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quinta-feira, agosto 16, 2012

A resiliência é espiritualidade em acção



Características da Resiliência *(tradução)
  • Locus de controlo interno
  • Auto estima elevada e sentido apurado de auto eficácia
  • Objectivos pessoais definidos e específicos
  • Propósito e sentido no rumo da Vida
  • Aproveitar experiência de sucesso do passado e converte nos desafios do presente
  • Canaliza a energia do stress para desafiar/reforçar as competências individuais e sociais
  • Utilização do humor, da paciência, da tolerância e otimismo
  • Capacidade de adaptação à mudança
  • Abordagem dos problemas orientada para a acção. Ex. Focado nas soluções em vez dos problemas
  • Relacionamentos significativos e capacidade em pedir ajuda.

·         Fonte: Connor, KM (2006) Assessment of Resilience in the Aftermath of Trauma. J. Clin. of Psychiatry

Comentário: O conceito de resiliência foi introduzido e explorado, há 50 anos, por duas psicólogas (Emmy Werner e Ruth Smith) especializadas no trabalho infantil, todavia só mais tarde a resiliência foi adotada aos comportamentos do ser humano, antes era um conceito utilizado na Física.
Apesar de a Resiliência, na psicologia, ser um termo recente e em estado embrionário, em Portugal, todavia, já é estudado em vários países, nomeadamente nos EUA, há mais de vinte anos. Por cá, estamos a dar os primeiros passos, tímidos.
Para todos os efeitos, a adicção é uma doença involuntária, primaria, cronica e progressiva, que afecta e compromete todas as áreas da vida do individuo (individual, saúde, familiar, profissional: desta forma o individuo, e aqueles com quem ele/ela se relacionam, estão sujeitos a situações traumáticas, e em alguns casos trágicas.  
Se você está em recuperação, identifica, em si, alguns dos itens acima apresentados? Alguns indivíduos conseguem permanecer longos períodos em abstinência/recuperação, nesse sentido, estou em crer, que apesar do trauma da adicção activa do seu passado, eles/elas respondem à dor, à ansiedade, à depressão, à vergonha toxica e ao isolamento de uma forma criativa geradora de um estilo de vida com qualidade; fazem o seu melhor possível perante cada desafio; adaptam-se e reinventam-se. Conheço algumas pessoas que passaram por infâncias traumáticas e abusivas, mais tarde, desenvolveram comportamentos adictivos, têm todos os motivos, de acordo com paradigmas da nossa sociedade, para serem marginais e indivíduos problemáticos, todavia, após terem recebido ajuda profissional e interrompido a progressão (compulsividade) da adicção activa, hoje são indivíduos perfeitamente integrados na sociedade, membros de família e dignos. Devemos aprender com eles e uns com os outros. A resiliência é espiritualidade, não religioso, sem dogmas e divindades, em acção.



quinta-feira, agosto 09, 2012

quinta-feira, julho 26, 2012

O dia-a-dia nas consultas, na busca da recuperação e da dignidade


Tratamento dos comportamentos adictivos. Importante: Todos os dados pessoais foram alterados de forma a manter o anonimato dos seus intervenientes.

 Consulta com Cristina (nome fictício. Dependência emocional), abordamos a questão da intimidade nos relacionamentos românticos. Paixão, no início de um relacionamento, pode não ser sinonimo de intimidade e de compromisso, ao invés, pode ser sinónimo de sofrimento. Para algumas pessoas, intimidade é sinonimo de medo – medo do desconhecido, medo da rejeição e do compromisso, medo da exposição, medo do falhanço, medo do medo. A intimidade numa relação é semelhante a um contrato, celebrado por duas pessoas, onde ambas as partes se comprometem a preservar, a partilhar e a colher os seus benefícios, salvaguardando o bem-estar da relação. A intimidade é fruto do compromisso e da honestidade, de ambos os parceiros, faz parte de um processo com propósito e sentido em conjunto com o parceiro/a.

