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terça-feira, maio 28, 2024

A Perda, a Dor e o Luto

 



A perda de um ente querido ou a mudança “radical” de estilos de vida e a dor associada, são temas transversais à sociedade. Sabemos da existência de tradições, rituais, regras, atitudes e comportamentos que adotamos a fim de carpir a perda e a dor. Contudo, persistem mitos e tabus sobre a regulação das emoções e a dor. Por exemplo, existem indivíduos, nos períodos de perda e dor, buscam o alívio e o alheamento no consumo de substâncias psicoativas, vulgo drogas, incluindo o álcool e/ou adotam comportamentos repetitivos, geradores de dependência, cujo intuito é o alívio imediato.

A perda e a  dor são reações, indícios à perda de um ente querido ou mudança significativa na vida de uma pessoa (por exemplo, divórcio). Gostaria de referir que os indivíduos, homens e mulheres, dependentes de substâncias psicoativas, vulgo drogas, incluindo o álcool, assim como os comportamentos adictivos são afetados por este fenómeno, especialmente, quando iniciam o tratamento. Conheço centenas e centenas de pessoas que iniciaram o tratamento e nenhuma delas alguma vez pensou, apesar de terem consciência da existência de um problema grave, que mudar as atitudes e comportamentos (estilo de vida) fosse algo tão desafiante e exigente no compromisso, na confiança, na esperança, na motivação e persistência e na fé. Ao longo da progressão da adicção o individuo está exposto e vulnerável a situações de abuso emocional e/ou traumático (perda e dor)

Sentir a perda e a dor é condição para avançar na recuperação.

 O tratamento psicossocial e espiritual contempla a abordagem à MUDANÇA. Para recuperar é preciso que o individuo contemple o desafio de enfrentar-se a si próprio, à perda e à dor, à mudança de estilos/hábitos/comportamentos na sua vida, existe o passado e barreiras a serem destruídas e substituídas por pontes para o presente ( e o futuro). Tudo isto, na prática, representa um desafio enorme, uma motivação musculada, tempo para reflexão e introspeção. Tenho sido testemunha, a nível profissional, de indivíduos que se re-inventam e adquirem competências que jamais sabiam da sua existência. A grande maioria das pessoas que é admitido em tratamento, seja em regime de internamento ou ambulatório, encontra-se descrente, resistente, assustado porque houve tentativas anteriores que fracassaram e consequências negativas muito dolorosas, em si próprio, na família, incluindo as crianças, e na sociedade. Recordo um caso, o Carlos (nome fictício), 40 anos, adicto ao sexo de longa duração, chegou a tratamento em regime de internamento, acompanhado pelos pais e irmã. Foi efetuada a admissão do Carlos, entretanto a família despediu-se dele e foram embora do Centro de Tratamento. Nessa noite, os restantes pacientes que estavam em tratamento não conseguiram dormir, porque o Carlos, confrontado com a sua atual realidade, descompensou, a nível psicológico (ansiedade extrema, ataques de pânico, etc.) foi necessária uma intervenção médica para o acalmar. Foi possível acalma-lo no momento, mas as crises e a descompensação psicológica mantiveram-se durante várias semanas. A adaptação do Carlos a um novo estilo de vida foi muito dolorosa (mudança)

 

quinta-feira, maio 09, 2024

Escuta Ativa para Quebrar o Silêncio




Foto de Betina La Plante

Obrigada pela "persistência" da dica “Arte Bem Viver” que agora recebi e li.

Chorei, confesso.

Porque aprendi recentemente e constantemente luto para conseguir ser silêncio...

Passei por quase tudo, perdas, divórcio, doença crónica, acidentes, ameaças à integridade física e financeira, pessoas alegadamente amigas que não o eram, alienação parental, desilusão atrás de desilusão e riscos de perda de esperança, que felizmente inverto porque nasci a reclamar, mas a mirar o "copo meio cheio". Sou aquela que é “forte”, “supermulher”, se desenrasca e “adeus”, qual descartável humano, ou desnecessitada de qualquer ajuda por me encararem como lutadora que tudo ultrapassa sozinha.

Se me perguntam como estou nem posso dizer que bem, nem que mal, porque as respostas são desastrosas e nada empáticas, encolho então os ombros, sorrio e digo "um dia de cada vez". Hoje aprendi a sua expressão: se me perguntarem “como estás”, não direi o habitual, mas "faz - se por isso".

Um dos meus amigos ensinou-me sem querer, uma expressão que anotei, "sempre em frente" e "força". Nunca me disse "pensamento positivo" felizmente, pessoa sábia. Não suporto ou sequer admito tal expressão, viro costas com uma desculpa, se estão por bem.

Queira - se ou não, há um estigma brutal contra a doença, a incapacidade física ou limitação mental, por muito que se fale disso... Modas. Estigma contra os pobres, doentes, idosos, pessoas instituídas, desempregados. Sou direta. Não adocem pílulas com intenções ou falsa compreensão.

