de overdose de drogas ilícitas, intoxicação que ocorre quando  o individuo consome uma determinada quantidade de droga que os sistemas vitais do organismo são impedidos de funcionar adequadamente,   veio levantar a questão sobre a importância da abstinência, da recuperação da adicção e da recaída. 
Philipe Seymour Hoffman permaneceu abstinente durante 23 anos consecutivos. Se o actor faleceu aos 47 anos, fazendo as contas, parece ter iniciado a recuperação com 24 anos. Iniciar a recuperação com esta idade, por si só é um feito extraordinário, mas por outro lado, revela, desde cedo e ao longo do seu desenvolvimento, um individuo vulnerável (predisposição) aos efeitos e consequências da dependência de substâncias psicoactivas, do Sistema Nervoso Central, após duas décadas abstinente, paradoxalmente, recaiu e acabou por morrer de overdose. Não faleceu de cancro ou de doença cardíaca, mas vítima da adicção.

Já em meados de 2013, segundos os media norte americanos, Philipe S. Hoffman deu entrada num centro de tratamento para uma desintoxicação, durante dez dias, depois de ter recaído em heroína. Após ter completado o programa de desintoxicação, aparentemente parece ter voltado a frequentar as reuniões de Alcoólicos Anónimos (AA), note-se, já o fazia desde os 24 anos de idade, até 2014. Uma semana antes de morrer, foi à sua última reunião.

Este incidente, adquiriu um destaque mediático visto Philipe S. Hoffman, ser um actor galardoado com vários prémios, todavia, gostaria de transpor este caso para o cenário da dependência de drogas, da recuperação e da recaída em Portugal. Existem historias semelhantes de indivíduos adictos, em Portugal, que também permanecem períodos consideráveis abstinentes, em recuperação, mas que acabam, por um conjunto de motivos, reiniciar os consumos de substâncias psicoactivas, incluindo o álcool.
Como profissionais, quando nos deparamos com um individuo adicto a substâncias psicoactivas, vulgo drogas, devemos considerar a abstinência uma meta prioritária? A minha resposta é sim. Um individuo com um historial significativo de dependência (adicção) precisa de ajuda e recursos, a fim de repensar, sobre o seu estilo de vida e as drogas.

De acordo com a minha experiencia profissional, visto ainda não existirem estudos em Portugal sobre o tratamento, a recaída e a recuperação da adicção às drogas, o primeiro ano de abstinência é um período crucial, mas ao mesmo tempo critico para o individuo. A adicção às drogas lícitas, incluindo o álcool, e as ilícitas, interferem e comprometem o funcionamento e o desenvolvimento normal do cérebro – estruturas associadas ao prazer e recompensa, assim como a motivação, a memória e a capacidade de tomar decisões. A adicção, conforme vai evoluindo, gradualmente vai incapacitando o individuo de sentir, pensar (défices cognitivos) e tomar decisões saudáveis, ao mesmo tempo, vai deteriorando os vínculos entre as pessoas significativas; perda do controlo, síndrome da abstinência, problemas familiares e profissionais, tolerância às drogas, impotência associado ao sentimento de culpa e a vergonha, a negação e o estigma. Na perspectiva de um individuo adicto, a abstinência total de drogas é interpretada como uma privação radical, com custos psicológicos e sociais consideráveis, porque as substâncias psicoactivas, apesar das consequências negativas funcionam como uma almofada, um amortecedor, um «remédio» e representava um estilo de vida.

Generalizando, o consumo do álcool é encorajado na nossa cultura, somos seres sociais que utilizamos as bebidas alcoólicas com o intuito de «olear» a comunicação. Como profissionais, este tipo de paradigma poderá influenciar a nossa abordagem. Um individuo adicto fica incapaz de adoptar comportamentos saudáveis se consumir drogas, incluindo o álcool. Com muita frequência, escuto este tipo de comentários, entre indivíduos adictos em tratamento das drogas: «Abstinência total? O quê? Nunca mais vou usar drogas? Beber álcool? No verão… ao jantar entre amigos e beber um copo… fumar um charro de vez em quando?»  
Um individuo adicto, mesmo em recuperação por longos períodos, não consegue erradicar das suas memórias as sensações e experiências intensas de bem-estar e alivio que as drogas proporcionaram. Este estilo de vida, centrado nos efeitos das drogas, funcionava como um excelente antidoto de forma a gerir sentimentos desconfortáveis associados ao stress/tensão, ao tédio, à frustração originando uma sensação de despropósito em relação ao rumo da sua vida. A dependência psicológica das substâncias, não desaparece só porque o corpo está livre de drogas – lógica adictiva, exacerbado pelas características da personalidade. Costumo afirmar que viver dependente de drogas é uma ocupação, idêntica ao um emprego, que consome imenso tempo e energia, 24/24 horas, 7 dias por semana e 365 dias por ano. É o assunto mais importante e central na vida do individuo, mais importante até que a própria família, incluindo as crianças, a saúde, a carreira profissional, etc, etc.
Quais são os motivos que levam um individuo abstinente e em recuperação, durante 23 anos, a reiniciar o consumo? Após vários períodos duradouros em recuperação, alguns indivíduos decidem violar o voto da abstinência. Eis relatos que ouço, nas consultas:
  • “A minha vida está porreira, por isso, comecei a beber bebidas alcoólicas às refeições ou quando saio com amigos à noite. Nada de anormal.”
  • “Comecei a beber álcool, socialmente e tudo corria bem durante alguns anos, até ao dia que voltei a consumir a minha droga de escolha, (nestes casos pode ser heroína ou cocaína) e rapidamente a compulsão tomou conta de mim. Ao fim de umas semanas já estava outra vez agarrado às drogas.»
  • “Estive abstinente, durante 18 anos, a minha vida estava óptima, mas um dia, a relação com o meu marido acabou e decidi divorciar-me. Senti-me desesperada e sozinha com dois filhos nos braços. Perdi o sentido da minha vida, despertei para uma realidade que não estava preparada e a única solução foi reiniciar o consumo de drogas. Apesar de estar abstinente tanto tempo, soube onde me dirigir para comprar drogas, como consumir e decidi ocultar esta situação da minha família e no trabalho. Mais tarde, quando descobriram que andava a consumir drogas e alcool, foi uma tragédia…foi uma grande desilusão tão grande que nem consigo descrever.”
  • “Estive abstinente de drogas, durante 14 anos, adorava o meu trabalho, tinha uma excelente carreira profissional, um bom ordenado e era feliz. Um dia, de repente, fui despedido e fiquei no desemprego. Perdi qualidade de vida e senti-me injustiçado. Andei uma semana, cheio de pena de mim próprio, fiquei deprimido, não conseguia suportar a minha cabeça e estar com a família e amigos. Dormia até há hora do almoço e gerou-se, dentro de mim, uma sensação de inutilidade e impotência insuportável. Um dia, não sei explicar como, decidi começar a beber bebidas alcoólicas, e uns meses depois reiniciei o consumo nas drogas.”
  • “Estive abstinente de drogas, incluindo o álcool, durante 20 anos, criei uma empresa e um projecto de vida. Era um sonho tornado realidade, depois do inferno que passei com a adicção às drogas. Decidi reconstruir a minha dignidade e a auto estima. As pessoas de família começaram a acreditar em mim, inclusive o meu pai, ajudou-me financeiramente para avançar com o meu projecto profissional. Depois de iniciar a empresa, não pensava noutra coisa, que consistia em obter reconhecimento e a concretização de um sonho de infância. Passados 18 anos, trabalhava 12 a 14 horas, não dormia, andava ansioso e sempre em stress, só pensava em ganhar dinheiro. Sabia que para ter sucesso precisava de produzir, ganhar mais dinheiro, manter o estatuto e dar o meu melhor. Vivia única e exclusivamente para o trabalho. Um dia, fui parar, às urgências do hospital, deprimido e com ataques de pânico. Este episódio, veio alertar-me para a minha incapacidade, de gerir o negocio e ganhar mais dinheiro, sabia como atenuar a angustia, a depressão e a ansiedade. Reiniciei o consumo de bebidas alcoólicas, e passados 2 anos o consumo de cocaína, socialmente com amigos para me divertir e descomprimir, mais tarde, a heroína e os ansiolíticos.”

