segunda-feira, dezembro 31, 2012

Bom Ano 2013 e seja feliz!




O ano de 2012 está prestes a chegar ao fim e a passar à história. À nossa história, que num determinado dia teve um começo e um dia também terá um fim! A nossa vida é feita de memórias e objetivos dependendo do propósito e do sentido (Rumo) que escolhemos seguir, de acordo com as nossas decisões.

Qual é o balanço do seu ano que hoje termina? 
Questões para responder e escrever:
1. Quais os aspetos positivos e os aspetos negativos do ano de 2012? Avaliando os aspetos positivos e os aspetos negativos qual é o balanço final?
2. Quais foram as pessoas mais significativas de 2012?
3. Quais foram as metas e objetivos (ambição/sonhos) que atingiu durante 2012?
4. Quais são os seus objetivos para 2013? 
Dica para definir objetivos: específicos  medíveis no tempo, auto motivacionais, realistas, atingíveis e focados nas soluções.

Nota: Se considerar refletir sobre outros aspetos importantes da sua vida, faça-o segundo uma perspectiva construtiva, procure formas de se reinventar, no presente. Como humanos, estamos envolvidos num processo de mudança constante.

Exclusivamente para si, que é seguidor deste blogue, um excelente 2013! Recuperar É Que Está A Dar

sábado, dezembro 29, 2012

É um deslize ou é uma recaída?


De acordo com a abordagem terapêutica às dependências de substâncias psicoativas lícitas, vulgo drogas, incluindo o álcool, e as ilícitas, o tratamento deve contemplar a abstinência. É possível, para um individuo adicto ter um estilo de vida perfeitamente saudável abstinente de qualquer tipo de substâncias psicoativas lícitas, incluindo o álcool, e/ou ilícitas, só com uma única exceção, salvo medicação sujeita a prescrição medica, acompanhamento profissional e responsabilidade do doente em seguir o plano de tratamento e a sua recuperação.

Círculo da adicção: A doença da adicção é influenciada por um conjunto complexo de fatores (neuro-biológicos-psico-sociais), não é um vício (designação moral), falta de força de vontade e/ou característica da personalidade e/ou um ato voluntario. Após décadas de investigação sobre a doença da adicção, não existe no mundo, um programa que garanta a prevenção da recaída, o tratamento ou a recuperação de uma forma totalmente eficaz.
 Para todos os efeitos, a recaída ou o deslize, consiste na quebra da regra/princípio relativamente à abstinência. Ao contrário do que muita gente pensa, a recaída e/ou o deslize, não é um episódio isolado e na maioria dos casos não acontecem por acaso, é uma sucessão de acontecimentos críticos, conjunto de atitudes e comportamentos, que culminam com a ingestão do consumo de substâncias psicoactivas. Processo de recaída: começa em A - atitudes e comportamentos que conduzem o individuo a B – um episódio; ingestão/consumo da substância psicoativa.
Eis algumas perspectiva, de acordo com a minha experiencia profissional, sobre o que é recaída e o significado de deslize.

Qual é a diferença entre a recaída e deslize?
Recaída é:
O individuo perde o controlo do seu comportamento após a ingestão de substâncias psicoactivas lícitas, incluindo o álcool, e/ou lícitas; acontece quando é despoletada a compulsão pelo efeito da substância (sensação associada ao prazer). Este tipo de abuso de drogas visa somente a intoxicação e a alienação da realidade. Esta reação complexa, não se pode confundir com o controlo ou a falta dele. Não é o adicto que escolhe perder o controlo e/ou ser adito. Este mecanismo é uma reação da adicção após a ingestão das substâncias psicoactivas lícitas, incluindo o álcool, e/ou ilícitas, isto é, a ingestão da substancia afeta e compromete a forma como o individuo pensa, sente e age. Alguns indivíduos estão mais vulneráveis do que outros a este fenómeno.
No caso da recaída, após a compulsão ser despoletada, pelo efeito das substâncias psicoactivas, o adicto é incapaz de prever as consequências do seu comportamento (família, saúde, trabalho, justiça, dinheiro), nos dias, semanas ou meses seguintes, onde podemos incluir a recusa de ajuda de pessoas significativas a fim de retomar a abstinência.

