sábado, Abril 12, 2014

Você sabia que é possível recuperar das dependências?



Sabia que:
O individuo dependente de drogas, incluindo o álcool, gradualmente sofre alterações neurobiológicas, associado às estruturas do cérebro responsáveis pela recompensa e prazer como consequência do consumo frequente de substâncias psicoactivas. Estas alterações são responsáveis pelo craving (vontade irresistível e intensa em voltar a consumir a droga de escolha) incapacitando o individuo de se manter abstinente.
Muitos indivíduos dependentes de drogas, incluindo o álcool, tentaram inúmeras vezes interromper e parar o abuso das substâncias psicoactivas do Sistema Nervoso Central, que podemos designar «tentativas caseiras» sem apoio profissional. Alguns são bem sucedidos, outros não, todavia segundo alguns estudos nos EUA, revelam que a grande maioria dos indivíduos que fizeram essas tentativas (caseiras) não conseguiram permanecer em abstinência durante longos períodos de tempo.
Um dos sintomas mais comuns associado ao abuso e à dependência de drogas, incluindo o álcool, e o jogo é:
1. Drogas: continuar a usar e a justificar apesar das consequências negativas, "É só mais uma vez..." 
2. Álcool: continuar a beber e a justificar, apesar das consequências negativas, "É só mais um copo..."
3. Jogo: continuar a jogar e a justificar o comportamento problemático apesar das consequências negativas, "Vou jogar mais uma vez para recuperar o dinheiro perdido."

Enquanto a dependência das substâncias psicoactivas e/ou do comportamento não forem contempladas no tratamento a tendência é para que os sintomas se agravem cada vez mais. Segundo a Associação Americana da Medicina da Adicção a adicção é uma doença crónica.

Sabia que a dependência de drogas, incluindo o álcool, afecta as competências cognitivas do individuo. Uma das mais comuns identificadas em dependentes é o pensamento rígido - "tudo ou nada". Algumas afirmações mais comuns por indivíduos dependentes: "Se não for à minha maneira, não quero." ou "Eu é que sei, sou assim e ninguém tem nada com isso." ou "Como não sou capaz de deixar o vicio das drogas/do álcool, sou um falhado."

Um dos mitos sobre o consumo de cocaína, está associado à inexistência da dependência física desta substância psicoactiva, isto é, as pessoas pensam erradamente, visto não existirem sintomas físicos, não ficar dependentes. Na verdade, de acordo com a minha experiência profissional, o consumo de cocaína, numa perspectiva social, pode estar na origem de vários problemas, e em ultimo caso, na dependência.


Quando a família se confronta com um dos membros, com problemas de drogas ilícitas e/ou jogo, sofre um grande choque, pode ser de tal forma traumático, que a tendência pode ser negar as evidencias. Todavia, negar não é a abordagem mais apropriada. Qual será a abordagem mais eficiente? Se pretende saber a resposta a esta questão envie um email para xx.joao@gmail.com

sexta-feira, Março 28, 2014

Como é que posso mudar o meu parceiro?



Relacionamentos de intimidade e a adicção: Como é que posso mudar o meu parceiro que está doente? Não pode, mas pode mudar o seu comportamento e as dinâmicas da relação.

Ao contrário daquilo que se pode pensar, a maior grande parte dos indivíduos dependentes de substâncias psicoactivas, lícitas e/ou ilícitas, vulgo drogas, ou comportamentos adictivos, por exemplo, jogadores compulsivos e adictos ao sexo não são pessoas que vivem isolados da sociedade, não são sem-abrigo, não estão todos hospitalizados ou internados em centros de tratamento, pelo contrário, têm as suas esposas/maridos, famílias e filhos, carreiras profissionais, e apesar do estigma e da negação, são indivíduos activos no trabalho e mais ou menos integrados na sociedade. Por falta de informação sobre a adicção e o impacto na família e na comunidade (sociedade) temos a tendência para negar as evidências; as coisas têm o valor que nós decidimos que elas tenham.

São homens e mulheres adictos que têm os seus parceiros; namorados/as ou esposas/maridos. Na maioria dos casos, as esposas/maridos e/ou namorados/as sabem da existência do problema no parceiro/a, ou pelo menos, apesar de falta de conhecimento ou informação, têm a consciência de que algo não está bem e que é preciso mudar. Infelizmente, devido à complexidade dos relacionamentos e da adicção não sabem como faze-lo, por causa de vários factores. Um deles é gerarem vínculos que reforçam os seus papéis de zeladores e cuidadores. Isto é, assumem o poder e a responsabilidade de zelar pelo parceiro/a. Eles e elas adaptam as suas rotinas do dia-a-dia às vicissitudes e à adversidade (comportamento problema) relacionada com o impacto da adicção na relação, vivendo num estado eminente de ambivalência, alerta e preocupação. Afinal, no universo das relações, quem é que não tem problemas sobre o comportamento do marido? Da esposa? Do namorado? Da namorada? Todos nós. Contudo, nesta situação especifica da adicção, o problema, para além de se agravar e afectar gravemente os afectos, paradoxalmente, também pode ser atenuado, compreendido e/ou resolvido. A questão é: Como.