Consulta com Álvaro (nome fictício. Alcoolismo) falamos sobre a diferença entre a realidade e a ilusão. Quando ficamos iludidos (negação), através do alcoolismo, só conseguimos enxergar a realidade (verdade) após sofrimento e consequências negativas. O alcoolismo afecta seriamente todas as áreas da vida do individuo. Qual é o limite para a negação do alcoolismo? Não tem... “É só mais uma bebida, amanhã não bebo mais!”

Consulta com Maria (nome fictício. Distúrbio alimentar) falamos sobre sentimentos e os comportamentos. Podemos confundir os sentimentos, com aquilo que realmente é o nosso caracter; é necessário desvincular os sentimentos dos comportamentos. Não somos aquilo que sentimentos, mas aquilo que fazemos com os pensamentos e com os sentimentos.

Nas consultas abordamos com frequência, a questão da vida e da morte. Alguns indivíduos estiveram "perto" da morte, como consequência do sofrimento da adicção ativa (doenças, tentativa de suicídio, problemas de saúde e/ou overdose, acidentes). Quando se está doente da adicção ativa, as regras para se sobreviver são diferentes da maioria dos mortais. Paradoxo, tanto o sofrimento como o isolamento, aparentam ser uma “companhia” do dia-a-dia, uma segurança, mas no lado oposto, da mesma moeda, são um motivo suficientemente forte para questionar a razão de estar vivo. Em recuperação, é possível atenuar a dor/sofrimento através da ajuda de outras pessoas de confiança.

Consulta com Hilário (nome fictício. Adicto ao Jogo) identificamos pensamentos e crenças que mantêm o individuo fechado e isolado (vergonha tóxica). A forma como se defende do sofrimento, por ex. da vergonha e do sentimento de culpa, é atuar com base no prazer imediato, acting out, que reforça o isolamento, a vergonha toxica e o sentimento de inadequação. É um círculo de pensamentos, sentimentos e comportamentos disfuncionais quem mantêm o problema do jogo e o sofrimento; jogar para evitar o confronto com a realidade e a mudança de paradigmas.

quinta-feira, julho 05, 2012

Pedidos de ajuda que quebram o estigma, a negação e a vergonha IV


Pequenos excertos de pedidos de ajuda recebidos por email, posteriormente, foi uma enviada resposta para a cada situação em particular.
Se você identificar com alguma situação e ou comportamento em concreto pode escrever um email e solicitar apoio.  
A publicação destes pequenos excertos tem como propósito quebrar o ciclo disfuncional associado ao estigma, à negação e à vergonha. Na sociedade atual, é cada vez mais frequente o aparecimento deste tipo de problemas, refiro-me, obviamente, aos comportamentos adictivos. Por vezes, a distancia, entre pessoas com problemas adictivos idênticos, pode ser uma porta, um prédio e/ou uma mesa do escritório. A ajuda surge quando o ciclo disfuncional do silêncio é  interrompido.  

Pedidos de ajuda que quebram o estigma, a negação e a vergonha. Todos os dados pessoais foram alterados de forma a manter a confidencialidade dos intervenientes.

"Chamo-me T. e a minha relação com o meu pai está, neste momento, está estagnada, já praticamente não falamos um com o outro. Optei por não responder a determinadas conversas (mas não sei se é a melhor opção). O meu pai foi ao medico, há uns dias, e foi-lhe diagnosticado  uma cirrose hepática, também por excesso de álcool. Sei que a minha mãe sempre foi infeliz. Acha que há alguma coisa que eu possa dizer/fazer que o vá ajudar? Sei que se as coisas não mudarem, não serei capaz de manter esta relação, sinto que estou sozinha. Preciso de ajuda, Obrigado."


"Chamo-me C. e o meu pai é alcoólico. Após algumas tentativas de desintoxicação, está novamente a beber. A minha mãe não consegue ajudá-lo e decidiu-se pela separação. Ele não acredita que ela concretize. Ela só quer que ele reconheça a necessidade de ajuda para uma nova tentativa de desintoxicação e uma vida sem álcool. Ele não aceita que está doente e mente convictamente dizendo que não bebe. Como o posso levar a perceber a sua doença?Ajude-me."