Qual é a diferença entre a recaída e deslize?
Recaída é:
Quando o individuo compreende, reconhece e aceita o conceito de doença (Adicção) e supostamente afirma "Sou um adicto em recuperação, preciso de me responsabilizar pela abstinência, pelo tratamento e recuperação da adicção através das minhas atitudes, comportamentos e caso seja necessário apoio profissional." A fim de um individuo atingir este grau de conhecimento sobre a sua condição (Adicção) são necessários, aproximadamente seis a doze meses, dependendo da motivação para a mudança, do estado clinico do individuo e danos colaterais provocados pela dependência das drogas. Para compreender a adicção, o individuo deve estar abstinente de substâncias psicoactivas, há pelo menos um ano ou mais, por exemplo cinco anos. 
Recaída significa quando o individuo, apos o consumo repetitivo, identifica o síndrome da abstinência, vulgo ressaca e necessita de apoio profissional para interromper a progressão da doença.
Podemos exemplificar através de outra doença cronica. Tal como acontece ao individuo diabético, após sintomas, sinais e exames médicos é-lhe diagnosticado diabetes. É informado sobre a doença, os cuidados, o estilo de vida saudável a fim de manter a doença estável e um estilo de vida saudavel, todavia, o doente decide o contrário, ignora e negligencia o tratamento, agravando o quadro clinico, a este comportamento também podemos considerar uma recaída.

Qual é a diferença entre a recaída e deslize?
Deslize é:
Após um período longo de abstinência, mais de doze meses, o individuo consome substâncias psicoactivas, durante um curto período de tempo (frequência e duração), após este episódio de consumo, consegue retomar a abstinência. Neste caso, podemos considerar que a compulsão não foi despoletada. O individuo conseguiu apoiar-se e fazer uso das suas competências cognitivas (auto critica, sentido de auto eficácia, gestão das emoções – vergonha, culpa, medo, frustração) e recursos (procurou ajuda e fim de interromper a ingestão das drogas). Mais uma vez, como a compulsão não foi despoletada, o deslize, tal como a recaída, não se pode confundir com o controlo ou a falta dele.

Qual é a diferença entre a recaída e deslize?
Deslize é: 

Quando o individuo não compreende e ou reconhece o conceito de doença (Adicção). Por exemplo, indivíduos resistentes à mudança de atitudes e comportamentos, que permanecem abstinentes durante um curto período de tempo (ex. menos de 6 meses), mas depois retomam os consumos e depois a abstinência.
Qual é a diferença entre a recaída e deslize?
Quando pensarmos recaída e ou deslize é preciso de avaliar a história (passado/presente) de vida dessa pessoa (o seu mundo).
Você sabia que a depressão e/ou a ansiedade e a adicção (co-morbilidade) podem afectar e comprometer as competências cognitivas individuais e sociais necessárias à manutenção da abstinência? Este individuo está mais exposto ao deslize e ou à recaída. Importante: Cada caso, um caso.

Qual é a diferença entre a recaída e deslize?
Não podemos determinar, segundo valores morais, vulgo vicio, o que é a adicção. O que é que  significa recaída e ou deslize? Felizmente, hoje em dia, a medicina da adicção permite-nos entender melhor este fenómeno do ponto de vista neuro-biologico, psicológico e social. Faz parte do processo do tratamento da doença, da ocorrência de deslizes e/ou recaídas e recuperação. É normal, existem algumas pessoas vulneráveis e expostas à adicção, à recaída e/ou ao deslize, se for o seu caso, peça imediatamente ajuda, não se esconda atrás do silêncio da negação e ou da vergonha. Você não escolheu ser adicto/a.
 Algumas pessoas conseguem permanecer abstinentes de substâncias, durante longos períodos de tempo abstinentes, por exemplo 20, 30, 40 anos e graças a elas podemos aprender com a sua experiência, todavia, a escolha do estilo de vida em recuperação depende da decisão de cada um.