Para terminar, os indivíduos com um historial significativo de dependência (adicção) de substâncias psicoactivas, do Sistema Nervoso Central, lícitas incluindo o álcool e medicação prescrita pelo médico (do grupo das benzodiazepinas – por exemplo, os ansiolíticos) e as ilícitas devem considerar a abstinência uma regra. Tal como referi, estes indivíduos adictos desenvolveram uma predisposição, uma vulnerabilidade física e psicológica, ao contacto com drogas, que os colocam em risco de reiniciarem a adicção activa, que pode ser despoletada a qualquer altura, evento adverso e dor intensa, doença, etc, independentemente das suas vontades. Isto é, enquanto permanecerem abstinentes, a adicção permanece controlada; refiro-me á compulsão e à obsessão associado às drogas - ao prazer. De notar que, quando afirmo abstinência, refiro-me à «auto medicação», porque existem excepções, indivíduos adictos, em recuperação, precisam de medicação, e acima de tudo, acompanhamento profissional digno. Ao contrário, daquilo que algumas tendências e tradições disfuncionais da nossa cultura teimam em reforçar, é possível ter uma vida plena abstinente, sem drogas lícitas, incluindo o álcool, e as drogas ilícitas.

São necessários estudos inovadores, não me refiro somente às causas, aos sintomas da dependência das drogas, incluindo o álcool, mas aquelas pessoas, adictos e adictas, que após um historial de adicção activa, permanecem longos períodos em recuperação. Paralelamente, precisamos de contrariar o estigma, a negação e a vergonha. Ainda ouço, com frequência pessoas, e alguns profissionais, a afirmarem que os indivíduos em recuperação duradoura, são «ex drogados» ou «ex toxicodependentes». Quando não compreendemos determinados atitudes e comportamentos dos outros, a nossa tendência é para criticar, e em casos de ignorância, dizer mal. É necessário retirar os rótulos, desmistificar e corrigir certos paradigmas disfuncionais e profissionais desactualizados, revelarmos mais humildade e reconhecimento alheio, pensarmos «fora da caixa», a fim de compreendermos melhor quais são as competências e os recursos, que dotam estas pessoas fantásticas e resilientes perante o apelo (perpétuo) dos efeitos das drogas lícitas e/ou ilícitas. Eles e elas não estão imunes ou curados, porque a adicção não é um vírus, pelo contrário, investem na prevenção da recaída e consideram que a recuperação acrescenta significado e propósito ao rumo das suas vidas. Para todo o efeito, também são uma referência para a família, para comunidade e a sociedade, incluindo profissionais. Eles andam aí à espera que de serem chamados a participar no tratamento, na recuperação e na prevenção da recaída. Recuperar é que está a dar contra o estigma, a negação e a vergonha.


Philipe S. Hoffman, R.I.P. e as minhas condolências para a família. 

sábado, novembro 02, 2013

Paradoxo


"Paradoxo em recuperação.
Rendemo-nos para vencer.
Perdoamos para ser perdoados.
Para manter o que temos, entregamos, em vez de controlar.
A força advém da fraqueza.
Enfrentamos a dor para ficar mais resilientes.
A luz advém da escuridão.
A independência advém da dependência.
Vivemos, o mais intensamente possível, um dia de cada vez, sabendo que um dia iremos morrer.” (tradução - autor anónimo)

Comentário: Apesar da complexidade da adicção (e do ser humano), hoje sabemos que a adicção é uma doença e podemos afirmar que existe esperança no tratamento e na recuperação.
O que é que significa a palavra Paradoxo? Segundo o dicionário da língua portuguesa é:
“Opinião contrária à comum.” 

Na vida, aprendemos através da dor, que aquilo que pensamos estar certo, pode mais tarde estar errado. Perante o perigo e o risco, associado aos comportamentos adictivos, desenvolvemos um sentimento de impunidade e invencibilidade que nos embebeda, extremamente apelativo, arriscado, intenso e sedutor; “É perigoso…mas vou controlar a situação. A vida são dois dias e um é para acordar.” Na adicção activa, quando julgamos que estamos a controlar, depois em retrospectiva, aprendemos com os erros, e impotentes, concluímos que afinal a realidade é bem diferente. 
   
