Segundo Gagnepain, (1990) nas antípodas das patologias da inibição e do excesso de controlo, como as neuroses, encontra-se a toxicodependência, como uma patologia do agir e do excesso.
Cada toxicodependente tem uma experiência singular que pode, ser percebida através da escuta do paciente; e sobretudo do que ele provoca em nós, do que ele nos faz sentir e questionar. (Coimbra de Matos, 2002)
Já Chasseguet-Smirgel (2001) aponta um aspecto comum e determinante da personalidade dos toxicodependentes: estruturas muito dependentes.
Em 1971 Fenichel salienta que nos toxicodependentes as qualidades das primeiras relações de objecto são decisivas. A haver uma mãe mais ou menos adequada, dentro duma fase normal, todo o desenvolvimento se processa normalmente para ambos. No entanto se esta fase tem uma duração superior à necessária e se o desejo da mãe de continuar esta fusão persiste, assistimos a uma interacção persecutória e patogénica para o bebé. Nesta relação de dependência total, o bebé tende a submeter-se às expectativas que a mãe projecta sobre ele.
Ao mesmo tempo inicia-se o desenvolvimento na estrutura psíquica, da identidade sexual da criança. Assim sendo, cada um é objecto de gratificação do outro. Não obstante, a mobilidade do bebé, a sua inteligência, os seus impulsos afectivos, a par com a erogeneidade corporal, só podem desenvolver-se na medida em que a mãe investe positivamente todos estes aspectos. Mas ela, a mãe, também pode inibir este investimento narcísico tão essencial a estes elementos vitais para a estrutura somatopsíquica precoce do bebé, sobretudo se ele tem que cobrir as faltas do mundo interno da mãe. Tendo em conta as angústias, os medos e os desejos da mãe e uma vez projectados no bebé, ela corre o risco de provocar o que se pode conceptualizar como uma relação aditiva à sua presença. Ou seja podemos dizer que a mãe é que está e mantém dependente a criança. Daqui decorre o perigo potencial de a criança não chegar a construir o seu mundo interno, a representação de um bom objecto, ou mais tarde de um bom objecto paterno, capazes de conter e modificar os estados de sobreexcitação e de sofrimento psíquico. Faltar-lhe-á então a capacidade para se identificar com essa representação interna e por isso incapaz de aliviar por si mesmo os seus estados de tensão psíquica. (Fenichel, 1971).