Os meus sonhos … não penso neles, são impossíveis. Sou demasiado lúcida, citando esta característica dita por alguém que muito considero há muitos anos, para acreditar na possibilidade real de sonhar...  Sou empática e seria bom para a minha saúde geral, mudar de profissão que tanto amo, para outra que igualmente ame. Ajudar os outros, porém não tenho habilitação específica para tal, nem condições para a adquirir, como com tantos outros sonhos que não me pagam as contas ou resolvem problemas. Sobra a reconversão, de difícil gestão.

quarta-feira, abril 24, 2024

Adicção fonte de mitos, tabus e segredos



É mito? Tabu? Negação? Ou a realidade diz-nos que as crianças também sofrem, em silêncio, com os comportamentos adictivos?

Vamos indagar e procurar compreender este fenómeno observado no contexto de tratamento (em regime de internamento ou regime de consultas ambulatórias) do comportamento adictivos, segundo os pais e seus familiares afirmam: “Os meus filhos não são afetados pela adicção.”

Há três décadas, com demasiada frequência, escuto pais adictos com filhos, e familiares, afirmarem, convictamente, que a dependência de substâncias psicoativas, vulgo drogas, incluindo o álcool e/ou comportamentos adictivos (jogo patológico, relações de dependência, adicção ao sexo, compras, furto nas lojas, adicções cruzadas/comorbilidade) não afetam as crianças. 1) são muito pequeninas, não têm o mesmo discernimento que os adultos ou 2) porque não sabendo do problema não sofrem as consequências.

Algumas afirmações mais comuns.

“Os meus filhos são crianças muito pequenas e não se apercebem do problema da minha dependência.”

“Como pai/mãe jamais faria alguma coisa que prejudique os meus filhos.”

“As crianças ainda não se aperceberam o que se passa lá em casa. Apesar das discussões com a família, não consumo drogas em casa.”

“Posso ter um problema de adicção, mas consigo separar da relação que tenho com os meus filhos, impedido assim que eles sejam prejudicados.”

“A minha dependência não é assim um problema tão grave…consigo controlar a situação.”

“Quando discuto com a minha/meu esposa/o sobre o tema é a dependência não há agressividade e antes levamos as crianças para os seus quartos. Não queremos que elas estejam presentes.”

Apesar de o ser humano, ignorar a evidência científica, este fenómeno, sobre a adicção não afeta as crianças, pode ser mais um caso a juntar a tantos outros?

Na sociedade atual, os exemplos sobre a descrença popular na investigação científica são numerosos e não é possível descreve-los a todos neste texto. Estes exemplos que irei expor são suficientes para constatarmos os factos. Sem mais delongas, vejamos vários casos do conhecimento geral. Segundo a investigação científica está comprovado que a obesidade representa risco de doença cardíaca, colesterol elevado, regimes alimentares altamente calóricos, hábitos sedentários, ausência de exercício físico e seguir uma alimentação saudável. Segundo a investigação científica está comprovado que a dependência do tabaco representa um sério risco de cancro nos pulmões. Segundo a investigação científica está comprovada que a exposição excessiva ao sol está associada a cancro da pele, no verão as praias estão repletas de pessoas, mesmo no período do dia em que a temperatura é mais elevada.

quarta-feira, abril 03, 2024

Passagem pela metamorfose para a liberdade de ser

 

Atualmente, sabemos que certos circuitos e estruturas neuronais estão associados à adicção, a dopamina (neurotransmissor) é uma caraterística biológica comum em todas as dependências e comportamentos adictivos.

Dopamina, neurotransmissor que despoleta o gatilho (desperta) do desejo, da vontade associado ao prazer/recompensa é o mesmo que influencia a distorção do pensamento e do autoengano.  A adicção é uma doença que consegue defraudar o individuo ( e família). Diz, “Não existe tal coisa…” ou “Existe doença, mas só os outros é que ficam doentes…” ou “Eu consigo controlar…” Existem uma longa lista de justificações e auto engano (falsas crenças, rotinas, rituais, tradições), que o individuo, consciente e/ou inconscientemente, fomentam a incapacidade de diálogo racional consigo próprio (mente para si mesmo, sem ter a noção que o raciocínio/lógica não corresponde aos fatos e realidade). Interessante, observar que este processo também é identificado nas dinâmicas familiares. Nestas situações, se o individuo fosse sujeito ao poligrafo (detetor de mentiras), as suas afirmações eram consideradas verdadeiras. No prazer, na recompensa, no alheamento proporcionado pela adicção, paralelamente, existe um custo, uma divida, “um castigo moral”, “uma sentença”, um estigma que pode levar anos a desaparecer da vida e da recuperação do individuo, assim como, da família.

Durante os anos 50 investigadores americanos conduziram uma experiência sobre os mecanismos neurobiológicos associados ao desejo e à motivação. Para surpresa dos investigadores, quando bloquearam a libertação de dopamina em ratos, estes perderam toda a vontade de viver. Passados uns dias os ratos deixaram de beber água e morreram de sede. Quando os investigadores inverteram o processo, os cérebros dos ratos foram inundados de dopamina, ficaram de tal modo desejosos e motivados que se deslocavam ao local onde obtinham a dopamina 80 vezes por hora. Será assim tão diferente nos humanos? O jogador médio de slot machines é capaz de acionar o dispositivo das máquinas barulhentas 600 vezes por hora. A dopamina é libertada não apenas quando se sente prazer, também é libertada quando se antecipa o prazer. Os indivíduos dependentes do jogo, do alcoolismo, drogas, co dependência, sexo apresentam picos elevados de dopamina antes de jogarem, beber bebidas alcoólicas, consumir drogas, ausência de limites na relação (caos/disfuncionalidade), ou desejo intenso/fantasias sobre o sexo. Esta antecipação do desejo e do alheamento é complexa e pode revelar-se extremamente poderosa na personalidade de alguns indivíduos, por exemplos, nos impulsos, nas funções cognitivas, certo e errado (valores morais universais), regular emoções.

quarta-feira, março 13, 2024

"É um problema de adicção e ponto final."