Qual é a diferença entre a recaída e deslize. 
Conceito de doença da adicção (tradução). Segundo a Sociedade Americana da Medicina da Adicção a adicção é uma doença primária, crónica que interfere e afecta o sistema/estrutura do cérebro responsável pelo prazer, pela motivação e memoria e os circuitos neuronais adjacentes. Sabe-se que uma alteração e disfunção destes circuitos neuronais conduzem ao aparecimento de sintomas a nível biológico, psicológico, social e espiritual no indivíduo, que se refletem na busca e recompensa patológica do prazer e alivio, através do consumo de substâncias psicoactivas (lícitas e/ou ilícitas) e/ou outros comportamentos (exemplo, jogo). Por outras palavras, a Adicção funciona como uma “almofada” perante determinadas situações e adversidades ao longo da vida do indivíduo. A adicção não é um sintoma de outro tipo de patologia.

Qual é a diferença entre a recaída e deslize? 
Antes de respondermos a esta pergunta é preciso entender e aprofundar o conhecimento sobre o conceito de doença e de recuperação (ciência e experiencia empírica).  É um esforço conjunto entre indivíduos adictos em recuperação, suas famílias e profissionais, e da sociedade em geral.
De acordo com a American Society of Addiction Medicine a adicção é uma doença.
Apesar do consumo de drogas ser um ato voluntário, ninguém escolhe ficar adicto. Apesar das substancias psicoactivas serem adictivas, geradoras de dependência física e/ou psicológica, porque é que umas pessoas consomem drogas/álcool e se tornam adictas e outras pessoas não? Siga o link
http://www.asam.org/research-treatment/definition-of-addiction
Visto a adicção ser uma doença cronica, progressiva e complexa no seu tratamento, qual é a motivação para o individuo recuperar da adicção? Como é que se ajuda um individuo adicto, dependente de drogas, incluindo o álcool, que recusa ajuda? Pela complexidade da adicção, o individuo e a sua família precisam de ajuda profissional.

Recuperação da adicção é um estilo de vida gerador de escolhas saudáveis (nível físico, mental e espiritual, sem dogmas e/ou divindades) integradoras e coerentes com os valores da família, da comunidade e da sociedade. Recuperação da adicção contempla a abstinência onde não existem consequências diretas dos comportamentos associados ao consumo, abuso e dependência de quaisquer substâncias psicoativas.
Se você se considera um adicto a drogas lícitas, incluindo o álcool, e as ilícitas qual é o seu conceito de recuperação? Gostaria de contar com a sua participação para o debate sobre esta questão.

domingo, dezembro 23, 2012

Boas Festas 2012



Boas Festas a todos os seguidores deste blogue. Não se esqueça de dar um presente especial a si próprio e aquelas pessoas especiais: Peace and Love.

- Recuperar É Que Está A Dar -

Para as pessoas que estão em recuperação da sua adicção esta altura do ano representa algumas situações de risco de recaída (festas, presentes, alimentos, memórias dolorosas, relacionamentos difíceis com pessoas) nesse sentido faça um plano de proteção com objetivos realistas e específicos, de forma a manter a sua recuperação em primeiro lugar. Se você se considera um/a adicta a recuperação deve ser a prioridade nº1 na sua vida. Seja feliz, em recuperação.

quinta-feira, dezembro 20, 2012

O cérebro adicto



Este excerto faz parte de um artigo impresso pela primeira vez na Harvard Mental Health Letter , edição de Julho de 2004.

As dependência de drogas têm sido um problema persistente ao longo de centenas de anos, mas somente na ultima década, os cientistas compreenderam claramente alguns fatores importantes sobre a adicção: sabemos que provoca mudanças duradouras nas funções cerebrais que são difíceis de reverter. Na prática, isso significa que existem muitos cérebros afetados, quase 2 milhões de indivíduos dependentes de heroína e em cocaína, talvez 15 milhões de alcoólicos, e dezenas de milhões de fumadores de cigarros nos Estados Unidos. Qualquer que seja a solução à vista, será sempre extremamente complexa, entretanto sabemos muito mais hoje, do que há 20 ou mesmo 5 anos atrás, sobre os efeitos das substâncias psicoativas, vulgo drogas, geradoras de dependência no cérebro, assim como também podemos utilizar este conhecimento no tratamento e na prevenção.