Segundo o dicionário de Psicologia, de Roland Doron e Françoise Parot, paradoxo “é uma proposição ao mesmo tempo verdadeira e falsa, que acarreta deduções contraditórias, entre as quais a razão oscila interminavelmente; dilema, círculo vicioso. “

Mais uma vez, tal como acontece na vida, vivemos entre duas linhas distintas mas que estão interligadas entre si, a ilusão e a realidade. A ilusão permite-nos fantasiar, criar e sonhar, a realidade permite-nos ser honestos, disciplinados e responsáveis. O mesmo fenómeno sucede na recuperação da adicção. A pessoa impotente, de acordo com o léxico comum, significa uma pessoa vulnerável, fraca e condenada ao fracasso. Todavia, algumas pessoas identificam a vulnerabilidade (impotência) em relação à adicção, todavia isso não é impeditivo de terem o controlo sobre as suas atitudes, comportamentos e adoptar estilos de vida saudáveis e construtivos. Por exemplo, o individuo que está abstinente de drogas, incluindo o álcool, em recuperação, é impotente perante as substâncias psicoactivas alteradoras do humor (sistema nervoso central), porém consegue ter o controlo necessário para fazer a sua vida. O individuo que é adicto ao jogo, ao sexo, distúrbio alimentar que está em recuperação é impotente perante determinados atitudes e comportamentos de risco, que reforçam a logica adictiva (compulsiva), porém consegue ter o controlo necessário para executar as mais diversas tarefas e actividades do seu dia-a-dia.

Um dos paradoxos muito comuns. Não somos a pessoa que dizemos ser ao nosso parceiro/a, ao familiar, nosso amigo/a, colega de trabalho; na realidade, somos aquilo que concretizamos; aquilo que fazemos que está certo e/ou errado. Por exemplo, empregamos palavras elaboradas e evocamos princípios, para justificar um exercício de retórica, mas aquilo que fazemos, na realidade não é coerente e íntegro.
Para si que está em recuperação da adicção integre os paradoxos da vida de acordo com o alinhamento das suas próprias convicções e princípios. Outro dos paradoxos que a maioria dos adictos, em recuperação encontra é; a recuperação da adicção é um projecto individual, todavia porém, é reforçado pela qualidade dos relacionamentos das outras pessoas. Da adicção ninguém recupera sozinho. Todos nós possuímos uma história para contar, todos nós temos problemas e a dada altura das nossas vidas precisamos de ajuda.







quarta-feira, maio 08, 2013

A recuperação faz toda a diferença



De acordo com as últimas investigações, através de imagem de ressonância magnética, sabemos que a adicção é uma doença do cérebro. Determinados comportamentos e/ou o abuso de substâncias psicoactivas interferem e afectam a estrutura cerebral responsável pelo prazer, motivação, memoria (sistema de recompensa). Através dos comportamentos adictivos e abuso de substâncias psicoactivas adictivas, provoca uma modificação dos circuitos neuronais e o aparecimento de sintomas físicos, psicológicos e espirituais no individuo através da procura e recompensa patológica do prazer e alivio imediato. Para que você perceba melhor, esta região do cérebro controla os movimentos do corpo[i] o núcleo caudado (região do cérebro) situa-se na parte interna é muito primitiva e faz parte daquilo que se chama cérebro reptilário. Esta região do cérebro (sistema de recompensa) evoluiu muito antes dos mamíferos, há aproximadamente 65 milhões de anos. O núcleo caudado ajuda-nos a detectar e a aperceber de determinada recompensa, a seleccionar entre recompensas, a preferir uma recompensa específica, a prever uma recompensa e a esperar uma recompensa.

Se você é um adicto/a toda a sua vida (família, trabalho, amizades, saúde, recursos financeiros, etc) gira em torno da recompensa da adicção a comportamentos (jogo, compras, sexo, dependência emocional, distúrbio alimentar) e/ou a substâncias psicoactivas lícitas, incluindo o álcool, e/ou ilícitas, geradoras de dependência e fica comprometido/a em termos das suas decisões (atitudes e comportamentos), por outras palavras; perde o controlo sobre as já referidas substâncias e/ou os comportamentos adictivos.

Áreas do cérebro afectadas pela adicção:
  • Recompensa (motivação)
  • Prazer
  • Motora (Aptidão psicomotora)
  • Humor
  • Memoria (processamento)
  • Sono
  • Cognição (défice cognitivo)

Considera que a sua adicção está a comprometer seriamente a sua qualidade de vida e a qualidade dos relacionamentos com pessoas significativas? Se estiver confuso/a em relação à resposta pode enviar um email para xx.joao@gmail.com e colocar as suas questões. Todos os dados são confidenciais (sigilo total).




[i] Referências bibliográficas
Schultz, 2000; Delgado e colegas, 2000; Elliot e colegas, 2003; Gold, 2003

quarta-feira, janeiro 23, 2013

Vale a pena recuperar das dependências (Adicção)?



50 Razões pela qual você deve interromper a progressão dos comportamentos adictivos: 
  • Drogas lícitas, incluindo o álcool, e/ou ilícitas, 
  • Dependência emocional, vulgo codependência,
  • Distúrbio alimentar, 
  • Sexo,
  • Jogo,
  • Compras,
  • Furto.