 

Boa tarde João.

Vi o seu artigo no blog: https://recuperardasdependencias.blogs.sapo.pt/70656.html

Achei muito interessante e agradeço. Tenho efetivamente um problema de vicio de compras, no meu caso de tecnologia / computadores, associado a quando estou em estado mais ansioso ou aborrecido com o meu trabalho (sou arquiteto, mas adoro desenhar livros para crianças e de tocar no meu sintetizador).

Ou simplesmente compro quando não tenho nada que fazer e aparece "aquele pensamento" de "o que poderia comprar agora para completar o meu setup?", por exemplo. Ou seja, não vale a pena dourar a pilula com justificações: é um problema de adição e ponto final.

Já fiz psicoterapia durante quase 1 ano, até ao ponto em que a minha psicóloga, depois de 1 ano de sessões em que me aconselhou diversas estratégias de comportamento / atividades que eu não seguia, me convidou educadamente a terminar as sessões, pois afinal eu não as estava a aproveitar e outras pessoas necessitavam também da assistência dela (eram financiadas pelo estado: gratuitas). Deixou, no entanto, a porta aberta se eu quisesse regressar. Não regressei mais. Fiquei triste e desiludido na altura, mas hoje vejo que ela teve toda a razão ao fazê-lo.

Mas o meu email tem a ver com estar neste preciso momento e por vontade própria, em fase de desmame de vários meses de compras seguidas. Ao todos foram 24 anos disto, com 2 divórcios pelo meio: mais do que suficiente.... Estou agora e há 5 anos numa relação estável, mas não tenho ilusões - se continuo a persistir no mesmo - a minha companheira vai-se embora tal como as outras fizeram. E aí irei ficar bem pior do que antes fiquei. E sozinho.

Portanto tenho a intenção de resolver de uma vez por todas este vício. De preferência sem medicação, apesar de ter Valium 2,5mg comigo que utilizo em SOS em caso de necessidade.

Mas claro, como em todos os desmames, estou em processo de ressaca, ou seja, a vontade de pesquisar este gadget ou outra coisa para comprar está cá sempre. Umas vezes mais forte outras menos forte.

Sem querer abusar da sua generosidade, o João poderia aconselhar-me por favor - para esta fase muito especifica - uma estratégia de comportamento para quando vêm estes pensamentos? Ou outra que entenda ser adequada neste momento?

Muito obrigado,

Marco António (nome fictício)

Importante: Todos os dados pessoais foram excluídos de forma a manter a confidencialidade.

 

My Shopping Addiction Is Out Of Control | Compulsive Shoppers | Our Stories

 

Comportamentos adictivos - compras, gastar dinheiro. 
  • Qual é o limite entre fazer compras, como algo inofensivo, proporciona sensações prazerosas, cuidar da imagem, estatuto, seguir tendências/modas, socializar e o comportamento compulsivo e repetitivo (craving/desejo intenso) cujas consequências é a perda total do controlo (impotência, agir no prazer imediato, sensação de alheamento, isolamento, ansiedade e depressão)?
  • Considera que perde o controlo do seu comportamento e comprar, gastar dinheiro? Peça ajuda e fale procure esclarecimento/informação. 

sexta-feira, fevereiro 02, 2024

Se nada muda, fica tudo na mesma com tendência para piorar




Cultura que bebe, abusa e encoraja o consumo do alcool, droga legal. Como profissional, trabalho há mais de 30 anos no tratamento das substâncias psicoativas, vulgo drogas considero que o alcool é a droga mais perigosa. Por exemplo, inicia-se o consumo na adolescência, depois os jovens adultos abusam do alcool, o agravamento dos padrões durante a fase adulta e terminam com problemas de abuso e dependência que se prolonga ao longo de 20 anos, 30 e 40 anos. Uma vida inteira expostos aos efeitos negativas na saude fisica e mental - contra o estigma, a vergonha e a negação. A esta dura realidade, acrescentamos os efeitos na familia ( incluindo as crianças), no trabalho, etc. Conheço casos de indivudos com 60 anos que parecem ter 80. Segundo o site do Sicad (2018) calcula-se que existam mais de meio milhão de alcoolicos cronicos em Portugal e segundo novos estudos morrem, em media, por dia, 20 pessoas cujas causas estão directamente relacionado com o alcool. O alcool é uma droga legal que gera imenso sofrimento às pessoas e pode matar.  Os líderes politicos conhecem esta realidade, não só pelo efeito negativo nas pessoas, mas os  custos para o estado são enormes. Todavia, existe tratamento para o abuso e dependência alcoolica, é possivel recuperar, não me refiro somente ao individuo, mas a toda a familia, incluindo as crianças.

quarta-feira, janeiro 31, 2024

Recuperação: Sou a Inês e sou uma adita.

