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sexta-feira, janeiro 18, 2019

Entre o medo de comer e a vontade de comer demais




Sofri de anorexia-bulímica durante 20 anos, até ao dia em que decidi procurar ajuda psiquiátrica (Outubro de 2017). Isto significa que passei mais de metade da minha vida a lutar contra duas doenças que fragilizaram fisiológica e psicologicamente durante as fases mais importantes da vida em termos de desenvolvimento pessoal – a adolescência e a primeira década da idade adulta. Já tinha 34 anos quando recorri a ajuda especializada.
Três meses depois de começar o tratamento – medicação e terapia – já me sentia mais capaz de me manter fiel a uma promessa que nunca sei se será para sempre: não praticar atos de compulsão alimentar seguidos de purga e não fazer restrição alimentar. Não é fácil abandonar por completo um vício que alimentei durante tanto tempo, pois os meus distúrbios alimentares, por muita dor física e emocional que me causassem, sempre foram a forma dominante de preencher um vazio interior que sempre senti.
Já tive recaídas desde então, mas isso não significa que fracassei, mas sim que ainda estou num processo de construção de auto controlo que me permita viver além deste vício e da fobia de engordar.
A dificuldade não está em decidir tratarmos-mos, mas sim em nos mantermos empenhados em cumprir essa resolução, por muito que nos custe dar esse salto de fé. Os meus distúrbios alimentares têm na sua base um transtorno de ansiedade crónico, posteriormente diagnosticado. Todos temos coisas dentro de nós por resolver e que nos causam ânsias, mas o importante é mantermos o foco no presente que podemos controlar e na construção de um futuro mais saudável e livre de fobias e vícios que nos impedem de viver plenamente.
Visite a pagina da Joana no facebook Tripolaridades - Ansiedade, Anorexia e Bulimia

Joana Marques
Comentário: Muitos parabéns Joana, por ter decidido quebrar o ciclo vicioso da doença e pedir ajuda, iniciando assim a recuperação, um dia de cada vez. Parabéns por lutar contra o estigma, a negação e a vergonha associados às perturbações do comportamento alimentar através da pagina do facebook. Obrigado por participar com a sua historia no recuperar é que está a dar. Sucessos e tudo de bom!

segunda-feira, outubro 15, 2018

A ambivalência na perturbação dos comportamentos alimentares




Este texto foi escrito pela Inês (nome fictício) sobre a sua luta contra a perturbação dos comportamentos alimentares. A Inês escreve de uma forma explicita e especifica sobre a relação consigo própria, os hábitos alimentares e a sua doença. Na perturbação dos comportamentos alimentares a vida do individuo orienta-se pela imagem, corpo, peso. Obrigado Inês pela partilha.
Depois de comer: Eu vi qualquer miniatura na vitrina que me chamou a atenção, mas não me recordo qual foi. Não tenho fome, mas apetece-me qualquer coisa doce. (Já na caixa para pagar e ao telemóvel) aquela miniatura de chocolate é muito maçuda para mim, pois não tenho fome. A castanha de ovos é mais leve. Também posso, pois até sinto as calças mais largas.
Logo vou comprar kinders... Não vou nada, pois já comi a minha dose de doces por hoje (ansiedade). Mas apetecia-me tanto os kinders... (ansiedade)
Saída da escola: E se eu fosse comprar uma caixa de kinders? Não, tenho de me controlar com os doces (ansiedade). É verdade, ali vendem gomas e se eu fosse lá...? Mesmo que fosse só ver... Não, nem posso pensar nisso (ansiedade). E se eu fosse comprar a torta de canela para comer ao jantar? Não, tenho de comer a sopa que lá tenho. Mas também podia fingir que comia sopa e ela (colega de casa) nem se apercebia o que realmente comia. Mas para isso teria que abrir a sopa que lá tenho e isso não me apetecia... Se não a abro, ela fica cada vez desconfiada que não como.  Não, não posso continuar a alimentar-me assim. Não posso comer a torta. (ansiedade)
Supermercado: Vou só ver se tem kinders... Oh não, tem! Vou levar destas barras para o fim de semana. Mas é só para o fim de semana mesmo ou para o feriado que é quando ela (colega de casa) não está.
Tantos chocolates, apeteci-me provar aqueles de menta. Devem ser mesmo bons, mas não posso mesmo. Já sei que se levo não aguento e acabo por comer a caixa inteira numa noite.
Aqui tem destes cereais com chocolate, mas tem tantas calorias (680). Não levo mesmo! Vou ao continente comprar os kinders, mas só como 1 ou 2, não mais.

quarta-feira, outubro 12, 2016

Viver em função de números compromete a autoestima


«Não é o peso que dita a saúde e o amor próprio» Redefinir Imagem Corporal

E atrevo-me a acrescentar, peso e imagem. Contrariamente, ao que podemos pensar, algumas pessoas com o peso e imagem, dito, «ideal» não são pessoas com autoestima, visto adotarem comportamentos e dietas disfuncionais, em relação a uma alimentação saudável e equilibrada. No caso da perturbação do comportamento alimentar (anorexia, bulimia, ingestão compulsiva, vulgo binge eating) é o equivalente à ditadura dos números (vive-se em função do numero das calorias, do peso na balança e da imagem). 