Leia com atenção e responda a estas três questões:
1. Você tem um relacionamento com uma pessoa dependente de drogas? Ou álcool? Ou Jogo compulsivo? Ou adicção ao sexo? Se a resposta é sim, reflicta sobre estas questões:
 Você castiga a pessoa dependente? Por exemplo, você grita (explosões irracionais de raiva e ressentimento), ridiculariza, ameaça, humilha em frente aos filhos, à família e às outras pessoas. 
Faz questão de dizer às outras pessoas que o seu familiar/parceiro/a dependente é um/a falhado/a.
Ignora (longos períodos de silêncio e indiferença) a pessoa dependente. Faz frequentemente ameaças que o/a vai deixar de uma vez por todas.

2. Qual tem sido o resultado prático da sua abordagem? Constata que o resultado da sua abordagem, para ajudar o seu parceiro/a, não tem o efeito desejado? Sente-se frustrado/a e impotente?
 Você não permite que a pessoa dependente assuma a responsabilidade pelas consequências do problema da dependência?
Sofre por antecipação gerando cenários catastróficos e procura eliminar e/ou atenuar o efeito das crises relacionadas com a adicção. Por exemplo, você mente perante a sua família? Mente perante o médico, é desonesta com os seus valores e convicções?
Possui segredos que o/a transtornam no dia-a-dia, por exemplo sente vergonha por ser cúmplice de algo ilícito ou incorrecto. Sente-se ansiosa/o? Deprimido/a?
É a/o responsável por criar e proporcionar as condições financeiras para o comportamento problemático.
Evita abordar o conflito e cede às exigências e manipulações do seu parceiro/a dependente. Você trabalha horas extraordinárias para pagar as dívidas, despesas, etc.

3. Você considera que os efeitos da sua ajuda não estão a surtir os resultados desejados? O seu parceiro/a dependente continua a fazer promessas, recorrer às mentiras e juras em interromper o comportamento problema, mas na realidade tudo permanece na mesma? E você continua com os mesmos comportamentos, acima referidos, fazendo juras, promessas que não cumpre, explode em raiva e agressividade e ressentimento?

Deixe-me colocar-lhe esta hipotética questão: 
Você assumiria uma relação de compromisso romântica com uma pessoa que é dependente de drogas, incluindo o álcool, e /ou Jogo compulsivo e/ou adicção ao sexo? A resposta da grande maioria das pessoas que estão envolvidas em relacionamentos com adictos é: «Não.»

Quando o alcoolismo, a dependência de drogas, o Jogo compulsivo e a adicção ao sexo atingem proporções incontroláveis, designadas de crises, gradualmente a tendência é para agravar os sintomas da adicção e os efeitos negativos na relação. A única escolha possível é fazer uma intervenção.
A intervenção na adicção, visa a) abordar todas estas questões (dinâmicas da relação) acima referidas, num contexto seguro, com a ajuda de um profissional experiente, onde prevalece a comunicação honesta b) Interromper o impacto negativo da adicção na estrutura da relação c). Reforçar a necessidade de compromisso para com a mudança.

Caso esteja interessado/a em participar pode enviar por email as suas respostas às 3 questões. Todos os dados são confidenciais (sigilo total). Participe e bem haja.


sábado, Março 15, 2014

O «Vicio» de drogas, incluindo o álcool, é uma doença; não é uma escolha individual.


10 Questões importantes para reflectir sobre as dependências de drogas, incluindo o álcool, e o jogo patológico.

1. De acordo com estimativas das Nações Unidas (United Nations Office on Drugs and Crime - UNODC) existem mais de 10 milhões de pessoas dependentes de heroína no mundo. Em cada 1.000 consumidores de heroína, 2,6 morrem, por exemplo, de overdose. A heroína é uma substancia psicoactiva extremamente adictiva.

2. Sabia que o abuso de drogas, incluindo o álcool, distorce a percepção da realidade. As pessoas podem revelar-se irracionais, excêntricas e excessivamente desinibidas. Em alguns casos, podem revelar-se violentas.

3. Associado ao abuso e à dependência de drogas, incluindo o álcool, o individuo é sujeito à oscilação acentuada das suas emoções que podem variar entre o ódio e a euforia, do entusiasmo à apatia. Por exemplo, é frequente o individuo dependente, estar triste e apático, e ao consumir drogas, incluindo o álcool, proporciona a si mesmo uma sensação de felicidade, apesar de ser efémera.