 


Sou a Inês e sou uma adita. Sim hoje aceito que sou uma adita e que usei mascaras demasiado tempo vivendo uma vida dupla, e negando a minha adição.

Na verdade quando estava na minha adição ativa, tinha uma visão distorcida de mim mesma e da realidade á minha volta. Mas esse foi mesmo o objetivo inicial dos meus consumos, anestesiar a imagem que tinha sobre mim e todos os sentimentos associados a ela.

Hoje, estou limpa há mais de 4 anos e quando faço uma retrospetiva da minha vida, consigo identificar com muita facilidade a minha adição desde muito nova. As compulsões por obter prazer imediato estão bem presentes desde muito cedo, numa tentativa de controlar a intensidade das minhas emoções negativas e de calar a voz autodestrutiva que ecoava na minha cabeça que me dizia que eu não tinha nenhum valor, e que ninguém nunca podia gostar de mim. No fundo era a minha baixa autoestima e a minha falta de sentir pertença e a minha incapacidade de aceitar a vida como ela é. 

Mas na altura não o sabia, e encontrei no álcool e nas drogas um alívio temporário e ilusório para o meu problema. Era como se anestesiassem o que sentia sobre mim. Quando consumia, aquela voz que me destruía e me fazia sofrer intensamente parava de falar, e assim julguei que tinha encontrado o que precisava para não sofrer mais.

No entanto as consequências desta solução, a longo prazo foram devastadoras. Tanto quis fugir de mim que me perdi completamente, os consumos foram cada vez mais frequentes, os riscos corridos cada vez maiores, no peito a sensação de vazio crescia, escavando um buraco cada vez maior. Já não sabia quem eu era, e apos várias tentativas falhadas de parar de consumir sozinha, estava num círculo vicioso de autodestruição, achava que enganava os outros com as minha vida dupla e manipulação, mas enganava-me era a mim própria cada vez mais em cada moca e cada ressaca.

Aos 35 anos graças á ajuda da minha família, fui internada num tratamento para dependências, onde iniciei a minha recuperação que começou com a abstinência de substâncias num ambiente controlado, onde me confrontaram com as evidências do descontrole em que a minha vida se tinha tornado. Aí foi quando baixei os braços e aceitei a minha impotência perante as drogas e tomei a decisão de começar o processo de reconexão comigo mesma que graças ao meu poder superior, até hoje continuo a trilhar

Nas salas de Narcóticos Anónimos (1) encontrei exemplos, ouvi experiências de vida e para mim mais importante do que tudo, percebi que não estava sozinha e que havia ali pessoas que eram capazes de sentir as emoções mais negras e autodestrutivas, exatamente como eu. Independentemente de onde vinham, de quais as drogas que haviam consumido, quando falavam eu revia-me nas suas palavras, eu conseguia facilmente identificar em mim os mesmos sentimentos e os mesmos comportamentos. Pela primeira vez na vida senti que pertencia em algum lugar, senti o poder do que se costuma dizer nas salas “juntos conseguimos o que sozinhos nunca fomos capazes”. 

Desde o momento que entrei em recuperação iniciei um processo profundo de autoconhecimento e de transformação pessoal. Fui tirando camadas sobre mim mesma e mergulhando cada vez mais em quem eu sou e só por hoje continuo a querer este caminho. Só por hoje não me vou autossabotar nem ser desonesta com o que sinto.

Aprendi a gostar de mim a viver em paz com quem eu sou e que tenho tudo o que preciso no meu mundo interior. As feridas só saram quando as destapamos, não vão lá com pensos rápidos, como são o álcool e as drogas.

Uma coisa tenho a certeza estando limpa e serena, na minha vida, muito mais será revelado….

Deixo a sugestão de um livro que fez parte deste meu processo e que fala sobre a coragem de ser quem somos.

“Propósito” de Sri Prem Baba da editora pergaminho.

(1) Narcóticos Anónimos (NA) são grupos de ajuda mutua, em Portugal desde 1985 e existem reuniões no continente e ilhas. Existem reuniões de NA em praticamente em todo o mundo.

Comentário: Bem hajas Inês pela tua participação no Recuperar é que está a dar. O facto de seres uma mulher em recuperação, contraria o estigma e a vergonha oriundo da sociedade e o teu exemplo consegue mudar atitudes moralistas e preconceitos. Certamente, o teu texto será uma fonte inspiração e identificação a outras mulheres que procuram soluções para o seu sofrimento e perda do controlo, caracteristicas da adicção activa. Ao longo de 30 anos de experiência profissional, considero que as mulheres sofrem mais do que os homens as consequencias negativas da adicção. Desejo-te sucesso, paz e felicidade. Obrigado.


terça-feira, janeiro 30, 2024

A avaliação na prevenção da recaída (fatores de risco e fatores de proteção)




Capacidades e competências cognitivas e emocionais em recuperação.

Como podemos executar melhores, e mais eficientes, planos de prevenção de recaída dos comportamentos adictivos personalizados (cada caso é um caso), sabendo de antemão que estamos, como seres humanos, expostos à perda da capacidade de avaliação? Da perda do juízo, do discernimento, do bom senso e capacidade critica.