1. Quebra o silêncio e o isolamento. Deixa de ter vida dupla, sem segredos e mentiras relacionados com a adicção.
2. Assume o controlo da sua vida quebrando a negação, o estigma e a vergonha associados aos comportamentos adictivos.
3. Aprende que a adicção é uma doença; não é uma fraqueza e não é um ato voluntario.
4. Você participa na solução do problema, em vez de contribuir para o agravamento dos sintomas da adicção.
5. Deixa de ser a “ovelha negra” da família e o centro dos problemas – “bode expiatório.”
6. Interrompe a compulsão, da dependência de substâncias psicoativas lícitas, incluindo o álcool, e as ilícitas, através da abstinência.
7. Programa de recuperação; plano e objetivos específicos de vida.
8. Ao pedir ajuda profissional não está sozinho/a; quebra a solidão e a vergonha.
9. Aprende a lidar, de uma forma construtiva, com os sentimentos dolorosos; raiva, dor, medo, ressentimento, vergonha e culpa.
10. Adquire autonomia, mestria e propósito no rumo da vida.
11. Relação saudável com colegas e empresa: faz parte da equipa; em vez de fazer parte dos problemas.
12. Melhora a saúde física e mental.
13. Faz mudanças significativas na sua vida: atitudes e comportamentos – você é o agente da mudança.
14. Gestão construtiva dos recursos financeiros; poupanças, investimentos, etc.
15. Melhora a performance e produtividade no trabalho ou faz mudanças na área profissional.
16. Melhora a qualidade da relação com os colegas de trabalho e/ou patrão.
17. “Deixa de cometer os mesmos erros à espera de resultados diferentes”.
18. Estabelece relacionamentos saudáveis e positivos com as outras pessoas.
19. Reconquista a dignidade e a auto estima afetada pelos comportamentos adictivos.
20. Liberdade de escolha e decisão no rumo da sua vida (sair da zona de conforto).
21. Faz planos realistas, cumpre e recompensa-se, em vez de fazer promessas infindáveis que não cumpre, que servem somente como álibi, desculpas e justificações.
22. Liberta-se da auto piedade e pára de culpar os outros e o mundo à sua volta; responsabilização e respeito.
23. Faz um serio investimento na sua vocação.
24. Desenvolve relacionamento de intimidade, honestidade e compromisso com o seu parceiro/a.
25. Desenvolve competências individuais e sociais; assertividade, gestão de emoções, estabelece limites, gere a impulsividade, gestão do stress, organiza atividades saudáveis (hobbies).
26. É devolvido/a  à sanidade. Interrompe a logica adictiva (circulo de pensamentos que reforçam as crenças e padrões de comportamentos disfuncionais).
27. Melhora o relacionamento com a família, incluindo as crianças.
28. Vive um dia de cada vez.
29. Adia o prazer imediato. Define critérios saudáveis e prioridades, no dia-a-dia.
30. Aprende a sorrir, a divertir-se e a não se levar demasiado a sério.
31. Trabalha as competências da comunicação na gestão dos conflitos; é assertivo. Não é passivo/a ou agressivo/a ou manipulador/a.
32. Aprende que os ressentimentos do passado são fonte de aprendizagem em vez de serem fonte de descontentamento, remorso, ódio – ressentimentos de “estimação”.
33. Identifica os efeitos negativos do perfecionismo e cria uma lógica construtiva e mais realista de acordo com as suas limitações e talentos.
34. Desenvolve hábitos alimentares saudáveis e diversificados.
35. Integra os paradoxos no seu devir, alterando paradigmas disfuncionais; as pessoas não são perfeitas, sofremos desilusões, mas também desiludimos os outros.
36. Identifica as suas emoções e é honesto/a. Sentir é OK, não existem sentimentos certos e errados.
37. Identifica as áreas de risco de deslize/recaída e os fatores de proteção – abstinência/recuperação. A recuperação é uma prioridade na sua vida.
38. Desenvolve e promove uma relação espiritual com uma entidade/algo superior, sem dogmas e ou divindades: conceito individual e livre (espiritualidade).
39. Realiza alguns dos seus sonhos, todavia aprende a importância da persistência e da esperança; basta acreditar.
40. Adota comportamentos saudáveis que reforçam e promovem a sua sexualidade e o sexo, sem mitos, preconceitos ou tabus.
41. Desenvolve hábitos e comportamentos saudáveis com a alimentação, com o seu corpo e o seu peso.
42. Aprende a definir limites nos relacionamentos de intimidade: existe o amor saudável e/ou a dependência emocional, que não é amor.
43. Aprende a importância da genuinidade, da coerência, da integridade e da liberdade.
44. Desenvolve objetivos de vida auto motivacionais. Busca a motivação intrínseca.
45. Aprende que para se ser feliz é preciso sair da zona de conforto.
46. Elabora com regularidade o diário da Gratidão. Do que é que se sente grato/a?
47. Identifica padrões de comportamentos disfuncionais na gestão do stress crónico.
48. Identifica a diferença entre a vergonha saudável e a vergonha tóxica.
49. Desenvolve exercício físico e hábitos saudáveis de alimentação.
50. Você não é o único e não está sozinho/a.
Esta lista não tem fim… Recuperar é que está a dar!

sábado, dezembro 29, 2012

É um deslize ou é uma recaída?


De acordo com a abordagem terapêutica às dependências de substâncias psicoativas lícitas, vulgo drogas, incluindo o álcool, e as ilícitas, o tratamento deve contemplar a abstinência. É possível, para um individuo adicto ter um estilo de vida perfeitamente saudável abstinente de qualquer tipo de substâncias psicoativas lícitas, incluindo o álcool, e/ou ilícitas, só com uma única exceção, salvo medicação sujeita a prescrição medica, acompanhamento profissional e responsabilidade do doente em seguir o plano de tratamento e a sua recuperação.

Círculo da adicção: A doença da adicção é influenciada por um conjunto complexo de fatores (neuro-biológicos-psico-sociais), não é um vício (designação moral), falta de força de vontade e/ou característica da personalidade e/ou um ato voluntario. Após décadas de investigação sobre a doença da adicção, não existe no mundo, um programa que garanta a prevenção da recaída, o tratamento ou a recuperação de uma forma totalmente eficaz.
 Para todos os efeitos, a recaída ou o deslize, consiste na quebra da regra/princípio relativamente à abstinência. Ao contrário do que muita gente pensa, a recaída e/ou o deslize, não é um episódio isolado e na maioria dos casos não acontecem por acaso, é uma sucessão de acontecimentos críticos, conjunto de atitudes e comportamentos, que culminam com a ingestão do consumo de substâncias psicoactivas. Processo de recaída: começa em A - atitudes e comportamentos que conduzem o individuo a B – um episódio; ingestão/consumo da substância psicoativa.
Eis algumas perspectiva, de acordo com a minha experiencia profissional, sobre o que é recaída e o significado de deslize.

Qual é a diferença entre a recaída e deslize?
Recaída é:
O individuo perde o controlo do seu comportamento após a ingestão de substâncias psicoactivas lícitas, incluindo o álcool, e/ou lícitas; acontece quando é despoletada a compulsão pelo efeito da substância (sensação associada ao prazer). Este tipo de abuso de drogas visa somente a intoxicação e a alienação da realidade. Esta reação complexa, não se pode confundir com o controlo ou a falta dele. Não é o adicto que escolhe perder o controlo e/ou ser adito. Este mecanismo é uma reação da adicção após a ingestão das substâncias psicoactivas lícitas, incluindo o álcool, e/ou ilícitas, isto é, a ingestão da substancia afeta e compromete a forma como o individuo pensa, sente e age. Alguns indivíduos estão mais vulneráveis do que outros a este fenómeno.
No caso da recaída, após a compulsão ser despoletada, pelo efeito das substâncias psicoactivas, o adicto é incapaz de prever as consequências do seu comportamento (família, saúde, trabalho, justiça, dinheiro), nos dias, semanas ou meses seguintes, onde podemos incluir a recusa de ajuda de pessoas significativas a fim de retomar a abstinência.