“Porque é que o cérebro prefere o ópio aos brócolos?” A dependência foi designada desta forma por Steven Hyman, um ex-diretor do Instituto Nacional de Saúde Mental. A resposta envolve o núcleo accumbens, um agrupamento de células nervosas que se encontram abaixo dos hemisférios cerebrais. Quando um ser humano ou outro animal executa uma ação que satisfaz uma necessidade ou cumpre um desejo, o neurotransmissor chamado dopamina é libertado no núcleo accumbens e produz prazer. Serve como um sinal de ação para com o mecanismo da sobrevivência ou a reprodução, seja direta ou indiretamente. Este sistema é designado de via de recompensa. Quando fazemos algo que oferece essa recompensa, o cérebro regista essa experiência e estamos propensos a repeti-la novamente. Todavia, quaisquer danos nesta zona do cérebro e o abuso de drogas, que liberta dopamina, acabam por comprometer o funcionamento normal desta estrutura cerebral.
Na natureza as recompensas surgem após algum esforço e o seu efeito não é imediato, todavia, com as drogas as pessoas descobrem um atalho, sentem gratificação e prazer sem esforço e o seu feito é imediato. Isto é, o cérebro produz quantidades anormais de dopamina. Neste âmbito, o prazer não está a ser usado para a sobrevivência nem para a reprodução, por isso, a evolução não forneceu ao cérebro uma forma de se proteger. Assim a capacidade natural para produzir dopamina (sistema de recompensa no cérebro) é reduzida e a única forma de o cérebro cumprir as suas funções de libertação de dopamina é somente através do consumo de mais droga. O cérebro vai perdendo as suas funções e recursos a fontes de prazer menos imediatas e mais poderosas de recompensa. O dependente vai necessitando de doses mais elevadas e frequentes para obter a mesma sensação de prazer e bem-estar. Por vezes, a motivação do dependente para consumir drogas pode ser reduzida e/ou as drogas consumidas já não proporcionarem o prazer desejado, no entanto, a estrutura do cérebro responsável pelo prazer exige que sejam elas consumidas.

Memórias convincentes
As mudanças no sistema de recompensa por si só não podem explicar o fenómeno da adicção. Tal como afirmou, Mark Twain sobre o seu hábito de fumar, “Parar de fumar é fácil.”. Ele tinha feito inúmeras tentativas para interromper o consumo de tabaco. Muitos dependentes passam longos períodos de tempo sem consumir a sua droga de escolha, mas correm o risco de recaída, mesmo após anos de abstinência, mesmo quando o circuito de recompensa de dopamina teve tempo de suficiente para recuperar. Estas pessoas são vítimas de estímulos, designadas de reflexo condicionado.

Alterações nas ligações entre as células cerebrais induzidas por drogas estabelecem associações entre a experiência com a droga e as circunstâncias em estas que ocorrem. Estas memórias implícitas podem ser vividas/recordadas intensamente quando os dependentes estão expostos a qualquer lembrança sobre essas situações, tais como; estado de humor, situações, pessoas, lugares ou a própria substância. Um dependente de heroína pode estar em perigo de recaída quando vê uma agulha hipodérmica, um alcoólico quando se cruza com o bar/café onde ele costumava beber ou quando encontra um individuo que foi seu companheiro de bebida. Qualquer adicto pode retomar o hábito ou o estado de humor que ele utilizou para voltar a consumir drogas, seja através de um deslize ou de uma recaída. Ele nunca irá desaprender este comportamento. Uma única dose pequena da droga, em si, pode despoletar uma das recordações mais intensas. Tal como se diz nos grupos de ajuda mútua dos Alcoólicos Anónimos - "É a primeira bebida que faz ficar bêbado".

