
O sistema de crenças pessoais rígidas e controladoras da vergonha tóxica reforça os nossas atitudes e comportamentos; no dia-a-dia agimos de acordo com essas mesmas crenças disfuncionais de uma forma subtil baseadas na crença interior que aquilo que somos e fazemos não é “normal” e OK. Pelo contrario, somos “anormais”, indesejáveis e diferente os outros (estigma, preconceito e estereotipo).
Segundo Melody Beattie, aquilo que fizemos (comportamento) pode não ser OK., mas nós (pessoa única e singular) somos OK. Podemos decidir fazer algo diferente para corrigir esse padrão de comportamento disfuncional. Este é o objectivo básico em recuperação, é a essência dos programas de 12 Passos(1) e é o que o programa de recuperação dos 12 passos pode fazer por nós próprios.
Ao longo da vida, adquirimos um código moral que nos informa, no dia-a-dia, se estamos a violar ou não esse código de valores. Todavia, em recuperação adoptamos um novo sistema de crenças saudáveis e construtivas, através dos 12 Passos ( http://en.wikipedia.org/wiki/Twelve-step_program ) mantendo um contacto com o nosso poder Superior,(conceito individual imaterial não religioso sem dogmas e divindades). Este novo e realista sistema de crenças reforça a confiança e a auto-aceitação, bem como a relação com as outras pessoas. Somos pessoas OK e esta realidade é reforçada, através da aprendizagem com os erros e da monitorização honesta dos comportamentos, em vez da busca da perfeição e da ilusão. Em recuperação, inicia-se o processo de adaptação à realidade, privilegiando a tolerância, a flexibilidade, a honestidade, a ajuda-mutua e a responsabilização.
A culpa é algo que se pode resolver com o tempo. Por exemplo, através de reparações dos erros do passado e na procura de soluções para corrigir e mudar as atitudes e os comportamentos disfuncionais.
Na vergonha tóxica não se consegue anular ou fazer reparações, está “enraizada” no nosso ser. Vivemos com a sensação de que aquilo que temos de fazer em relação aquilo que nos rodeia é arranjar um rol de desculpas e justificações pela nossa própria existência, nem que para isso as nossas necessidades sejam ignoradas e/ou negligenciadas.
Podemos ter "ataques" de vergonha tóxica, moderados e ou agudos. Podemos viver num constante estado de vergonha, perfeccionismo e controlo. Todavia, podemos aprender a identificar e a reconhecer a vergonha tóxica. Como é que a sentimos? Quais os pensamentos e as crenças que a produzem? Como é que somos afectados? Como é que reage normalmente à vergonha tóxica? Foge? Esconde-se? Culpa os outros? Fica bloqueado/a? Sente raiva intensa ou tenta controlar?
Como reage normalmente à Vergonha Tóxica? Foge? Esconde-se? Culpa as outras pessoas? Fica bloqueado/a?, “Freeze...” Sente raiva intensa ou tenta controlar?
Em recuperação, aprende-se a identificar quando é que a vergonha toxica é o núcleo gerador e disfuncional das atitudes e comportamentos. Em jeito de ritual, podemos acender uma vela e chamar a vergonha tóxica; como um sentimento horrível que é despejado em nós mesmos, que impõe regras rígidas e controladoras– normalmente estas regras rígidas não são as nossas; são de alguém; de outra/as pessoa/s (ex. educação parental)
De facto, não quero saber desses momentos quando sinto vergonha. Normalmente, sentia dessa maneira na maioria das vezes, no presente, normalmente tenho alguma auto-estima e sentimentos positivos quando a vergonha tóxica surge de novo.
Talvez tenha feito alguma coisa que cause culpa. Talvez esteja a quebrar o seu próprio código moral e a culpa fica “emaranhada” com a vergonha. Algumas vezes, a vergonha é um sinal de algo que precisamos de mudar nas nossas vidas, de uma forma legitima, mas provavelmente, não irá desaparecer.
Por vezes, a Vergonha Tóxica “apanha-nos” de surpresa em relação algo do passado – algo que não pode ser mudado. Outras vezes, a vergonha indica que quebramos uma regra da família. Cada um de nós tem as suas mensagens pessoais e a vergonha pode estar relacionada com essas mensagens. Lidar com a vergonha ajuda-nos a entender a nossas próprias mensagens e as da família.