Qual é a diferença entre a recaída e deslize?
Recaída é:
Quando o individuo compreende, reconhece e aceita o conceito de doença (Adicção) e supostamente afirma "Sou um adicto em recuperação, preciso de me responsabilizar pela abstinência, pelo tratamento e recuperação da adicção através das minhas atitudes, comportamentos e caso seja necessário apoio profissional." A fim de um individuo atingir este grau de conhecimento sobre a sua condição (Adicção) são necessários, aproximadamente seis a doze meses, dependendo da motivação para a mudança, do estado clinico do individuo e danos colaterais provocados pela dependência das drogas. Para compreender a adicção, o individuo deve estar abstinente de substâncias psicoactivas, há pelo menos um ano ou mais, por exemplo cinco anos. 
Recaída significa quando o individuo, apos o consumo repetitivo, identifica o síndrome da abstinência, vulgo ressaca e necessita de apoio profissional para interromper a progressão da doença.
Podemos exemplificar através de outra doença cronica. Tal como acontece ao individuo diabético, após sintomas, sinais e exames médicos é-lhe diagnosticado diabetes. É informado sobre a doença, os cuidados, o estilo de vida saudável a fim de manter a doença estável e um estilo de vida saudavel, todavia, o doente decide o contrário, ignora e negligencia o tratamento, agravando o quadro clinico, a este comportamento também podemos considerar uma recaída.

Qual é a diferença entre a recaída e deslize?
Deslize é:
Após um período longo de abstinência, mais de doze meses, o individuo consome substâncias psicoactivas, durante um curto período de tempo (frequência e duração), após este episódio de consumo, consegue retomar a abstinência. Neste caso, podemos considerar que a compulsão não foi despoletada. O individuo conseguiu apoiar-se e fazer uso das suas competências cognitivas (auto critica, sentido de auto eficácia, gestão das emoções – vergonha, culpa, medo, frustração) e recursos (procurou ajuda e fim de interromper a ingestão das drogas). Mais uma vez, como a compulsão não foi despoletada, o deslize, tal como a recaída, não se pode confundir com o controlo ou a falta dele.

Qual é a diferença entre a recaída e deslize?
Deslize é: 

Quando o individuo não compreende e ou reconhece o conceito de doença (Adicção). Por exemplo, indivíduos resistentes à mudança de atitudes e comportamentos, que permanecem abstinentes durante um curto período de tempo (ex. menos de 6 meses), mas depois retomam os consumos e depois a abstinência.
Qual é a diferença entre a recaída e deslize?
Quando pensarmos recaída e ou deslize é preciso de avaliar a história (passado/presente) de vida dessa pessoa (o seu mundo).
Você sabia que a depressão e/ou a ansiedade e a adicção (co-morbilidade) podem afectar e comprometer as competências cognitivas individuais e sociais necessárias à manutenção da abstinência? Este individuo está mais exposto ao deslize e ou à recaída. Importante: Cada caso, um caso.

Qual é a diferença entre a recaída e deslize?
Não podemos determinar, segundo valores morais, vulgo vicio, o que é a adicção. O que é que  significa recaída e ou deslize? Felizmente, hoje em dia, a medicina da adicção permite-nos entender melhor este fenómeno do ponto de vista neuro-biologico, psicológico e social. Faz parte do processo do tratamento da doença, da ocorrência de deslizes e/ou recaídas e recuperação. É normal, existem algumas pessoas vulneráveis e expostas à adicção, à recaída e/ou ao deslize, se for o seu caso, peça imediatamente ajuda, não se esconda atrás do silêncio da negação e ou da vergonha. Você não escolheu ser adicto/a.
 Algumas pessoas conseguem permanecer abstinentes de substâncias, durante longos períodos de tempo abstinentes, por exemplo 20, 30, 40 anos e graças a elas podemos aprender com a sua experiência, todavia, a escolha do estilo de vida em recuperação depende da decisão de cada um.

Qual é a diferença entre a recaída e deslize. 
Conceito de doença da adicção (tradução). Segundo a Sociedade Americana da Medicina da Adicção a adicção é uma doença primária, crónica que interfere e afecta o sistema/estrutura do cérebro responsável pelo prazer, pela motivação e memoria e os circuitos neuronais adjacentes. Sabe-se que uma alteração e disfunção destes circuitos neuronais conduzem ao aparecimento de sintomas a nível biológico, psicológico, social e espiritual no indivíduo, que se refletem na busca e recompensa patológica do prazer e alivio, através do consumo de substâncias psicoactivas (lícitas e/ou ilícitas) e/ou outros comportamentos (exemplo, jogo). Por outras palavras, a Adicção funciona como uma “almofada” perante determinadas situações e adversidades ao longo da vida do indivíduo. A adicção não é um sintoma de outro tipo de patologia.

Qual é a diferença entre a recaída e deslize? 
Antes de respondermos a esta pergunta é preciso entender e aprofundar o conhecimento sobre o conceito de doença e de recuperação (ciência e experiencia empírica).  É um esforço conjunto entre indivíduos adictos em recuperação, suas famílias e profissionais, e da sociedade em geral.
De acordo com a American Society of Addiction Medicine a adicção é uma doença.
Apesar do consumo de drogas ser um ato voluntário, ninguém escolhe ficar adicto. Apesar das substancias psicoactivas serem adictivas, geradoras de dependência física e/ou psicológica, porque é que umas pessoas consomem drogas/álcool e se tornam adictas e outras pessoas não? Siga o link
http://www.asam.org/research-treatment/definition-of-addiction
Visto a adicção ser uma doença cronica, progressiva e complexa no seu tratamento, qual é a motivação para o individuo recuperar da adicção? Como é que se ajuda um individuo adicto, dependente de drogas, incluindo o álcool, que recusa ajuda? Pela complexidade da adicção, o individuo e a sua família precisam de ajuda profissional.