Nascemos e vivemos com esta característica enviesada, portanto em recuperação dos comportamentos adictivos este enviesamento está presente no caminho. Qual é a atitude que desenvolvemos no caminho de recuperação que construímos, gostamos, protegemos, queremos ver reconhecido e melhore a autoeficácia (olhar para nós mesmos como vencedores perante a adicção)? Acontece com um número significativo de indivíduos, há medida que avançam no caminho, pretendem que a recuperação seja duradoura, mas mais importante, revele a melhor versão deles próprios (presente). A recuperação dá trabalho, senão vejamos. Diante a mudança de atitudes e comportamentos (por exemplo, reestruturação cognitiva e literacia emocional) já não se utiliza o termo “Porquê”. Utiliza-se o termo “Como.” O individuo é o agente da mudança.

Vou tentar resumir o conceito de recuperação da adicção. Cada individuo, deverá ter o seu próprio conceito de recuperação. Não é um único evento, é um caminho abrangente e personalizado, abarca a abstinência de drogas lícitas e/ou ilícitas, incluindo o álcool, a sobriedade, crenças/convicções, relações especiais com pessoas significativas, planear e coordenar, identificar traumas e/ou comorbilidades e procurar ajuda, reestruturação cognitiva e literacia emocional (honestidade, compromisso, regular as emoções, assertividade, espiritualidade, promover um estilo de vida que contempla a saúde física e mental, a carreira profissional, hobbies, auto cuidado, fatores de risco e fatores de proteção da deslize/recaída, relações saudáveis e um caminho/rumo com sentido e propósito.

 O que significa avaliação? Quando procuramos a melhor resposta/abordagem é importante recorrermos à avaliação/discernimento/capacidade critica. Diante problemas, desafios e conflitos almejamos possuir capacidades e competências eficientes e resilientes que promovam a autoeficácia.

Porque é que o discernimento/bom senso/capacidade critica é tão importante nas decisões, planos, objetivos?

terça-feira, dezembro 05, 2023

Estou em recuperação


Eu, sou o António e sou Alcoólico.

Estou em recuperação há 23 anos. Neste momento posso dizer que o tempo passa depressa. Quando bebia, tudo me acontecia, havia uma poluição de vozes na minha cabeça,  era infernal.

Devo grande parte da minha recuperação à minha Mãe. Nunca deixou de acreditar em mim. Fazia parte das Familias Anónimas e soube como lidar comigo, principalmente nas nalturas certas.

Vou relatar 2 episódios no inicio de recuperação que me ajudaram muito a compreender o que é estar em recuperação. Aceitação da doença e como relacionar comigo próprio e com os outros de uma forma positiva e assertiva. Fiz 2 tratamentos num espaço de 1 ano. O primeiro 1999 e o segundo em 2000.

1º Episódio

Antes de 1999 fiz algumas reuniões de Alcoolicos Anónimos (AA) por sugestão da minha Mãe.

Fui a uma reunião e uma senhora mais velha partilhou a sua dificuldade em comprar uma tv para a filha que tinha sido muito importante na sua recuperação. No final da reunião em conversa com um companheiro de sala critiquei a Sra. Disse que não fazia sentido, era uma palhaçada, e isto não é alcoolismo.O companheiro da sala disse-me:

António, esta senhora tem vários anos de recuperação, já não tem vontade de beber, vontade essa que tú deves ter neste momento. Tú podes ajudar e em vez disso, estás a criticar.  Quando saires da reunião vais beber certamente. 

Dez minutos depois já estava a beber e foi a 1ª bofatada de luva branca que levei dos AA. Só mais tarde é que dei significado a este episódio. Identificação e interajuda contra a negação e a critica.

Em 1999 Após um acidente viação, conduzia completamente bêbado em que o carro foi para a sucata. Não compareci no julgamento e a policia compareceu na minha morada dias depois.

Aceitei ir para tratamento, não tinha alternativa. Mais uma vez foi a minha Mãe a funcionar nas alturas certas e a organizar a minha vida.

Iniciei o meu primeiro tratamento. Inicialmente não foi fácil. Aceitação do 1 Passo (Admitimos que eramos impotentes perante a nossa adicção e que tinhamos perdido o dominio da nossa vida) foi complicada, as confrontações, só queria sair e beber.  Fui ficando, comecei a envolver-me, fiz amizades, os conselheiros sempre impecáveis, mas não fui honesto.

Tinha terminado uma longa relação afectiva e guardei só para mim os  sentimentos e acontecimentos que tinha passado com a minha companheira.

Quando terminei o tratamento, iniciei uma nova vida, com reuniões AA e grupos dos Narcóticos Anónimos, tinha amigos, tinha um padrinho, uma vida profissional activa e recuperar a minha companheira era para mim a cereja no topo do bolo. Correu mal.... Recai e entrei de novo num processo destrutivo.

Senti muita vergonha por ter falhado, mentido, só queria estar de novo sozinho a beber e a ouvir novamente as vozes poluentes na minha cabeça. Bebe! Bebe! Só mais uma........

A minha Mãe voltou a ser fundamental para mim. Disse-me para pedir ajuda no centro tratamento. Sugeriram-me ir a uma reunião e partilhar a recaída.