Mudar o que é necessário e possível
Podemos converter a vergonha em culpa. Se identificarmos a vergonha por ter violado o código de valores (culpa), podemos fazer reparações apropriadas e mudar o nosso comportamento. Se identificarmos está a influenciar negativamente, as nossas atitudes, através das velhas crenças disfuncionais, podemos realmente mudar essa mensagem (erros cognitivos). Se sentirmos envergonhados acerca de algo que não podemos mudar, rendemo-nos á situação, aprendendo a aceitar e a entregar. Dê um abraço a si mesmo. É Ok sentir vergonha e a impotência.
Soltar a Vergonha, em vez de a esconder (Entregar)
Uma vez que aceitarmos a presença da vergonha encontramos uma maneira construtiva de a fazer desaparecer. Volte a falar sobre os sentimentos com alguém de confiança. Pode ficar zangado. Faça afirmações para si próprio “Vou soltar-te...”. Sinta a intensidade, faça amigos/as genuinos, fala sobre com eles. Aprenda a Entregar e siga em frente, centre a sua atenção nas soluções, em vez de nos problemas. Trabalhe o Passo Seis e o Sétimo dos Doze Passos dos Alcoólicos Anónimos. Trabalhe o Passo Seis e prepare-se, entregar (soltar) o defeito de caracter relacionado com a vergonha. Trabalhe o passo Sete, pedindo ao seu poder Superior, não religioso sem dogmas e divindades que o remova. Arrisque e enfrente esta situação da melhor forma possível, mas continue a trabalhar este assunto, permaneça atento e entregue (Solte) o sentimento de vergonha.
Somos livres (direito) de dizer Sim, Não ou Não sei. Temos o direito e ser uma pessoa saudável, de sentir segurança, confiança, protegidos e de cuidar de nós mesmos, o melhor possível. Temos o direito de definir os nossos limites, de nos livrar de qualquer tipo de abuso, de crescer à “nossa velocidade” ou ritmo. Temos o direito de cometer erros, de sentir alegria, de amar e ser amado. Somos livres (direito) quanto às nossas próprias percepções, as nossas observações, opiniões e sentimentos.Temos o direito de permanener saudáveis e acumular sucessos, conforme quisermos.
Também possuímos outros direitos. Descobri-os a partir do momento em que identifiquei a forma como a vergonha me afecta. Um dia conduzia para uma entrevista, para um colégio local, com uma conselheira vocacional. Não precisava de fazer qualquer tipo de teste. Não tinha que passar no exame. Não tinha nada a perder ou a ganhar. Tinha somente que recolher alguns folhetos e alguma informação. De qualquer maneira, senti-me ansiosa e assustada porque era essa a "velha" forma como normalmente me sentia. De repente, realizei o que realmente se estava a passar comigo. Senti ansiedade porque não me sentia adequada e adaptada às dificuldades da vida. A situação e as circunstancias não interessavam porque não me sentia bem e segura comigo mesma.
Sou competente e suficientemente apta para viver uma vida preenchida e positiva. Algumas vezes cometemos grandes erros outras vezes cometemos pequenos erros. O erros que cometemos estão relacionados com aquilo que fazemos; não com aquilo que realmente somos. Temos o direito de ser e de estar onde estamos. Se não estamos seguros acerca daquilo que somos temos o direito em fazer uma excitante descoberta e não permitir que a vergonha nos condicione e/ou "cristalize" Melody Beatie “Beyond Codependency “
(1) 12 Passos significa o programa ( 1º Passo ao 12ª Passo) de recuperação para os comportamentos adictivos. É a metodologia de acordo com os principios/orientações aplicados à recuperação individual nos grupos de ajuda-mutua. Os Alcoolicos Anónimos, nos Estsdos Unidos da America em 1935, foram os pioneiros nesta abordagem da problematica do alcoolismo. A seguir foram os Narcoticos Anonimos, em 1954, hoje em dia existem centenas de grupos de ajuda-mutua que utilizam os principios dos 12 Passos, aqui referidos pela autora do texto.
2 comentários:
Depois de anos acho que descobri uma maneira mais clara o que está ocorrendo comigo! Nunca tinha ouvido falar sobre vergonha tóxica, foi revelador. Obrigado pela força ajudou e muito!
muito, mas muito bom o texto, me ajudou a ver a ponto do iceberg da minha vergonha, principalmente profissional. obrigada
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