Recuperação da adicção é um estilo de vida gerador de escolhas saudáveis (nível físico, mental e espiritual, sem dogmas e/ou divindades) integradoras e coerentes com os valores da família, da comunidade e da sociedade. Recuperação da adicção contempla a abstinência onde não existem consequências diretas dos comportamentos associados ao consumo, abuso e dependência de quaisquer substâncias psicoativas.
Se você se considera um adicto a drogas lícitas, incluindo o álcool, e as ilícitas qual é o seu conceito de recuperação? Gostaria de contar com a sua participação para o debate sobre esta questão.

quinta-feira, dezembro 20, 2012

O cérebro adicto



Este excerto faz parte de um artigo impresso pela primeira vez na Harvard Mental Health Letter , edição de Julho de 2004.

As dependência de drogas têm sido um problema persistente ao longo de centenas de anos, mas somente na ultima década, os cientistas compreenderam claramente alguns fatores importantes sobre a adicção: sabemos que provoca mudanças duradouras nas funções cerebrais que são difíceis de reverter. Na prática, isso significa que existem muitos cérebros afetados, quase 2 milhões de indivíduos dependentes de heroína e em cocaína, talvez 15 milhões de alcoólicos, e dezenas de milhões de fumadores de cigarros nos Estados Unidos. Qualquer que seja a solução à vista, será sempre extremamente complexa, entretanto sabemos muito mais hoje, do que há 20 ou mesmo 5 anos atrás, sobre os efeitos das substâncias psicoativas, vulgo drogas, geradoras de dependência no cérebro, assim como também podemos utilizar este conhecimento no tratamento e na prevenção.

“Porque é que o cérebro prefere o ópio aos brócolos?” A dependência foi designada desta forma por Steven Hyman, um ex-diretor do Instituto Nacional de Saúde Mental. A resposta envolve o núcleo accumbens, um agrupamento de células nervosas que se encontram abaixo dos hemisférios cerebrais. Quando um ser humano ou outro animal executa uma ação que satisfaz uma necessidade ou cumpre um desejo, o neurotransmissor chamado dopamina é libertado no núcleo accumbens e produz prazer. Serve como um sinal de ação para com o mecanismo da sobrevivência ou a reprodução, seja direta ou indiretamente. Este sistema é designado de via de recompensa. Quando fazemos algo que oferece essa recompensa, o cérebro regista essa experiência e estamos propensos a repeti-la novamente. Todavia, quaisquer danos nesta zona do cérebro e o abuso de drogas, que liberta dopamina, acabam por comprometer o funcionamento normal desta estrutura cerebral.
Na natureza as recompensas surgem após algum esforço e o seu efeito não é imediato, todavia, com as drogas as pessoas descobrem um atalho, sentem gratificação e prazer sem esforço e o seu feito é imediato. Isto é, o cérebro produz quantidades anormais de dopamina. Neste âmbito, o prazer não está a ser usado para a sobrevivência nem para a reprodução, por isso, a evolução não forneceu ao cérebro uma forma de se proteger. Assim a capacidade natural para produzir dopamina (sistema de recompensa no cérebro) é reduzida e a única forma de o cérebro cumprir as suas funções de libertação de dopamina é somente através do consumo de mais droga. O cérebro vai perdendo as suas funções e recursos a fontes de prazer menos imediatas e mais poderosas de recompensa. O dependente vai necessitando de doses mais elevadas e frequentes para obter a mesma sensação de prazer e bem-estar. Por vezes, a motivação do dependente para consumir drogas pode ser reduzida e/ou as drogas consumidas já não proporcionarem o prazer desejado, no entanto, a estrutura do cérebro responsável pelo prazer exige que sejam elas consumidas.

Memórias convincentes
As mudanças no sistema de recompensa por si só não podem explicar o fenómeno da adicção. Tal como afirmou, Mark Twain sobre o seu hábito de fumar, “Parar de fumar é fácil.”. Ele tinha feito inúmeras tentativas para interromper o consumo de tabaco. Muitos dependentes passam longos períodos de tempo sem consumir a sua droga de escolha, mas correm o risco de recaída, mesmo após anos de abstinência, mesmo quando o circuito de recompensa de dopamina teve tempo de suficiente para recuperar. Estas pessoas são vítimas de estímulos, designadas de reflexo condicionado.

Alterações nas ligações entre as células cerebrais induzidas por drogas estabelecem associações entre a experiência com a droga e as circunstâncias em estas que ocorrem. Estas memórias implícitas podem ser vividas/recordadas intensamente quando os dependentes estão expostos a qualquer lembrança sobre essas situações, tais como; estado de humor, situações, pessoas, lugares ou a própria substância. Um dependente de heroína pode estar em perigo de recaída quando vê uma agulha hipodérmica, um alcoólico quando se cruza com o bar/café onde ele costumava beber ou quando encontra um individuo que foi seu companheiro de bebida. Qualquer adicto pode retomar o hábito ou o estado de humor que ele utilizou para voltar a consumir drogas, seja através de um deslize ou de uma recaída. Ele nunca irá desaprender este comportamento. Uma única dose pequena da droga, em si, pode despoletar uma das recordações mais intensas. Tal como se diz nos grupos de ajuda mútua dos Alcoólicos Anónimos - "É a primeira bebida que faz ficar bêbado".