Comentário: a adicção é uma doença do cérebro, progressiva e cronica, não é um sintoma de outra doença ou patologia, eis alguns sintomas:
  • Tolerância: necessidade de consumo de quantidades crescentes de substâncias para atingir a intoxicação ou o efeito desejado.
  • Síndrome da abstinência, vulgo ressaca: a substância psicoativa, vulgo droga de escolha ou outra, é consumida para aliviar ou evitar os sintomas desagradáveis e dolorosos da ressaca.
  • Perda do controlo: substância é frequentemente consumida por períodos mais longos do aquele que se pretende. O consumo é continuado apesar da existência de um problema persistente ou recorrente, provavelmente causado ou exacerbado pelo abuso da substância.
  • Incapacidade, apesar do desejo ou esforços persistentes, para diminuir ou controlar o abuso da substância. Qualquer atividade é abandonada ou diminuída em importantes atividades sociais, ocupacionais ou educativas.
  • Preocupação (Atenção): São despendidas grandes quantidades de tempo em atividades necessárias à aquisição, utilização e os seus efeitos. A doença é o assunto nº 1 na vida do individuo, as suas prioridades são: como obter a substância, o consumir e manter o efeito da substancia, no organismo, o mais prolongado possível e a gestão do stock.
Apesar deste texto se referir às substâncias psicoativas, um numero considerável de indivíduos com comportamentos adictivos, tais como o jogo, o sexo, furto, as compras, distúrbio alimentar apresentam algumas semelhanças no sistema de recompensa cujos comportamentos também comprometem o funcionamento normal do cérebro. 
Por exemplo, ao longo da minha experiencia profissional, observei indivíduos com comportamentos adictivos, em tratamento regime de internamento, por exemplo ao jogo e ao sexo, ao interromperem a atividade adictiva desenvolverem um conjunto de sintomas, físicos e psicológicos, associados e idênticos ao síndrome da abstinência, vulgo ressaca, também observado em indivíduos adictos a substâncias psicoativas, vulgo drogas.

sexta-feira, dezembro 14, 2012

Algumas curiosidades sobre o Modelo Minnesota (MM)



Durante a minha formação profissional tive o privilégio de estar presente numa das instituições mais reputadas do mundo, sobre o tratamento das dependências de substâncias psicoativas, vulgo drogas, incluindo o álcool, refiro-me obviamente a Hazelden Foundation.

Nesse sentido, decidi escrever este post de forma a revelar algumas das características do Modelo Minnesota; a sua génese, a filosofia e a sua história. Para os menos informados este modelo de tratamento é aplicado num regime de internamento residencial tratamento cuja duração é de 90 dias, aproximadamente.
Aproveito para enaltecer a dedicação e o compromisso de algumas pessoas genais  e visionários, durante o final dos anos 40, nos EUA, que dedicaram uma parte considerável das suas vidas a ajudar indivíduos a recuperar a sua dignidade e a recuperação da adicção. Lutando contra o estigma, a negação e a vergonha associados a esta doença.

Com este post não pretendo fazer uma abordagem completa e exaustiva deste modelo de tratamento, apenar pretendo salientar e revelar alguns detalhes sobre a sua historia e pessoas.
Para pensarmos no tratamento do alcoolismo e a génese do modelo Minesota precisamos de recuar até ao final dos anos 40, marcado pelo período pós-guerra (II grande guerra mundial), a segregação social, o tratamento do alcoolismo com uma forte vertente religiosa (evangelização) os asilos para doentes mentais e cadeias. Nesta altura ainda não existia o DSM, Manual de Diagnostico de Doenças Mentais, que só surgiu em 1952, nos EUA.

Modelo Minnesota “Uma abordagem evolucionária e multidisciplinar na Recuperação da Adicção.”  Jerry Spicer, Presidente Hazelden Foundation, Minnesota, EUA (1949 a 2011)

Génese – Instituições envolvidas (Minnesota Model)
1948 - Pioneer House (filosofia do tratamento dos Alcoolicos Anonimos, AA) era designado, na altura, como um clube/associação, onde surge o primeiro membro de AA e a primeira figura do Addiction Counselor (1949) como profissão, em colaboração com o Serviço de Saúde Publica de Minneapolis, EUA
1949 - Hazelden (filosofia do tratamento do AA)
1950 - Hospital State Wilmar – departamento de psiquiatria (equipa de profissionais cuja abordagem ao tratamento foi inovadora contando também com introdução da filosofia do AA).

Tratamento Residencial em Regime de Internamento
       Consiste no processo que inicia quando indivíduo contacta um serviço (Instituição) com vista a uma sucessão de intervenções específicas até se atingir o nível de bem-estar – Avaliação, Admissão, Diagnostico, Plano de Tratamento personalizado e Recuperação duradoura.
       Reduzir ou eliminar problemas associados às substâncias psicoativas lícitas e/ou ilícitas, incluindo o alcool.
       Reabilitação dos problemas relacionados com as substâncias (diagnostico, assistência, aconselhamento, participação da família, saúde e integração social).