2º Episódio

Fui a reunião dos AA, só queria ser o primeiro a partilhar e sair da sala, estava farto, não me sentia bem e queria beber. No final da partilha principal, um companheiro de sala antecipou-se e iniciou a partilha. Fiquei fulo, mas ouvi a partilha. Era um sr brasileiro, que passava horas na internet, nos blogs e isto em 2000, e contou o seguinte:

Um alcoólico foi parar a um centro tratamento e no fim do tratamento o pai dele financiou  abertura de uma empresa. Ele precisava de uma secretária e num anúncio que colocou apareceram 2 candidatas. Escolheu uma secretária bonita sem formação e vez de uma feia com formação.

A empresa corria bem e quando quando fez 1 ano de recuperação foi jantar com a secretária para festejar. Correu mal, envolveu-se com ela e começou a beber, recaiu.

Pergunta do Blog

Quando é que recaiu??

Quando escolheu a secretária bonita???

Quando fez 1 Ano de recuperação??

Quando ouvi esta partilha identifiquei-me tanto, fez-se luz! Quando é que eu recaí?

Quando omiti ou quando fui beber 10 meses depois.

Percebi que recuperação não é recuperar o que tinha perdido. Estar em recuperação é uma nova forma de viver a vida.

Fui novamente para um centro tratamento em que procurei lidar comigo próprio. Percebi que aceitar a minha doença, lidar com os meus problemas, pedir ajuda e ajudar os outros foi fundamental para entrar e manter em recuperação.

Os conselheiros que conheci ajudaram muito e agradeço toda colaboração e experiência de vida e paciência que tiveram comigo.

Hoje sou casado, tenho uma filha, adoro a minha familia. todos os dias, antes de ir para casa no final de um dia de trabalho passo por casa dos meus pais, já velhotes, para lhes dar um beijinho e saber como estão.

Tenho um padrinho há 24 anos que sei que posso contar sempre com ele. Um bom amigo.

Não tenho um hobbie. Gosto de cinema e ouvir música. Tenho um cão há 8 anos. Antes deste também tive outro. Todos os sábados e Domingos acordo cedo e vou para o parque da Bela Vista ou para Monsanto passear.

O Bugas vai solto e sempre à frente durante 1 hora. Eu sigo-o no meio dos meus pensamentos e muitas tomadas deciões foram aqui arquitectadas. São momentos meus. Dou muita importâcia e raramente falto.

Sugerir um livro – “Into the Wild”, existe também em Filme. Forte e pesado, um empurrão para tomadas de decisões.

Todos os dias rezo a oração da serenidade.

Obrigado João

Um abraço a todos

+24

António

Comentário: Obrigado António pela tua participação no Recuperar é que está a dar. Sucessos para a tua recuperação. Bem hajas

 

 

 

 

sábado, outubro 07, 2023

Dependência de Jogo Online e Offline


 Dependência/Adicção ao Jogo online e offline

A atividade relacionada com o Jogo, poderá transformar-se numa adicção/dependência, processo semelhante, por exemplo ao alcoolismo. Até recentemente, a dependência do Jogo (online e offline) era considerada tabu devido ao estigma e não existir informação pública sobre as causas, mecanismos e tratamento numa abordagem multidisciplinar. Quando surgem notícias, o Jogo está associado a casos de crime/polícia, aumentando exponencialmente o estigma. Aquilo que não compreendemos temos a tendência para ignorar e ao contrário do alcoolismo, na dependência do Jogo as pessoas não ingerem no seu organismo quaisquer drogas, apesar de alguns indivíduos adictos ao jogo, também abusarem de algumas drogas, referimo-nos por exemplo, a cocaína e ao álcool. Atualmente, apesar de o Jogo Online ter agravado o número de indivíduos dependentes, existe uma maior informação, compreensão sobre a natureza da doença, o conhecimento dos seus mecanismos e a implementação de medidas, junto de terapeutas, investigadores e decisores políticos a fim de desenvolverem abordagens eficazes na prevenção, na procura de tratamento e na recuperação.

Apesar de já estar disponível numa publicação antiga, neste blogue, vou apresentar mais uma vez as “Fases do Jogo Compulsivo, pelo Dr. Robert Custer.”

Fases do Jogo Compulsivo

Três fases distintas na progressão da adicção ao jogo pelo Dr. Robert Custer.

Primeira fase: Busca da euforia/acção – designada “sorte do principiante”, onde este perde e ganha nas suas sessões de jogo, perde algumas somas/poupanças significativas, faz empréstimos (ex. dinheiro emprestado a amigos ou familiares), todavia nesta fase ainda não sente o desconforto gerado pelos seus comportamentos.

 

Fase da procura da reposição do que gasta e perde. Nesta fase, surgem os danos significativos. Identificam-se as tentativas desesperadas de repor (reembolsar) as perdas, intensificam-se ainda mais as sessões de jogo (frequência e a duração). A autoestima deteriora-se e o sentimento de culpa intensifica-se. Esta fase pode prolongar-se por vários anos.

 

Fase de desespero, o indivíduo é totalmente obsessivo com o jogo. As perdas e o endividamento assumem dimensões significativas. Nesta fase, o indivíduo recorre a atividades ilegais como consequência da impulsividade. A família, a carreira profissional e a vida social ficam devastadas. Nesta fase, os jogadores adictos contemplam o suicídio e/ou a fuga (por exemplo: mudanças geográficas). Problemas com legais/justiça e, em última instância pedem ajuda para o seu comportamento problema.