4. Para um individuo dependente de drogas, incluindo o álcool, e o jogo patológico revela-se extremamente difícil ter a percepção sobre os efeitos e as consequências negativas dos seus comportamentos. A dependência é a causadora da maioria dos fracassos e da frustração tornando assim a vida insuportável e em alguns casos mais extremos pode revelar-se caótica. Quanto mais dificuldades, maior será a necessidade de recorrer ao comportamento problemático associado às dependências – abusar de drogas, incluindo o álcool, e/ou o jogo patológico.

5. No início do consumo de drogas ilícitas, estas intensificam a actividade; mais concentração, mais desinibição, bem-estar e alívio. Gradualmente, na dependência as drogas suprimem a actividade; menos concentração e perda de memória, mais desadequação e constrangimento, desconforto físico e psicológico.

6, Dependência de drogas incluindo o álcool.
Você sofre da síndrome de abstinência, vulgo ressaca?
Os sintomas de ressaca surgem quando o individuo abusa das substâncias psicoactivas, do sistema nervoso central até à intoxicação. Os sintomas da ressaca estão associados à frequência, à intensidade e à duração do abuso das drogas, incluindo o álcool.

7. Benzodiazepinas: medicamentos tranquilizantes e/ou ansiolíticos sujeitos a receita medica. São substâncias que geram dependência física e psíquica. Caso o abuso seja continuado, a interrupção abrupta representa um risco grave para a saúde. Algumas pessoas dependentes de benzodiazepinas são também dependentes de álcool e/ou outras drogas ilícitas (adicção cruzada) - uso concomitante de substâncias.

8. Sabe o que são os analgésicos? São drogas poderosas que interferem com a transmissão de sinais eléctricos do sistema nervoso central pela qual entendemos e percebemos a dor. A maioria dos analgésicos estimula as partes do cérebro associadas ao prazer. Se toma medicação siga a prescrição do seu médico. Não faça auto medicação.

9. Alguns efeitos do abuso do álcool e/ou dependência: descoordenação motora, perda da concentração e da memória, danos cerebrais, depressão e doenças do fígado (cancro). O abuso do álcool e a dependência afectam seriamente as relações pessoais; família, trabalho, sociais.


10. A dependência de drogas, incluindo o álcool, e o jogo afectam seriamente o desempenho e os relacionamentos profissionais; abstenção laboral, perda de memória e concentração, negligencia, falta de ética profissional, conflitos com colegas e entidade patronal.

sexta-feira, Março 07, 2014

O jogo problemático é um problema de saúde publica



Este artigo foi publicado no Jornal de Negócios (17 de Fevereiro de 2014) e está disponível só para assinantes online , nesse sentido, disponibilizo-o para si que é seguidor do blogue Recuperar é que está a dar. 

Jornal de Negócios: Nos últimos anos, o volume de jogos de fortuna e azar e apostas desportivas foram aumentando quer em locais físicos, mas como através da Internet. Esse crescimento foi acompanhado pelo registo de incremento de pessoas com adicção de jogo?
O incremento de pessoas com adicção ao jogo e o jogo patológico, através da Internet tem sido exponencial. Por exemplo, no final dos anos 90 a maioria dos indivíduos adictos ao jogo, em casinos, eram adultos na casa dos 40 e dos 50 anos. Hoje em dia através do acesso online, chegam às consultas indivíduos com problemas associados ao jogo com idades entre os 24 e os 30 anos. Todavia, isso não quer dizer que todos sejam adictos ao jogo, isto é, alguns são indivíduos com problemas associados ao jogo que varia entre moderado e grave. Na sua pergunta refere adicção, nesse sentido, importa saber o que é a adicção. A adicção afecta a saúde do indivíduo, os vínculos familiares, incluindo das crianças, o desempenho profissional e a qualidade de vida. Ser adicto não é uma escolha pessoal. Ao longo de vinte anos de experiência profissional, na área da adicção, nunca ouvi nenhum individuo afirmar que escolheu ser adicto. Não é um acto voluntário, o individuo perde o controlo, a compulsividade, o craving (desejo intenso e irracional pela actividade) e continuação do comportamento apesar das consequências negativas. A Sociedade Americana da Medicina da Adicção define a adicção como uma doença primária, crónica que interfere e afecta o sistema/estrutura do cérebro responsável pelo prazer e recompensa, pela motivação e memoria e os circuitos neuronais adjacentes. Sabemos que uma alteração e disfunção destes circuitos neuronais conduzem ao aparecimento de sintomas a nível biológico, psicológico, social e espiritual no indivíduo, que se reflectem na busca e recompensa patológica do prazer. Por outras palavras, a adicção funciona como uma “almofada” perante determinadas situações e adversidades ao longo da vida do indivíduo. Este fenómeno repete-se com a adicção às substâncias psicoactivas lícitas, incluindo o álcool, as ilícitas, vulgo drogas, com o jogo, o sexo, as compras, o furto. A fim de ficar esclarecido existe um critério que identifica o jogo problemático (moderado a severo) e um critério para a adicção (doença primária e crónica). A adicção não é um vírus.  
Segundo estudos (American Medical Association, EUA, 2000) existem factores genéticos em comum entre os indivíduos jogadores patológicos do sexo masculino e o álcool. Todavia, também gostaria de referir que nas últimas duas décadas, com os avanços tecnológicos e a investigação, principalmente nos EUA e Canadá, ainda estamos a aprender sobre o que é a adicção; as causas, a identificar aqueles indivíduos mais vulneráveis e os tratamentos disponíveis mais adequados.