Ligação entre Tratamento do Alcoolismo, o AA e o Modelo Minnesota
       Número significativo de indivíduos que atingiram a sobriedade através do AA, nos EUA, a visibilidade pública, por exemplo através dos meios de comunicação social e algumas estrelas de cinema, músicos famosos, senadores, políticos em recuperação a assumirem publicamente a preferência pela filosofia do programa de 12 Passos.
       Em 1935/existiam 100 Membros do AA, em 1942/800 membros.
       Pessoas genais e visionárias envolvidas no tratamento do alcoolismo – Mel Rosen, Nelson Bradley, Daniel Anderson, Rev John Keller , o filantropo John Rockefeller Junior e a família Butler.

Filosofia do Tratamento MM - anos 50
       Alcoolismo: doença progressiva e crónica. Multidimensional: física, psicológica, social e espiritual.
       Alcoolismo: doença crónica e primária; não é um sintoma de outra doença subjacente vs. Tratar da personalidade do alcoólico.
       A presença ou a ausência da motivação, no início do tratamento, não tem influência no resultado final.
       O sucesso do tratamento exige uma atmosfera na qual o alcoólico/adicto seja tratado com dignidade e respeito.
       Os alcoólicos/adictos são vulneráveis ao amplo espectro das mais variadas substâncias psicoactivas. O fenómeno, Dependência de Substâncias, deve ser abordado em tratamento.
       A abordagem à dependência de substâncias terá mais sucesso se a equipa de profissionais desenvolver um tipo de relacionamento menos formal, mais “intimo” com os pacientes, cujas atividades estão integradas num plano individualizado de tratamento desenvolvido para cada paciente.
       Para a execução do plano de tratamento designa-se um conselheiro – figura do gestor do caso.
       Durante o tratamento inclui a participação nos AA (reuniões), trabalhar os Passos, terapia de grupo que combine a confrontação e o apoio, palestras, sessões individuais de aconselhamento e um ambiente dinâmico (cultura - Milieu) de responsabilização e aprendizagem.
       O AA é a estrutura mais viável após o internamento (follow up) para a Recuperação duroura/Sobriedade.

Minnesota Model-  “Milieu” profissional 
       Abordagem Holística – Poder da experiência espiritual para a Recuperação através dos grupos de ajuda mutua A.A. assume um papel preponderante na abordagem. “Se o outro consegue eu também consigo”
       Etiologia da doença vs. Programa de Recuperação “Onde não arranha, não se coça” Daniel Anderson . Mais importante que a causa, os objetivos de recuperação (12 Passos) são uma prioridade, através da motivação para a mudança de comportamentos.
       Equipa Multidisciplinar - Abordagem multidimensional à doença (medicina, psicologia, clero e addiction counselors).
       Adictos em Recuperação (Addiction Counselors, 1954) Nova designação profissional.
       “O Alcoolismo requer dois tipos de conhecimento: cientifico e experiencia. Existem dois tipos de escolhas disponíveis - Dinâmica Integradora vs. Polarização Auto Destrutiva .” Daniel Anderson. Fusão da ciência, da teoria e da componente empírica.

Difusão do Modelo Minnesota nos EUA, desde os anos 60.
       Alcoólicos Anónimos e Narcóticos Anónimos
       Conferências e cursos profissionais nas Universidades de Yale e Rutgers (1960/1990)
       Campanhas nacionais através do Conselho Nacional Alcoolismo, (NCA). Marty Mann, co fundadora do NCA, foi a primeira mulher, pertencente ao AA, a permanecer em recuperação durante um longo período de tempo.
       Estágios e Formação profissional, em Hazelden.
       Ex colaboradores do Hospital de Wilmar State.
       Project Match , 1989 – Estudo (5 anos), que contemplou e aprofundou a eficácia e vantagens “emparelhamento” da Terapia Cognitiva-Comportamental, da Twelve Step Facilitation (oriunda do MM) e Motivational Enhancement Therapy no tratamento do alcoolismo.
       Na Europa - Broadway Lodge, Inglaterra, 1974 (Dr. James Ditzler and Joyce Ditzler)

Modelo de Tratamento (Internamento)
       Dependentes de substâncias, incluindo o álcool.
       Conceito de doença
       Duração da primeira fase de tratamento 60/90 dias. Caso se prolongue o tratamento o paciente deve mudar de setting terapêutico.
       Abstinência de Substâncias psicoativas
       Educação s/ Alcoolismo – Sintomas físicos e psicológicos. Ambiente livre de drogas
       Palestras e Terapia de Grupo (dinâmicas).
       Envolvimento no AA (Espiritualidade).
       Aftercare – Pós tratamento.