Algumas atividades lícitas e/ou ilícitas associadas ao jogo: casinos, casinos online, apostas online, apostas desportivas, jogos de cartas, dados, lotarias e bingos. 

20 PERGUNTAS sobre o Jogo:

1. Você já perdeu horas de trabalho, convívio família ou da escola devido ao jogo?

 

2. Alguma vez o jogo já causou infelicidade na sua vida familiar?

 

3. O jogo afectou a sua reputação?

 

4. Você já sentiu remorso após jogar?

 

5. Alguma vez jogou para obter dinheiro para pagar dívidas ou então resolver dificuldades financeiras?

 

6. O jogo causou uma diminuição na sua ambição ou eficiência?

 

7. Após ter perdido você se sentiu como se necessitasse voltar o mais cedo possível e recuperar as suas perdas?

 

8. Após um ganho sentiu uma forte vontade de voltar e ganhar mais?

 

9. Você geralmente jogava até ao seu último cêntimo?

 

10. Você já pediu dinheiro emprestado para financiar o jogo?

 

11. Alguma vez vendeu alguma coisa para financiar o jogo?

 

12. Você já esteve relutante em usar o “dinheiro de jogo” para as despesas normais?

 

13. O jogo tornou-o descuidado com o seu bem-estar e o de sua família?

 

14. Alguma vez você já jogou por mais tempo do que planeava?

 

15. Alguma vez você já jogou para fugir de preocupações ou problemas?

 

16. Alguma vez você já cometeu, ou pensou em cometer um acto ilegal para financiar o jogo?

 

17. O jogo fez com que você tivesse dificuldades em dormir?

 

18. As discussões, desapontamentos ou frustrações fizeram com que você tivesse vontade de jogar?

 

19. Alguma vez você já teve vontade de celebrar alguma boa sorte com algumas horas de jogo?

 

20. Alguma vez você já pensou em provocar danos/magoar-se a si próprio como resultado de seu jogo?

 

Se 8 ou mais respostas positivas significa que tem adicção ao jogo.

 

Escala retirada dos “Jogadores Anónimos” e validada “cientificamente” como instrumento diagnóstico para definição de jogado compulsivo.

Se identificar um problema peça ajuda, antes que o problema tome conta da sua vida.

sexta-feira, setembro 15, 2023

Foi à primeira tentativa? Foi à segunda tentativa?


 "Em geral, nos EUA, 2 (duas) é o número médio de tentativas para tratamento de problemas sérios relacionados com o abuso de drogas e alcohol. Nos casos mais graves de dependência de drogas e alcohol o número de tentativas para tratamento aumentam para o dobro" Recovery Research Institute

E em Portugal? Não conhecendo números ou estimativas em investigações, consigo refletir sobre o assunto de acordo com a minha experiência empírica na area do tratamento das dependências durante três décadas. Há trinta anos atrás, a disponibilidade do tratamento era completamente diferente do que é na atualidade. Atualmente, apesar de o estigma se manter inalterável e imutável, a disponibilidade de tratamento da adicção a drogas e álcool, creio estar ao alcance de qualquer pessoa, devido às novas tecnologias. Sabemos que quando se coloca a questão da necessidade de tratamento das substâncias psicoativas (drogas lícitas, incluindo o álcool, e ilícitas) na família, recorrem ao Google para facilitar na seleção da instituição. Na minha opinião, o número de tentativas para tratamento das drogas e álcool em Portugal é semelhante à realidade dos EUA, segundo o Recovery Research Institute.

Felizmente, conheço imensos casos de pessoas que à primeira tentativa conseguiram permanecer abstinentes e em recuperação durante longos períodos de tempo. Infelizmente, conheço algumas famílias e indivíduos, que andam há mais de duas décadas a tentar resolver o problema da dependência das drogas e do álcool. Para terminar, considero mais difícil, isto é, necessário mais tentativas para tratamento do que as drogas, o álcool. O álcool é uma droga legal e a sociedade encoraja, estimula, promove o consumo e o abuso do alcool entre as pessoas - pertencemos a uma cultura que bebe. Atrevo-me a afirmar que em pleno seculo XXI ainda existem pessoas que não sabem que o álcool é capaz de gerar dependência. 

quarta-feira, setembro 13, 2023

Conflitos na comunicação


 Sabe o que significa a palavra Ressentimento? Segundo o Dicionário de Língua Portuguesa (6ª Edição) da Porto Editora, “Ato ou efeito de ressentir (sentir novamente) ou de ressentir-se; lembrança dolorosa de uma ofensa recebida; melindre; rancor.”

Se você identifica um ressentimento, isso é OK é normal. Na sua perspetiva, qual é o motivo pela qual ainda valoriza o ressentimento do passado? É um ressentimento de “estimação” ou considera-se uma vítima? Quais as consequências negativas do ressentimento? Derivado ao ressentimento, atualmente, como é que lida com os sentimentos? Considera que o ressentimento afeta, as pessoas significativas, à sua volta? Considera que o ressentimento afeta a comunicação com os outros? É agressivo/a? É passivo/a?