Segundo o Dr. Walter Kaye, investigador da Universidade da Califórnia (San Diego, EUA) afirma que as crianças predispostas a desenvolver a perturbação do comportamento alimentar são perfecionistas, ansiosas e os comportamentos são orientados por desafios rigorosos, competição excessiva e extremamente exigentes consigo próprios, assim como, estão vulneráveis às dietas restritivas e à imagem corporal. Contudo, a perturbação do comportamento alimentar revela-se mais complexa do que as características perfecionistas e pessoas extremamente competitivas.
Normalmente, quando temos acesso a informação sobre a perturbação do comportamento alimentar (PCA) são através de noticias, nas revistas ou na televisão, de figuras publicas a assumirem o seu problema. Na maioria dos casos, são mulheres, atrizes ou modelos. Desta forma, podemos ficar com a ideia errada, de que a perturbação do comportamento alimentar está somente associada aos fatores externos; à pressão cultural do «corpo perfeito» e às pessoas do sexo feminino. Apesar dos fatores culturais, das questões familiares e ou eventos traumáticos, estarem associados à perturbação do comportamento alimentar, de acordo com a investigação mais recente, não são assim tão relevantes como se pensava, os fatores determinantes que contribuem para o PCA estão localizados no cérebro (funcionamento de algumas estruturas cerebrais – circuitos neuronais). É fundamental, compreender os fatores associados à doença, a fim de, desenvolverem-se abordagens inovadoras ao tratamento. Para a maioria das pessoas, sentar-se à mesa, proporciona sensações agradáveis, contudo para as pessoas com perturbação do comportamento alimentar, a mesma situação proporciona sensações desconfortáveis e preocupantes. Aparentemente, isso acontece por questões biológicas (International Journal of Eating Disorders, 2012).

quinta-feira, outubro 29, 2015

Recuperar é uma opção pessoal

«A perturbação do comportamento alimentar não é um escolha, contudo, a recuperação da doença é um escolha pessoal.» 

Ninguém escolhe ficar doente. Pode revelar-se uma tarefa muito complexa identificar e diagnosticar sintomas e sinais relacionados com a perturbação do comportamento alimentar por parte da família, dos amigos, etc. Na grande maioria dos casos, os sintomas e sinais são ignorados, inclusivamente, o mesmo acontece, por parte do doente. Contrariamente, a esta realidade, nos últimos anos, tem-se verificado avanços significativos, por parte da investigação, sobre o tratamento e a recuperação das pessoas com perturbação do comportamento alimentar; da anorexia nervosa, bulímia nervosa e das crises de voracidade alimentar (binge eating). 
Algumas áreas importantes:
  • Historial de dietas
  • Corpo e peso
  • Historial de abuso e dependência de substâncias psicoactivas, do sistema nervoso central, vulgo drogas.
  • Utilização de diuréticos, laxantes e comprimidos relacionados com dietas.

O diagnostico, na fase inicial da perturbação do comportamento alimentar, pode ser determinante e crucial para o sucesso do tratamento. 
Apesar dos desafios, relacionados com o tratamento e a recuperação da perturbação do comportamento alimentar, refiro-me à ambivalencia e à resistência à mudança, é possível recuperar. Recuperar da doença pode revelar-se uma experiência enriquecedora e recompensadora, em vez de permanecer doente e isolado. Se você identifica sinais ou sintomas, relacionados com a perturbação do comportamento alimentar, procure orientação e esclareça as suas duvidas.

quarta-feira, abril 24, 2013

As 10 desculpas mais frequentes


Quem é gosta de ser confrontado? Ninguém gosta de ser contrariado. Por exemplo, quando alguém é confrontado devido à descoberta de uma mentira ou erro que tenha cometido, qual é a primeira reacção? Negar a realidade. Apesar de haver algumas diferenças, nos comportamentos adictivos o fenómeno é semelhante, um individuo adicto que seja confrontado, pelas consequências negativas da sua adicção, irá responder de uma forma defensiva, esquiva ou omissa. Irá negar qualquer evidência, facto ou realidade.
Irei expor aquelas que são as 10 desculpas mais frequentes identificadas no discurso de indivíduos adictos quando são confrontados e/ou convidados a falar abertamente sobre as consequências da adicção. Gostaria de acrescentar que estas desculpas, mecanismo psicológico de defesa (lógica aditiva), são observadas em vários tipos diferentes de adicção (substâncias psicoactivas lícitas, incluindo o álcool, e as ilícitas, jogo, sexo, compras, dependência emocional, distúrbio alimentar). Gostaria de acrescentar o seguinte, este tipo de discurso também é identificado em alguns membros da família do individuo adicto.