" Chamo-me M. e venho por este meio pedir ajuda em relação ao vício das drogas leves. Gostaria de saber o que preciso de fazer para me tratar. Sinto me doente e perdi a energia para fazer seja o que for. Consumo drogas leves há vinte anos, e cada vez mais, sinto que o meu corpo e mente, estão cada vez pior e quero mudar de estilo de vida. Tenho muito para viver e está a mexer em todos os níveis da minha vida. Obrigado"

"Bom dia, chamo-me L. e nunca imaginaria que tal coisa pudesse tomar proporções tão devastadoras e incapacitantes. Era eu, uma adolescente de 14 doloridos anos, perdida num mundo de inseguranças, medos irracionais e rejeições quando perdi toda e qualquer vontade de viver a vida, pois havia sido identificado a bulimia, que me consume todo o meu ser. Atualmente, os meus dias baseiam-se exclusivamente em comida, vómitos, exercícios, peso, dietas, calorias, pensamentos, balanças, dor, culpa, compulsividade. Preciso de uma orientação. Obrigado"


"Chamo me A e venho pedir ajuda, estou deprimida e não sei o que fazer à minha vida. Descobri no computador, no telemóvel e na conta bancaria do meu marido que ele é adicto ao sexo (pornografia, prostituição e outras coisas que tenho vergonha em falar). Estou casada há 25 anos e temos dois filhos maravilhosos. Ele apesar das evidências continua a negar. Estou desesperada, ajude-me, por favor."


Comentário: O silêncio disfuncional não o/a protege da doença da adicção, nesse sentido, peça ajuda. Tal como fizeram centenas de indivíduos e famílias resilientes que conseguiram alcançar a Recuperação e um novo modo de vida. Se identifica um problema, você não é o/a unica/o e não está sozinho/a.


sábado, junho 16, 2012

Controlar a adicção pode ser uma obsessão


Um dos temas mais controversos no tratamento da adicção, gira em torno do auto controlo e/ou a falta dele. Paradoxalmente, um número muito significativo de adictos (homens e mulheres) e as suas famílias, apresentam uma predileção especial pelo controlo.

Dependemos unicamente das nossas competências e recursos para realizar os nossos projetos e ambições, isso é sinonimo de auto controlo. Na prática, é-nos incutido de uma forma explícita, que precisamos de controlar os nossos pensamentos, sentimentos e comportamentos e também dependemos do autocontrolo, para viver, segundo as tradições, as regras e os rituais (paradigmas e estereótipos) da família e da sociedade em relação aquilo que está certo e aquilo que está errado; direitos e deveres.

Dependemos do auto controlo para sobreviver, custe o que custar, nesta batalha campal que é o dia-a-dia, feito de correrias, preocupações e stress.

O autocontrolo e o prazer imediato
O que é que o consumo de álcool, drogas ilícitas, a ingestão de alguns alimentos ou o contrario (restrição alimentar), relacionamentos de intimidade/paixão, o jogo, o sexo, as compras têm em comum? É a sensação de prazer imediato, intenso e de bem-estar que as pessoas sentem. Existem sensações de prazer imediato e intenso, para todo o tipo de gostos e preferências. Todavia, do ato normal e legitimo, curioso, inofensivo e saudável da busca de prazer até á dependência pode ir uma distância muito grande ou não.

segunda-feira, junho 04, 2012

Para quê? e para quem?



Caros leitores,
Não queria começar sem agradecer o convite feito pelo João Alexandre para escrever para os seus blogues. Obrigado!

Decidi escrever sobre este tema porque continuo a assistir a um fenómeno recente, a meu ver, pouco ético de lidar com o cliente/paciente e sua família. Em desespero, as pessoas estão prontas para fazer qualquer coisa, ou aceitar qualquer proposta para parar o sofrimento diário.