Jornal de Negócios: É possível traçar o perfil do jogador compulsivo?
Segundo uma investigação no Canadá, os indivíduos com problemas associados ao jogo compulsivo (patológico) apresentam quatro vezes mais probabilidades de serem diagnosticados com doença mental, relacionado com perturbação do humor e ansiedade, do que os indivíduos não jogadores. A actividade associada ao jogo começam na adolescência, com mais prevalência no sexo masculino do que no sexo feminino.
Na minha experiência profissional o perfil do individuo jogador compulsivo oscila entre os 24 e os 56 anos. Sexo masculino, classe media/alta, licenciados com carreiras profissionais estáveis, trabalham em excesso, têm dívidas, gostam de quebrar regras e correr riscos, são impulsivos e egocêntricos. Acreditam que o dinheiro é a causa e/ou a solução para os seus problemas. Alguns deles afirmam, em situações de desespero, ideações e tentativas de suicídio. Alguns destes indivíduos são oriundos de famílias desestruturadas com problemas de álcool, jogo e violência doméstica.    

Jornal de Negócios: As autoridades estão despertas para fiscalizar a multiplicidade de jogos disponíveis?
Na minha opinião, as autoridades estão conscientes deste fenómeno, mas ainda não existe vontade politica para mudar esta realidade associada aos problemas do jogo. Posso dar um exemplo, na última semana, todos os meios de comunicação social e redes sociais, faziam referência à morte do actor galardoado de Hollywood, Philipe Seymour Hoffman por overdose de drogas ilícitas. Se pensarmos em indivíduos com problemas de jogo, não me recordo de nenhum caso, de figura publica, quer seja estrangeiro ou português que tenha sido noticia. Todavia, quando surgem notícias relacionadas com indivíduos e o jogo patológico, o destaque é direccionado para actividades ilegais, dívidas, burlas, tribunais, são, erradamente, considerados casos de polícia. As pessoas são presas e estigmatizadas. Não recebem o devido tratamento.
Persiste o estigma, a vergonha e a negação. Actualmente, a indústria do Jogo é um negócio de muitos milhares de euros. Em Portugal, o jogo é um problema de saúde pública que ainda permanece obscuro e por avaliar os seus efeitos e consequências. É preciso vontade política.
Entre 01 de janeiro e 30 de novembro de 2013 foram gastos em apostas 854,9 milhões de euros no Euromilhões, em dez anos os portugueses gastaram nove mil milhões. Nos primeiros três meses de 2013 os portugueses gastaram 101 milhões de euros em raspadinhas. Segundo um estudo conduzido pelo Centro de Estudos de Sociologia da Universidade Nova de Lisboa, a raspadinha é o terceiro jogo pelo qual a população, entre os 15 e os 74 anos, revelou ter maior dependência. Falta saber os valores e o impacto das lotarias, nos casinos, bingos, e jogos ilegais, nos cafés e bares das aldeias de norte a sul do país.
   
Jornal de Negócios: Quais os perigos do jogo online? A adicção apresenta-se de forma diferente?
Segundo a minha experiência profissional, os perigos do jogo online são insidiosos e complexo visto haver da parte do jogador patológico, acesso ilimitado à Internet, independentemente da hora, do local, do dispositivo (computador, telemóvel, tablet). Conheço casos de indivíduos, quando chegam ao local de trabalho, ligam o computador, e imediatamente começam a jogar ou a consultar os sites de apostas ou poker ou mercado de valores, e assim permanecem, em segredo, sem conhecimento dos seus colegas e/ou entidade patronal, até ao final do dia. Obviamente, este tipo de actividade compromete seriamente o desempenho do trabalhador. Também utilizam os smartphones e os tablets para continuar a jogar/apostar em casa no final do dia de trabalho. Afirmam «É uma forma prazerosa de descontrair e relaxar, depois de um dia stress no trabalho». Negligenciam a relação com a sua parceira, com os filhos e/ou outro tipo de actividades sociais. Na maioria dos casos, a família desconhece ou permanece ignorante quanto às consequências reais do jogo. Alguns indivíduos permanecem «ligados» às actividades associadas ao jogo durante 12 a 14 horas diárias. Gradualmente vai aumentando a actividade associada ao jogo/apostas por longos períodos com incremento da frequência, da intensidade e da duração. Quanto maior a exposição à actividade associada ao jogo/apostas, maior o risco de desenvolver a adicção.