Nº 1 – “Não tenho nenhum problema com o meu comportamento.”
Esta é das afirmações mais comuns e aquela que considero a mais frequente. O individuo adicto não reconhece e ou admite qualquer problema e/ou consequências negativas da adicção. Nesta fase o individuo avalia os efeitos obtidos através das substâncias e/ou comportamentos, como algo positivo e inócuo, contribuem como um reforço da lógica para continuar os mesmos comportamentos; “Se está tudo bem porque é que hei-de parar?”

Nº2 – “O meu problema não é assim tão grave, o dos outros é pior. Eu sou diferente e posso parar quando quiser”
Apesar das crises em casa, no trabalho, na saúde (doença) e acidentes o individuo adicto continua a afirmar que consegue parar, e por vezes, é tão categórico nas suas convicções que é capaz de arranjar argumentos que convencem e confundem a esposa/o, as crianças, a família, o patrão/colegas; o individuo também acredita nas suas afirmações. Alguns membros de família afirmam “João Alexandre, ele/a dizia que ia parar, e fazia promessas. As nossas discussões eram de tal angustiantes que eu (mãe, pai, esposa, patrão) algumas vezes achei que estava a ser injusta e cruel para com ele/a.  Nos últimos tempos, praticamente ele fez dezenas de promessas, que eu acreditava nas suas palavras, mas na realidade, ele não conseguia cumprir. Cheguei a pensar que estava a ficar doida e a questionar a minha própria sanidade. ”

sábado, janeiro 05, 2008

Controlo vs. Entrega - Influênciar



 Controlo 
"Um conceito disfuncional de crenças individuais e sociais sobre o controlo, será um dos grandes obstáculos à recuperação para qualquer adicto/a. Perda de controlo, luta pelo controlo e resistência ao controlo – são tópicos frequentes nas reuniões de interajuda dos 12 Passos dos Alcoolicos Anonimos e que normalmente geram grande discussão.

Controlo como uma Ilusão
Não se controla ou jamais se controlará pessoas e/ou algumas situações/eventos do dia-a-dia. A historia revela-nos que quantos mais os ditadores querem controlar uma nação inteira, mais violentos se tornam. Quanto mais se procura controlar a adicção de outra pessoa a probabilidade da adicção vir afectar negativamente a relação entre essas duas ou mais pessoas é enorme. Quando na realidade se começa a compreender que é completamente impossível controlar todos os nossos próprios comportamentos e crenças ou de outros à nossa volta, constata-se que o controlo não é nada mais do que pura ilusão.

Obstáculos ao 1º Passo dos Alcoolicos Anónimos (AA)- “Admitimos que éramos impotentes perante a nossa adicção; e que tínhamos perdido o domínio sobre as nossas vidas”

A ilusão, nos comportamentos adictivos, é um obstáculo real à aceitação do Primeiro passo, que refere “Somos impotentes perante a nossa adicção e que a nossa vida se tornou desgovernada”.
O adicto/a procura quase sempre mascarar a sua incapacidade de controlar afirmando com convicção “Quem eu?! Eu consigo controlar...
Quanto mais o adicto/a permanece agarrado a esta falsa crença, que está a controlar o seu comportamento problema, irá continuar imobilizado – “preso” no Primeiro Passo (impotência e desgovernabilidade), incapaz de progredir e evoluir (mudança) na sua recuperação.

A maioria dos adictos reconhece quando outras pessoas exclamam “Quanto mais quero controlar, mais difícil se torna sair do problema.
Porque é que é tão difícil abolir este tipo de comportamento destrutivo? Porque abandonar este tipo de controlo é demasiado ameaçador à doença da adicção (lógica adictiva). Outro factor importante, para a maioria dos adictos, tem a ver com o seu historial no relacionamentos com pessoas do tipo autoritário (figuras/modelos autoritários), identificam o pânico em perder o controlo e a "intoxicação mental" provocada pela ilusão de poder.

sexta-feira, setembro 28, 2007

Factos sobre a Anorexia Nervosa



Ao contrario daquilo que as pessoas com a Anorexia Nervosa (AN) acreditam, atraves dos mecanismos disfuncionais da própria doença, é possivel viver segundo padrões de beleza e elegancia (perfeição e controlo) impostos pela nossa sociedade (comunicação social, família, publicidade, dinheiro, grupos de pares, valores e crenças disfuncionais, status).