Comentário: a adicção é uma doença do cérebro, progressiva e cronica, não é um sintoma de outra doença ou patologia, eis alguns sintomas:
  • Tolerância: necessidade de consumo de quantidades crescentes de substâncias para atingir a intoxicação ou o efeito desejado.
  • Síndrome da abstinência, vulgo ressaca: a substância psicoativa, vulgo droga de escolha ou outra, é consumida para aliviar ou evitar os sintomas desagradáveis e dolorosos da ressaca.
  • Perda do controlo: substância é frequentemente consumida por períodos mais longos do aquele que se pretende. O consumo é continuado apesar da existência de um problema persistente ou recorrente, provavelmente causado ou exacerbado pelo abuso da substância.
  • Incapacidade, apesar do desejo ou esforços persistentes, para diminuir ou controlar o abuso da substância. Qualquer atividade é abandonada ou diminuída em importantes atividades sociais, ocupacionais ou educativas.
  • Preocupação (Atenção): São despendidas grandes quantidades de tempo em atividades necessárias à aquisição, utilização e os seus efeitos. A doença é o assunto nº 1 na vida do individuo, as suas prioridades são: como obter a substância, o consumir e manter o efeito da substancia, no organismo, o mais prolongado possível e a gestão do stock.
Apesar deste texto se referir às substâncias psicoativas, um numero considerável de indivíduos com comportamentos adictivos, tais como o jogo, o sexo, furto, as compras, distúrbio alimentar apresentam algumas semelhanças no sistema de recompensa cujos comportamentos também comprometem o funcionamento normal do cérebro. 
Por exemplo, ao longo da minha experiencia profissional, observei indivíduos com comportamentos adictivos, em tratamento regime de internamento, por exemplo ao jogo e ao sexo, ao interromperem a atividade adictiva desenvolverem um conjunto de sintomas, físicos e psicológicos, associados e idênticos ao síndrome da abstinência, vulgo ressaca, também observado em indivíduos adictos a substâncias psicoativas, vulgo drogas.

sexta-feira, dezembro 14, 2012

Algumas curiosidades sobre o Modelo Minnesota (MM)



Durante a minha formação profissional tive o privilégio de estar presente numa das instituições mais reputadas do mundo, sobre o tratamento das dependências de substâncias psicoativas, vulgo drogas, incluindo o álcool, refiro-me obviamente a Hazelden Foundation.

Nesse sentido, decidi escrever este post de forma a revelar algumas das características do Modelo Minnesota; a sua génese, a filosofia e a sua história. Para os menos informados este modelo de tratamento é aplicado num regime de internamento residencial tratamento cuja duração é de 90 dias, aproximadamente.
Aproveito para enaltecer a dedicação e o compromisso de algumas pessoas genais  e visionários, durante o final dos anos 40, nos EUA, que dedicaram uma parte considerável das suas vidas a ajudar indivíduos a recuperar a sua dignidade e a recuperação da adicção. Lutando contra o estigma, a negação e a vergonha associados a esta doença.

Com este post não pretendo fazer uma abordagem completa e exaustiva deste modelo de tratamento, apenar pretendo salientar e revelar alguns detalhes sobre a sua historia e pessoas.
Para pensarmos no tratamento do alcoolismo e a génese do modelo Minesota precisamos de recuar até ao final dos anos 40, marcado pelo período pós-guerra (II grande guerra mundial), a segregação social, o tratamento do alcoolismo com uma forte vertente religiosa (evangelização) os asilos para doentes mentais e cadeias. Nesta altura ainda não existia o DSM, Manual de Diagnostico de Doenças Mentais, que só surgiu em 1952, nos EUA.

Modelo Minnesota “Uma abordagem evolucionária e multidisciplinar na Recuperação da Adicção.”  Jerry Spicer, Presidente Hazelden Foundation, Minnesota, EUA (1949 a 2011)

Génese – Instituições envolvidas (Minnesota Model)
1948 - Pioneer House (filosofia do tratamento dos Alcoolicos Anonimos, AA) era designado, na altura, como um clube/associação, onde surge o primeiro membro de AA e a primeira figura do Addiction Counselor (1949) como profissão, em colaboração com o Serviço de Saúde Publica de Minneapolis, EUA
1949 - Hazelden (filosofia do tratamento do AA)
1950 - Hospital State Wilmar – departamento de psiquiatria (equipa de profissionais cuja abordagem ao tratamento foi inovadora contando também com introdução da filosofia do AA).

Tratamento Residencial em Regime de Internamento
       Consiste no processo que inicia quando indivíduo contacta um serviço (Instituição) com vista a uma sucessão de intervenções específicas até se atingir o nível de bem-estar – Avaliação, Admissão, Diagnostico, Plano de Tratamento personalizado e Recuperação duradoura.
       Reduzir ou eliminar problemas associados às substâncias psicoativas lícitas e/ou ilícitas, incluindo o alcool.
       Reabilitação dos problemas relacionados com as substâncias (diagnostico, assistência, aconselhamento, participação da família, saúde e integração social).

Ligação entre Tratamento do Alcoolismo, o AA e o Modelo Minnesota
       Número significativo de indivíduos que atingiram a sobriedade através do AA, nos EUA, a visibilidade pública, por exemplo através dos meios de comunicação social e algumas estrelas de cinema, músicos famosos, senadores, políticos em recuperação a assumirem publicamente a preferência pela filosofia do programa de 12 Passos.
       Em 1935/existiam 100 Membros do AA, em 1942/800 membros.
       Pessoas genais e visionárias envolvidas no tratamento do alcoolismo – Mel Rosen, Nelson Bradley, Daniel Anderson, Rev John Keller , o filantropo John Rockefeller Junior e a família Butler.

Filosofia do Tratamento MM - anos 50
       Alcoolismo: doença progressiva e crónica. Multidimensional: física, psicológica, social e espiritual.
       Alcoolismo: doença crónica e primária; não é um sintoma de outra doença subjacente vs. Tratar da personalidade do alcoólico.
       A presença ou a ausência da motivação, no início do tratamento, não tem influência no resultado final.
       O sucesso do tratamento exige uma atmosfera na qual o alcoólico/adicto seja tratado com dignidade e respeito.
       Os alcoólicos/adictos são vulneráveis ao amplo espectro das mais variadas substâncias psicoactivas. O fenómeno, Dependência de Substâncias, deve ser abordado em tratamento.
       A abordagem à dependência de substâncias terá mais sucesso se a equipa de profissionais desenvolver um tipo de relacionamento menos formal, mais “intimo” com os pacientes, cujas atividades estão integradas num plano individualizado de tratamento desenvolvido para cada paciente.
       Para a execução do plano de tratamento designa-se um conselheiro – figura do gestor do caso.
       Durante o tratamento inclui a participação nos AA (reuniões), trabalhar os Passos, terapia de grupo que combine a confrontação e o apoio, palestras, sessões individuais de aconselhamento e um ambiente dinâmico (cultura - Milieu) de responsabilização e aprendizagem.
       O AA é a estrutura mais viável após o internamento (follow up) para a Recuperação duroura/Sobriedade.