Génese em Portugal
       Alcoolicos Anónimos, Alcoolicos Anónimos1978
       Narcoticos Anónimos  Narcóticos Anónimos, 1985
       Portugal, Lisboa (projeto piloto) – Unidade de Tratamento Intensivo de Toxicodependências e Alcoolismo (UTITA, 1985) no Serviço de Psiquiatria do Hospital da Marinha
       Era - Empatia, Recuperação e Apoio (1990) através do Dr. Margalho Carrilho, Joana Faria e Cristina Mello
       Fundação Frei Manuel Pinto da Fonseca (Centro Tratamento São Fiel, 1992/2004), em Castelo Branco. Ao longo da sua existência apoiou mais de 3.000 pacientes. Instituição pioneira nos programas de apoio aos familiares dos seus pacientes, formação continua e supervisão dos seus colaboradores/profissionais.

Apesar do Modelo Minnesota ser uma das referencias mundiais no tratamento das dependências, incluindo o alcoolismo, e do qual eu comprovo a sua validade, não pretendo ser dogmático, porque pela minha experiencia, algumas pessoas não se adaptam à sua filosofia. Nesse sentido, cada um é livre em escolher o melhor tratamento e os melhores profissionais que o/a possam ajudar na interrupção da progressão ativa da doença da adicção; doença cronica, progressiva e caso não seja interrompida poder ser fatal. Estamos perante uma doença complexa.

Mais recentemente, durante o final dos anos 80, surgiu outra denominação, oriunda do Modelo Minnesota, designada de Twelve Step Facilitation. Esta designação é utilizada no Project Match
Depois de colaborar com varias instituições, gostaria de acrescentar que o Modelo Minnesota em Portugal, apesar de existir desde 1985, ainda está numa fase embrionária e a necessitar de uma atualização urgente, ao nível da formação profissional, plano de tratamento, respeito pelos seus pacientes e familiares, equipas de profissionais multidisciplinares dedicados e comprometidos pelas suas carreiras, supervisão e código de ética, criação de uma associação nacional que zele pelos interesses e características do modelo em si, partilha de experiencias entre profissionais por exemplo através de congressos, redes sociais, etc. Apelo aos profissionais e instituições que utilizem o MM que invista mais na colaboração, cooperação e partilha de conhecimento, no final, os nossos pacientes, as suas famílias e a comunidade vão beneficiar muito mais, abram as portas ao conhecimento e à excelência, é um investimento de inestimável valor.

Também gostaria de informar que o Modelo Minnesota não tem qualquer ligação institucional ou profissional com os grupos de ajuda mútua dos 12 Passos, por exemplo Alcoólicos Anónimos, Narcóticos Anónimos, Jogadores Anónimos. Por exemplo, oiço com muita frequência pessoas a afirmar que “O centro onde o meu filho está internado é dos Narcóticos Anónimos”, isso é falso. De acordo com estes grupos de ajuda-mutua os seus membros não são profissionais, não possuem instalações para internamento ou não existe a figura do profissional que faz terapias/consultas. Estes indivíduos ajudam-se uns aos outros recorrendo á sua experiencia e partilha pessoal através do programa dos 12 Passos, a participação de qualquer individuo, nos grupos de ajuda mutua, é voluntaria e livre de qualquer cota ou pagamento. Consulte mais nas tradições de Alcoólicos Anónimos ou Narcóticos Anónimos. Caso tenha alguma duvida envie a sua questão para xx.joao@gmail.com

Referências bibliográficas:
  • “Slaying the Dragon – The History of Addiction Treatment and Recovery in America” – William White, 1998, 4ª Edição. A Chestnut Health Systems Publication
  • “The Evolution of the Multidisciplinary Approach to Addiction Recovery – The Minnesota Model” – Jerry Spicer, 1993. Hazelden Foundation
  • “Hazelden – A Spiritual Odyssey” Damien McElrath, Ph D. Hazelden Foundation
  •  "Project Match – Monograph Series” National Institute on Alcohol Abuse and Alcoholism (NIAAA), 1989