Porquê o anonimato? Se pegarmos numa curiosidade verificamos que nas dezenas de irmandades de 12 Passos existe sempre uma palavra que não muda. Então vejamos: Narcóticos Anónimos, Alcoólicos Anónimos, Cocaína Anónimos, Famílias Anonimas, Nicotina Anónimos, entre muitas outras. É fácil, é a palavra “Anónimos” está sempre presente porque é extremamente importante. Esta palavra está sempre presente para proteção. Mas para proteção de quem? Também é fácil. Para proteção dos membros dessas irmandades.

A importância do anonimato surge resultante da experiência acumulada, ao longo de varias décadas, por membros das mesmas irmandades. Sabe-se que a recuperação não é fato consumado, isto significa que a recuperação é construída e alicerçada, todos os dias, um dia de cada vez. Um individuo que hoje está em recuperação; amanhã pode não estar. Para além disso, a vida é uma maratona, e aquilo que hoje podemos considerar inofensivo não significa que não possa trazer consequências para nós ou para as nossas famílias, a medio e a longo prazo; capaz de gerar muitos momentos de dor e sofrimento.

segunda-feira, maio 28, 2012

Dica: Recuperação dos comportamentos adictivos



Recuperar da Adicção envolve sentimentos, nesse sentido, você precisa de reaprender novas competências e recursos de forma a identificar e a expressar os sentimentos (pensamentos-sentimentos-comportamentos). Ao contrário daquilo que possa sentir, não são os sentimentos que determinam que tipo de pessoa é; são as suas decisões, das quais você é o único responsável, para o bem ou para o mal. Não são os sentimentos de definem o caracter, mas o resultado das ações. Por exemplo, qual é o seu ídolo? Mestre? Mentor? Herói? O que é que você admira nessa pessoa? São os sentimentos privados dessa pessoa ou aquilo que ele/a é e faz? Na realidade, você não conhece essa pessoa na intimidade.  

 Durante a adicção ativa (circulo adictivo) recorre-se às substâncias psicoactivas lícitas, incluindo o álcool e os fármacos, e as ilícitas ou aos comportamentos adictivos (jogo, sexo, compras, furto, codependência e distúrbio alimentar) para “fugir/adormecer” os sentimentos dolorosos – dor e a compulsão é direcionada para a obtenção do prazer/gratificação. Os fins justificam os meios. “Só mais uma, desta vez vai ser diferente…”

Sentimentos Vs. Resultados
Em recuperação faça uma monitorização, a mais honesto possível, dos seus sentimentos, em particular da raiva. Esteja atento/a aos seus impulsos (hábitos e rotinas) aos seus pensamentos irracionais (padrões antigos de julgar as situações e as pessoas). Por exemplo; se você está irritado/a encara um conflito de uma maneira; se está confiante encara o conflito de maneira diferente. Não existe absolutamente problema nenhum, caso você sinta raiva, é humano haver conflitos entre pessoas, principalmente quando se sente frustrado, magoado, desiludido, enganado e/ou injustiçado. Todavia, como você sabe, a raiva é uma energia muito poderosa, que precisa de ser monitorizada e direcionada para algo construtivo. Por exemplo, quando você estiver em raiva (energia poderosa) precisa de pensar no tipo de decisões que pretende fazer e os resultados que pretende atingir, de forma a não cometer os mesmos erros à espera de resultados diferentes. 