Jornal de Negócios: Como é possível “investigar” este tipo de adicção?
É preciso um plano nacional que vise erradicar e/ou atenuar o estigma, a negação e a vergonha associados aos comportamentos adictivos. Existem mitos e preconceitos que visam discriminar o individuo adicto e a sua família. Segundo relatos das famílias, que pedem ajuda nas consultas, afirmam “Quando soubemos do problema do jogo do meu filho, decidimos ocultar de toda a gente, incluindo a família mais próxima e tentamos resolver o problema em casa. Mais tarde, reconhecemos que foi o pior que podíamos ter feito, porque ao invés de melhorar, ainda agravou mais, com a agravante de ter dividido a relação entre o eu e o meu marido. No fundo, sentimos imensa vergonha, porque nunca imaginamos que o meu filho pudesse ter um problema desta natureza. Levamos algum tempo até aceitar que aquilo que fazíamos para ajudar, só piorava. Hoje admito, como mãe, que sinto imensa vergonha do problema do meu filho. Só sabe o mal que isto é, quem passa por elas.” 
Em Portugal, a investigação ainda está numa fase embrionária, apesar de haver alguns profissionais dedicados ao estudo do jogo patológico, onde destaco o trabalho do Dr. Pedro Hubert. Para além da investigação, são necessários profissionais que assumam o compromisso, isto é, que dediquem a uma parte significativa das suas carreiras à formação continua, à investigação, à partilha de conhecimentos, experiencias e criarem-se equipas pluridisciplinares que se dediquem exclusivamente ao tratamento e recuperação dos comportamentos adictivos, e do jogo em particular. É necessário mobilizar a comunidade, em particular, e a sociedade, em geral para este tipo de fenómenos emergentes e transversais. Qualquer pessoa está exposta e vulnerável. Aquelas pessoas que consideram que a adicção só acontece aos outros, são provavelmente aquelas que apresentam mais factores de risco.

Quais são os custos do jogo patológico que representam para os cofres do estado? Em termos de comparação os custos do álcool representam 200 milhões de euros. Os custos do tabaco representam 500 milhões de euros.

Se houver, da parte dos decisores políticos, dos meios de comunicação social, legislação, um plano nacional de prevenção e tratamento como está acontecer com o tabaco, creio estarem criadas as condições para haver mais pessoas informadas, profissionais e instituições dedicadas ao tratamento. Como resultado, destes esforços, nos últimos anos, o número de pessoas que procurou ajuda para interromper a adicção ao tabaco. aumentou significativamente.

Jornal de Negócios: Quais os perigos da publicidade relacionada com o jogo?
O mesmo fenómeno repete-se com o álcool, com o tabaco e também com o jogo. Apesar de haver mudanças nos paradigmas sobre o tabaco, em relação ao resto, as leis existentes ainda são permissíveis e não existem instituições credíveis independentes que monitorizem o marketing agressivo e a publicidade associada aos comportamentos adictivos. Isto é, o problema não são as substâncias psicoactivas lícitas e/ou o jogo, o real problema são as pessoas. Algumas pessoas conseguem consumir drogas, beber bebidas alcoólicas e/ou jogar socialmente sem que isso represente um problema para as suas vidas, todavia, enquanto outras, felizmente em menor numero, apresentam um risco maior. Tal como referi, no inicio, infelizmente existem muitos casos de pessoas que faleceram como consequência da adicção às substâncias psicoactivas, nos últimos anos, só para enumerar alguns, Michael Jackson, Amy Whinehouse, James Gandolfini,  Witney Houston e Philipe Seymour Hoffman. Segundo as Nações Unidas estimam-se que 160 mil milhões de dólares oriundos do tráfico de drogas, anualmente, sejam lavados na banca internacional. O fenómeno é idêntico com o jogo legal e ilegal. Os lucros astronómicos, os interesses financeiros e económicos estão acima dos direitos das pessoas. Apesar de sabermos que entre indivíduos com problemas de jogo o número de suicídio é elevado e os custos para o estado elevadíssimos, todavia, esta realidade ainda é negligenciada. Parte dos lucros da indústria do jogo deviam ser revertidos para a investigação e o apoio no tratamento do jogo.