Minnesota Model-  “Milieu” profissional 
       Abordagem Holística – Poder da experiência espiritual para a Recuperação através dos grupos de ajuda mutua A.A. assume um papel preponderante na abordagem. “Se o outro consegue eu também consigo”
       Etiologia da doença vs. Programa de Recuperação “Onde não arranha, não se coça” Daniel Anderson . Mais importante que a causa, os objetivos de recuperação (12 Passos) são uma prioridade, através da motivação para a mudança de comportamentos.
       Equipa Multidisciplinar - Abordagem multidimensional à doença (medicina, psicologia, clero e addiction counselors).
       Adictos em Recuperação (Addiction Counselors, 1954) Nova designação profissional.
       “O Alcoolismo requer dois tipos de conhecimento: cientifico e experiencia. Existem dois tipos de escolhas disponíveis - Dinâmica Integradora vs. Polarização Auto Destrutiva .” Daniel Anderson. Fusão da ciência, da teoria e da componente empírica.

Difusão do Modelo Minnesota nos EUA, desde os anos 60.
       Alcoólicos Anónimos e Narcóticos Anónimos
       Conferências e cursos profissionais nas Universidades de Yale e Rutgers (1960/1990)
       Campanhas nacionais através do Conselho Nacional Alcoolismo, (NCA). Marty Mann, co fundadora do NCA, foi a primeira mulher, pertencente ao AA, a permanecer em recuperação durante um longo período de tempo.
       Estágios e Formação profissional, em Hazelden.
       Ex colaboradores do Hospital de Wilmar State.
       Project Match , 1989 – Estudo (5 anos), que contemplou e aprofundou a eficácia e vantagens “emparelhamento” da Terapia Cognitiva-Comportamental, da Twelve Step Facilitation (oriunda do MM) e Motivational Enhancement Therapy no tratamento do alcoolismo.
       Na Europa - Broadway Lodge, Inglaterra, 1974 (Dr. James Ditzler and Joyce Ditzler)

Modelo de Tratamento (Internamento)
       Dependentes de substâncias, incluindo o álcool.
       Conceito de doença
       Duração da primeira fase de tratamento 60/90 dias. Caso se prolongue o tratamento o paciente deve mudar de setting terapêutico.
       Abstinência de Substâncias psicoativas
       Educação s/ Alcoolismo – Sintomas físicos e psicológicos. Ambiente livre de drogas
       Palestras e Terapia de Grupo (dinâmicas).
       Envolvimento no AA (Espiritualidade).
       Aftercare – Pós tratamento.

Génese em Portugal
       Alcoolicos Anónimos, Alcoolicos Anónimos1978
       Narcoticos Anónimos  Narcóticos Anónimos, 1985
       Portugal, Lisboa (projeto piloto) – Unidade de Tratamento Intensivo de Toxicodependências e Alcoolismo (UTITA, 1985) no Serviço de Psiquiatria do Hospital da Marinha
       Era - Empatia, Recuperação e Apoio (1990) através do Dr. Margalho Carrilho, Joana Faria e Cristina Mello
       Fundação Frei Manuel Pinto da Fonseca (Centro Tratamento São Fiel, 1992/2004), em Castelo Branco. Ao longo da sua existência apoiou mais de 3.000 pacientes. Instituição pioneira nos programas de apoio aos familiares dos seus pacientes, formação continua e supervisão dos seus colaboradores/profissionais.

Apesar do Modelo Minnesota ser uma das referencias mundiais no tratamento das dependências, incluindo o alcoolismo, e do qual eu comprovo a sua validade, não pretendo ser dogmático, porque pela minha experiencia, algumas pessoas não se adaptam à sua filosofia. Nesse sentido, cada um é livre em escolher o melhor tratamento e os melhores profissionais que o/a possam ajudar na interrupção da progressão ativa da doença da adicção; doença cronica, progressiva e caso não seja interrompida poder ser fatal. Estamos perante uma doença complexa.

Mais recentemente, durante o final dos anos 80, surgiu outra denominação, oriunda do Modelo Minnesota, designada de Twelve Step Facilitation. Esta designação é utilizada no Project Match
Depois de colaborar com varias instituições, gostaria de acrescentar que o Modelo Minnesota em Portugal, apesar de existir desde 1985, ainda está numa fase embrionária e a necessitar de uma atualização urgente, ao nível da formação profissional, plano de tratamento, respeito pelos seus pacientes e familiares, equipas de profissionais multidisciplinares dedicados e comprometidos pelas suas carreiras, supervisão e código de ética, criação de uma associação nacional que zele pelos interesses e características do modelo em si, partilha de experiencias entre profissionais por exemplo através de congressos, redes sociais, etc. Apelo aos profissionais e instituições que utilizem o MM que invista mais na colaboração, cooperação e partilha de conhecimento, no final, os nossos pacientes, as suas famílias e a comunidade vão beneficiar muito mais, abram as portas ao conhecimento e à excelência, é um investimento de inestimável valor.

Também gostaria de informar que o Modelo Minnesota não tem qualquer ligação institucional ou profissional com os grupos de ajuda mútua dos 12 Passos, por exemplo Alcoólicos Anónimos, Narcóticos Anónimos, Jogadores Anónimos. Por exemplo, oiço com muita frequência pessoas a afirmar que “O centro onde o meu filho está internado é dos Narcóticos Anónimos”, isso é falso. De acordo com estes grupos de ajuda-mutua os seus membros não são profissionais, não possuem instalações para internamento ou não existe a figura do profissional que faz terapias/consultas. Estes indivíduos ajudam-se uns aos outros recorrendo á sua experiencia e partilha pessoal através do programa dos 12 Passos, a participação de qualquer individuo, nos grupos de ajuda mutua, é voluntaria e livre de qualquer cota ou pagamento. Consulte mais nas tradições de Alcoólicos Anónimos ou Narcóticos Anónimos. Caso tenha alguma duvida envie a sua questão para xx.joao@gmail.com

Referências bibliográficas:
  • “Slaying the Dragon – The History of Addiction Treatment and Recovery in America” – William White, 1998, 4ª Edição. A Chestnut Health Systems Publication
  • “The Evolution of the Multidisciplinary Approach to Addiction Recovery – The Minnesota Model” – Jerry Spicer, 1993. Hazelden Foundation
  • “Hazelden – A Spiritual Odyssey” Damien McElrath, Ph D. Hazelden Foundation
  •  "Project Match – Monograph Series” National Institute on Alcohol Abuse and Alcoholism (NIAAA), 1989