A comunicação desempenha um fator crucial na existência entre seres humanos cuja aprendizagem decorre ao longo da vida. É assim, desde há milhares de anos. Atualmente, a comunicação é alvo de estudo em instituições e pessoas, estuda-se a comunicação em organizações, comunidades, no trabalho, na família e no individuo em recuperação da adicção. 

Algumas dicas para a gestão de competências e conflitos na comunicação.

  • Assertividade é arriscar em ficar vulnerável e decidir com base na verdade.
  • Assertividade é utilizar critérios objetivos.
  • Assertividade é reciprocidade. Os seus pontos de vista são tão validos como os do outro.
  • Assertividade é fazer valer as suas competências e talento.
  • Assertividade é honestidade, escutar (refletir) e colocar-se nos “sapatos” do outro.
  • Assertividade é expressar os sentimentos e respeitar os sentimentos do outro.
  • Assertividade não é agressividade, passividade e ou manipulação.
  • Assertividade é definir limites nos relacionamentos.
  • Assertividade está associado ao desenvolvimento pessoal do indivíduo.
  • Assertividade é estar aberto à mudança e à adaptação da realidade.
  • Assertividade é escolher à vez, tirar à sorte e/ou deixar que a outra pessoa decida.
  • Assertividade é identificar o problema, em vez de atacar a pessoa.
  • Assertividade é centrar-se nas soluções em vez dos problemas (colocar barreiras à negociação/cedência).
  • Assertividade é conseguir antecipar os critérios, de ambas as partes, são legítimos realistas e específicos.
  • Assertividade é aprender a dizer não. Porque é que dizemos sim quando, na realidade, queremos dizer não?
  • Quais são os princípios associados à assertividade? De acordo com os princípios da assertividade, hoje quais foram as suas prioridades/limites?

Pode participar com ideias, comentários e partilhas. Bem haja

 

quinta-feira, agosto 10, 2023

A adicção ao sexo manifesta-se através da perda do controlo


 "Querida adicção, podes ter destruido o meu passado, no presente sinto dor, mas não permito que interfiras com o meu futuro."

Durante um período significativo o tema sexo está presente nas nossas vidas. É uma componente da intimidade, do romance, da sedução nas relações, vai para além da própria reprodução. Durante o acto sexual vale tudo, umas pessoas são mais conservadoras enquanto outras correm mais risco (aumentar o prazer sexual). O sexo é como a comida, existem imensos pratos de todo o tipo e ao gosto de cada um. No sexo vale tudo desde que seja consentido, respeitoso, com limites, prazeroso e proporcione intimidade a cada um dos parceiros. Na adicção ao sexo, seja praticado de que maneira for é sempre gerador de sofrimento, vergonha, desrespeito, falta de consenso, ansiedade, limites e em alguns casos, abuso. Na nossa sociedade, o tema sexo, ainda é conservador, machista e repleto de preconceitos e tabus.

Ao longo da minha experiência profissional algumas caraterísticas dos indivíduos adictos ao sexo (homens adictos de idades entre os 26 e os 45 anos) alguns são também dependentes de substâncias ilícitas e sexo compulsivo (masturbação, pornografia, sedução, jogos psicológicos – “caça à presa”, aumento do desejo intenso no envolvimento em relações românticas na busca do prazer imediato - paixão romântica e acting-out – “Será amor ou adicção”, alívio da tensão e ansiedade). Também já acompanhei indivíduos adictos ao sexo sem outra dependência. O sexo funciona como um “amortecedor” para gerar alívio da ansiedade (pressão), da obsessão e da frustração. É do conhecimento geral que o sexo é uma fonte natural de recompensa e prazer no ser humano. Para a recuperação, indivíduos dependentes e família o tratamento da adicto ao sexo representa sempre um grande desafio. Pelo estigma, pela vergonha e perda da motivação para a mudança. Um número significativo de homens, não considera a obsessão e a compulsão pelo sexo um problema, pelo contrário consideram-se “play boys” ou “garanhões”.  Existem vários tipos de adicções: 1) a substâncias psicoactivas do sistema nervoso central e 2) a comportamentos adictivos que exigem abordagens diferentes no tratamento – cada caso é um caso.

Existem indivíduos que apresentam uma predisposição (neuro.bio.psico.social) para o comportamento impulsivo, gratificação imediata, procura de sensações extremas através de comportamentos de risco/perigo em que o sexo é a componente principal, tal como acontece com outro tipo de comportamentos adictivos. Este tipo de comportamentos pode afectar e modificar o funcionamento do cérebro. Estes indivíduos estão vulneráveis e negligenciam a monitorização (estado de alerta) dos seus comportamentos de risco, por exemplo, definição de limites nos relacionamentos românticos e alguns indivíduos adictos ao sexo identificam dificuldades em distinguir a diferença entre o sexo saudável do sexo compulsivo. Gostaria também de acrescentar que existem indivíduos que apresentam comorbilidade (diagnósticos duplos e triplos). Refiro-me na dependência a drogas e álcool, jogo e sexo. Distúrbio alimentar, sexo e ansiedade extrema. Sexo, compras compulsivas e perturbações do humor. A maioria dos indivíduos adictos ao sexo são indivíduos perfeitamente integrados na sociedade, membros de família, trabalham ou possuem carreiras profissionais de êxito e ocupam lugares de poder.