A imagem  da rapariga deste post é a de uma ex modelo, chamada Isabele Caro, que decidiu partilhar a sua propria imagem, onde revela, duramente as consequencias da doença da anorexia nervosa.


Como profissional, com experiencia de trabalhar com adictos, reflectindo sobre estas imagens realistas faz-me lembrar o aspecto fisico das mulheres que apresentam problemas de consumo de drogas ilícitas (adictas no activo). Quase que não existem diferenças.

Caso a anorexia nervosa não seja diagnosticada e ou tratada, de preferencia assim que surjam os primeiros sintomas, por ex. incio da adolêscia, pode tornar-se uma doença crónica. 

Se este é o aspecto fisico, aquele que está a vista, pergunto, qual será o aspecto emocional e espiritual da Isabele, que nós não conseguimos ver, mas que ela consegue sentir ?

Estes são os factos e a realidade que vão para alem da nossa imaginação.

È preciso passar a mensagem de que é possivel recuperar e que não existem motivos para alguém doente se esconder, ficar deprimida e isolada. Pedir ajuda é o caminho para a solução e auto-aceitação .
Todos nós cometemos erros e fazemos coisas estupidas ao longo da vida...
Também não podemos cair na ilusão de fazer as mesmas coisas à espera de resultados diferentes!

Isabel Caro (nasceu em 12/09/1982 e faleceu vitima da doença em 17/10/2010) decidiu expor a sua doença contribuindo assim para a luta contra o estigma, a negação e a vergonha associado à Anorexia Nervosa.
Magreza não é beleza.


Distúrbio Alimentar - Anorexia Nervosa


“A anorexia nervosa (AN) é uma doença relacionada com o comportamento alimentar. A característica mais comum é a perda de peso, associada a uma progressiva mudança de comportamento (medo de engordar). A perda de peso é lenta mas progressiva e, normalmente, tem início com uma dieta normal, podendo também ocorrer de forma brusca como consequência de uma determinada restrição alimentar. É designada de privação alimentar (jejum provocado e ou forçado, jejum prolongado ou ingerir alimentos com baixo teor de calorias). 
É um termo psiquiátrico e é a doença psiquiátrica que apresenta mais fatalidades – 20% das pessoas com esta doença vêm a falecer. Normalmente é tratada como uma doença mental (psiquiátrica) cuja nucleo, centra-se na família disfuncional e outros factores que incluem: a natureza da personalidade da rapariga/rapaz em causa, como por exemplo, a forma de relacionamento entre membros da família, problemas fora do contexto familiar, sobretudo na escola (pressão de pares), abuso, e factores genéticos. Na abordagem médica, normalmente, o aspecto adictivo é ignorado.


A anorexia nervosa é uma doença do comportamento alimentar em que o indivíduo luta de forma a manter um baixo consumo de alimentos, com episódios esporádicos de ingestão de alimentos a que alguns chamariam de alimentação moderada. Todavia, para a pessoa com A.N., estes episódios esporádicos são interpretados como inaceitáveis, terríveis binges (ingestão compulsiva, voracidade, empanturrar-se), com uma forte relação com a imagem corporal distorcida (dismorfia corporal). A maioria dos anorécticos utiliza manobras purgativas (vomitar, usar laxativos e/ou outros métodos de eliminação de alimentos) depois de um episódio de binge (ingestão compulsiva, voracidade, empanturrar-se).

A anorexia nervosa parece ser mais da área da psiquiatria do que da adicção. As pessoas com anorexia nervosa revelam mais do que pensamento e comportamento disfuncional, em relação à alimentação, pode envolver outras áreas. Em alguns casos a família é super controladora, demasiado protectora, e podem existir outros problemas que vão além da adicção na família. Generalizando, a maioria dos anorécticos não responde positivamente ao modelo de tratamento da adicção, mesmo sendo numa boa instituição.

  
Adicção á privação (jejum provocado, jejum prolongado ou ingerir alimentos com baixo teor de calorias) – a privação influencia e interfere em muitos neurotransmissores (cerebro) e outros agentes bioquímicos. Neste sentido, é plausível tornarem-se adictos aos próprios agentes bioquímicos.
Evitar a ingestão compulsiva/voracidade – A maioria dos anorécticos sentem um medo tremendo de comer (pânico), nas suas mentes surge o medo de não conseguir parar de comer. Este medo pode ter a origem no peso exagerado (passado) e ou obesidade na família.