Jornal de Negócios: Quais são as principais tendências de futuro?
Após duas décadas a trabalhar na área dos comportamentos adictivos as tendências destes fenómenos relacionados com a natureza humana, são para se manterem. Estamos vulneráveis perante a dor e conseguimos convencer-nos que conseguimos ludibria-la recorrendo a estratégias e mecanismos cuja finalidade é o prazer imediato. No outro lado deste fenómeno, felizmente, também existem muitos casos de pessoas que recorreram à ajuda profissional ou através dos grupos de ajuda mútua dos 12 Passos (Jogadores Anónimos) que conseguiram ultrapassar a adversidade. Da mesma forma, que se estudam as causas e os sintomas do jogo patológico, também é necessário estudar aquelas pessoas resilientes que permanecem em recuperação durante períodos duradouros. Essas pessoas são um recurso valiosíssimo para a comunidade. É preciso sensibilizar o público em geral, através de informação e haver uma participação cívica mais activa, em relação a estes temas. Participei num programa, numa escola sobre a prevenção das dependências, e foram enviados para a associação dos pais, centenas de convites, apareceram seis pais. Perante a negação e a passividade é preciso uma revolução nesta matéria. Os nossos filhos merecem que os adultos zelem pelos seus direitos a uma vida plena.

Para terminar, gostaria de publicar um email que recebi de uma pessoa adicta ao jogo, do Brasil, também podia ser portuguesa, enquanto escrevia este artigo, a pedir-me ajuda.  
«Chamo-me Adélia. Li o seu blogue e a minha pergunta é a seguinte. Estava viciada em jogo de bingo (vídeo) naquele nível de pensar em suicídio, de jogar o dia inteiro e fazer ate xixi na máquina para não levantar e ir ao banheiro. Às custas de muito sofrimento e terapia estou à 1 ano e 2 meses sem jogar. Acho que é bom eu te contar como forma de estudares o meu caso. Como você sabe, a dependência das drogas é diferente do jogo, o corpo não tem contacto com drogas, mas tive abstinência terrível, tudo tudo mesmo, e só não tive convulsões. Felizmente, estou um pouco ou bem melhor. Queria saber porque é que ainda tenho depressão? Você acha que preciso de um anti depressivo ou vai melhorando sem remédio? Obrigada, fica com Deus, Adélia (nome fictício)»
Este tipo de problemas não acontece só aos outros. O silêncio não resolve, pelo contrário, a tendência é para se agravar. Lá porque não se vê, não quer dizer que não existe.


sábado, Fevereiro 15, 2014

A adicção não é um vírus


A recuperação da adicção é um processo para o resto da vida.
Após as noticias recentes sobre o falecimento do actor de Hollywood,  Philipe Seymour Hoffman vítima de overdose de drogas ilícitas, intoxicação que ocorre quando  o individuo consome uma determinada quantidade de droga que os sistemas vitais do organismo são impedidos de funcionar adequadamente,   veio levantar a questão sobre a importância da abstinência, da recuperação da adicção e da recaída. 
Philipe Seymour Hoffman permaneceu abstinente durante 23 anos consecutivos. Se o actor faleceu aos 47 anos, fazendo as contas, parece ter iniciado a recuperação com 24 anos. Iniciar a recuperação com esta idade, por si só é um feito extraordinário, mas por outro lado, revela, desde cedo e ao longo do seu desenvolvimento, um individuo vulnerável (predisposição) aos efeitos e consequências da dependência de substâncias psicoactivas, do Sistema Nervoso Central, após duas décadas abstinente, paradoxalmente, recaiu e acabou por morrer de overdose. Não faleceu de cancro ou de doença cardíaca, mas vítima da adicção.

Já em meados de 2013, segundos os media norte americanos, Philipe S. Hoffman deu entrada num centro de tratamento para uma desintoxicação, durante dez dias, depois de ter recaído em heroína. Após ter completado o programa de desintoxicação, aparentemente parece ter voltado a frequentar as reuniões de Alcoólicos Anónimos (AA), note-se, já o fazia desde os 24 anos de idade, até 2014. Uma semana antes de morrer, foi à sua última reunião.

Este incidente, adquiriu um destaque mediático visto Philipe S. Hoffman, ser um actor galardoado com vários prémios, todavia, gostaria de transpor este caso para o cenário da dependência de drogas, da recuperação e da recaída em Portugal. Existem historias semelhantes de indivíduos adictos, em Portugal, que também permanecem períodos consideráveis abstinentes, em recuperação, mas que acabam, por um conjunto de motivos, reiniciar os consumos de substâncias psicoactivas, incluindo o álcool.
Como profissionais, quando nos deparamos com um individuo adicto a substâncias psicoactivas, vulgo drogas, devemos considerar a abstinência uma meta prioritária? A minha resposta é sim. Um individuo com um historial significativo de dependência (adicção) precisa de ajuda e recursos, a fim de repensar, sobre o seu estilo de vida e as drogas.

De acordo com a minha experiencia profissional, visto ainda não existirem estudos em Portugal sobre o tratamento, a recaída e a recuperação da adicção às drogas, o primeiro ano de abstinência é um período crucial, mas ao mesmo tempo critico para o individuo. A adicção às drogas lícitas, incluindo o álcool, e as ilícitas, interferem e comprometem o funcionamento e o desenvolvimento normal do cérebro – estruturas associadas ao prazer e recompensa, assim como a motivação, a memória e a capacidade de tomar decisões. A adicção, conforme vai evoluindo, gradualmente vai incapacitando o individuo de sentir, pensar (défices cognitivos) e tomar decisões saudáveis, ao mesmo tempo, vai deteriorando os vínculos entre as pessoas significativas; perda do controlo, síndrome da abstinência, problemas familiares e profissionais, tolerância às drogas, impotência associado ao sentimento de culpa e a vergonha, a negação e o estigma. Na perspectiva de um individuo adicto, a abstinência total de drogas é interpretada como uma privação radical, com custos psicológicos e sociais consideráveis, porque as substâncias psicoactivas, apesar das consequências negativas funcionam como uma almofada, um amortecedor, um «remédio» e representava um estilo de vida.

Generalizando, o consumo do álcool é encorajado na nossa cultura, somos seres sociais que utilizamos as bebidas alcoólicas com o intuito de «olear» a comunicação. Como profissionais, este tipo de paradigma poderá influenciar a nossa abordagem. Um individuo adicto fica incapaz de adoptar comportamentos saudáveis se consumir drogas, incluindo o álcool. Com muita frequência, escuto este tipo de comentários, entre indivíduos adictos em tratamento das drogas: «Abstinência total? O quê? Nunca mais vou usar drogas? Beber álcool? No verão… ao jantar entre amigos e beber um copo… fumar um charro de vez em quando?»  
Um individuo adicto, mesmo em recuperação por longos períodos, não consegue erradicar das suas memórias as sensações e experiências intensas de bem-estar e alivio que as drogas proporcionaram. Este estilo de vida, centrado nos efeitos das drogas, funcionava como um excelente antidoto de forma a gerir sentimentos desconfortáveis associados ao stress/tensão, ao tédio, à frustração originando uma sensação de despropósito em relação ao rumo da sua vida. A dependência psicológica das substâncias, não desaparece só porque o corpo está livre de drogas – lógica adictiva, exacerbado pelas características da personalidade. Costumo afirmar que viver dependente de drogas é uma ocupação, idêntica ao um emprego, que consome imenso tempo e energia, 24/24 horas, 7 dias por semana e 365 dias por ano. É o assunto mais importante e central na vida do individuo, mais importante até que a própria família, incluindo as crianças, a saúde, a carreira profissional, etc, etc.
Quais são os motivos que levam um individuo abstinente e em recuperação, durante 23 anos, a reiniciar o consumo? Após vários períodos duradouros em recuperação, alguns indivíduos decidem violar o voto da abstinência. Eis relatos que ouço, nas consultas:
  • “A minha vida está porreira, por isso, comecei a beber bebidas alcoólicas às refeições ou quando saio com amigos à noite. Nada de anormal.”
  • “Comecei a beber álcool, socialmente e tudo corria bem durante alguns anos, até ao dia que voltei a consumir a minha droga de escolha, (nestes casos pode ser heroína ou cocaína) e rapidamente a compulsão tomou conta de mim. Ao fim de umas semanas já estava outra vez agarrado às drogas.»
  • “Estive abstinente, durante 18 anos, a minha vida estava óptima, mas um dia, a relação com o meu marido acabou e decidi divorciar-me. Senti-me desesperada e sozinha com dois filhos nos braços. Perdi o sentido da minha vida, despertei para uma realidade que não estava preparada e a única solução foi reiniciar o consumo de drogas. Apesar de estar abstinente tanto tempo, soube onde me dirigir para comprar drogas, como consumir e decidi ocultar esta situação da minha família e no trabalho. Mais tarde, quando descobriram que andava a consumir drogas e alcool, foi uma tragédia…foi uma grande desilusão tão grande que nem consigo descrever.”
  • “Estive abstinente de drogas, durante 14 anos, adorava o meu trabalho, tinha uma excelente carreira profissional, um bom ordenado e era feliz. Um dia, de repente, fui despedido e fiquei no desemprego. Perdi qualidade de vida e senti-me injustiçado. Andei uma semana, cheio de pena de mim próprio, fiquei deprimido, não conseguia suportar a minha cabeça e estar com a família e amigos. Dormia até há hora do almoço e gerou-se, dentro de mim, uma sensação de inutilidade e impotência insuportável. Um dia, não sei explicar como, decidi começar a beber bebidas alcoólicas, e uns meses depois reiniciei o consumo nas drogas.”
  • “Estive abstinente de drogas, incluindo o álcool, durante 20 anos, criei uma empresa e um projecto de vida. Era um sonho tornado realidade, depois do inferno que passei com a adicção às drogas. Decidi reconstruir a minha dignidade e a auto estima. As pessoas de família começaram a acreditar em mim, inclusive o meu pai, ajudou-me financeiramente para avançar com o meu projecto profissional. Depois de iniciar a empresa, não pensava noutra coisa, que consistia em obter reconhecimento e a concretização de um sonho de infância. Passados 18 anos, trabalhava 12 a 14 horas, não dormia, andava ansioso e sempre em stress, só pensava em ganhar dinheiro. Sabia que para ter sucesso precisava de produzir, ganhar mais dinheiro, manter o estatuto e dar o meu melhor. Vivia única e exclusivamente para o trabalho. Um dia, fui parar, às urgências do hospital, deprimido e com ataques de pânico. Este episódio, veio alertar-me para a minha incapacidade, de gerir o negocio e ganhar mais dinheiro, sabia como atenuar a angustia, a depressão e a ansiedade. Reiniciei o consumo de bebidas alcoólicas, e passados 2 anos o consumo de cocaína, socialmente com amigos para me divertir e descomprimir, mais tarde, a heroína e os ansiolíticos.”

Para terminar, os indivíduos com um historial significativo de dependência (adicção) de substâncias psicoactivas, do Sistema Nervoso Central, lícitas incluindo o álcool e medicação prescrita pelo médico (do grupo das benzodiazepinas – por exemplo, os ansiolíticos) e as ilícitas devem considerar a abstinência uma regra. Tal como referi, estes indivíduos adictos desenvolveram uma predisposição, uma vulnerabilidade física e psicológica, ao contacto com drogas, que os colocam em risco de reiniciarem a adicção activa, que pode ser despoletada a qualquer altura, evento adverso e dor intensa, doença, etc, independentemente das suas vontades. Isto é, enquanto permanecerem abstinentes, a adicção permanece controlada; refiro-me á compulsão e à obsessão associado às drogas - ao prazer. De notar que, quando afirmo abstinência, refiro-me à «auto medicação», porque existem excepções, indivíduos adictos, em recuperação, precisam de medicação, e acima de tudo, acompanhamento profissional digno. Ao contrário, daquilo que algumas tendências e tradições disfuncionais da nossa cultura teimam em reforçar, é possível ter uma vida plena abstinente, sem drogas lícitas, incluindo o álcool, e as drogas ilícitas.

São necessários estudos inovadores, não me refiro somente às causas, aos sintomas da dependência das drogas, incluindo o álcool, mas aquelas pessoas, adictos e adictas, que após um historial de adicção activa, permanecem longos períodos em recuperação. Paralelamente, precisamos de contrariar o estigma, a negação e a vergonha. Ainda ouço, com frequência pessoas, e alguns profissionais, a afirmarem que os indivíduos em recuperação duradoura, são «ex drogados» ou «ex toxicodependentes». Quando não compreendemos determinados atitudes e comportamentos dos outros, a nossa tendência é para criticar, e em casos de ignorância, dizer mal. É necessário retirar os rótulos, desmistificar e corrigir certos paradigmas disfuncionais e profissionais desactualizados, revelarmos mais humildade e reconhecimento alheio, pensarmos «fora da caixa», a fim de compreendermos melhor quais são as competências e os recursos, que dotam estas pessoas fantásticas e resilientes perante o apelo (perpétuo) dos efeitos das drogas lícitas e/ou ilícitas. Eles e elas não estão imunes ou curados, porque a adicção não é um vírus, pelo contrário, investem na prevenção da recaída e consideram que a recuperação acrescenta significado e propósito ao rumo das suas vidas. Para todo o efeito, também são uma referência para a família, para comunidade e a sociedade, incluindo profissionais. Eles andam aí à espera que de serem chamados a participar no tratamento, na recuperação e na prevenção da recaída. Recuperar é que está a dar contra o estigma, a negação e a vergonha.


Philipe S. Hoffman, R.I.P. e as minhas condolências para a família.