Dois tipos de decisões:
A. Decisões relevantes que podem gerar resultados construtivos e positivos;
B. Decisões, menos relevantes, podem gerar resultados negativos e indesejados, capazes de gerar sentimento de culpa, vergonha e inadequação, impotência, mais raiva, auto piedade e isolamento social.
Aprenda a utilizar as situações dolorosas (sentimentos) como catalisador para o seu crescimento emocional/espiritual (não religioso, sem dogmas e/ou divindades), em vez de ser gerador de mais problemas. É através do sentimentos que conseguimos ser criativos, intuitivos e resilientes, porque permite-nos atribuir ao rumo da vida, o propósito e sentido que entendermos e que melhor se adapta às nossas próprias necessidades.
No processo de adaptação à adversidade e à mudança atribua à dor um novo e diferente significado: 1. Identifique os seus sentimentos, não seja demasiado crítico em relação aos sentimentos dos outros. 2. Não coloque rótulos/julgamentos por sentir raiva “Sou assim, porque o meu pai também era”. 3. Não seja demasiado rígido e/ou não tire conclusões precipitadas. 4. Tente interpretar os seus pensamentos (padrões antigos de julgar, de defesa, de reagir perante o perigo eminente – erros cognitivos) que desencadeiam os sentimentos dolorosos.

Faça esta pergunta a si mesmo quando estiver a sentir raiva. "Qual é a fonte desta raiva? O que é que pretendo fazer que seja relevante e construtivo em vez de destrutivo e gerador de culpa e vergonha?
Na vida as coisas têm a importância (atenção) que nós lhes damos. Na gestão construtiva da raiva o mais importante não é aquilo que sentimos; mas aquilo que fazemos (ações- comportamentos) com os sentimentos de forma a atingir os nossos objectivos.
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Caso não esteja a conseguir obter resultados que pretende peça ajuda. Envie um email para xx.joao@gmail.com



sábado, maio 19, 2012

Quando o amor não é suficiente


Veja os bastidores do filme "When love is not enough"que aborda a relação entre Bill W (Co-fundador dos Alcoólicos Anónimos) e a sua esposa Lois Wilson (Co-fundadora dos Al-Anon 2), com a participação do actor Barry Pepper "Bill W." e da actriz Winona Ryder "Lois Wilson".
O filme retrata a relação, entre marido e esposa, extremamente afectada pelos efeitos do alcoolismo, durante a "Grande depressão", no inicio dos anos 30, nos EUA.

Em 1999, a prestigiada revista - Time Magazine afirmou que Bill W. era considerado uma das 100 personagens do século.

Notas:
1. Tradução: "Quando o amor não é suficiente"
2. Al-Anon é a designação americana dos grupos de Ajuda-mutua que reunem as mulheres e familiares, dos indivíduos alcoólicos




quarta-feira, maio 09, 2012

O problema, por Dan Keding


O problema
"Era uma vez um lavrador. Embora trabalhasse noite e dia, nunca conseguia deixar de ser pobre. De cada vez que começava a sentir que estava a tirar o melhor partido de uma situação, tudo acabava sempre por falhar. Se num ano havia seca, no outro havia cheia. Se num ano os rebanhos adoeciam, no ano seguinte os lobos dizimavam-nos. Se num ano o preço do cereal descia, no ano seguinte o rei subia os impostos.
Certo dia, o lavrador estava sentado num tronco, cabisbaixo e desesperado. De repente, apareceu uma estranha e grotesca criatura a dançar, a cantar e a rir à volta do lavrador. Os pelos que lhe cobriam o corpo estavam emaranhados, os olhos selvagens faiscavam e tinha os dentes pretos. O cheiro que exalava quase fez o lavrador chorar.
— Quem és tu?
— Eu, bom homem, sou o teu problema. Só passei por aqui para ter a certeza de que eras o mais infeliz possível!
— Monstro! Então é por tua causa que nunca coisa alguma me corre bem?
— Pois é! Eu sou o teu azar, a tua desgraça. Sem mim, serias um homem com sorte.
Rápido como o vento, o pobre homem agarrou o seu problema pelo pescoço e amarrou-o com cordas fortes. Em seguida, abriu uma cova bem funda e atirou a sua desgraça lá para dentro. Tapou-a com pedras e regressou a casa.
No dia seguinte, a sorte começou a mudar. As ovelhas deram à luz gémeos, as vacas começaram a dar duas vezes mais leite, as culturas cresciam mais depressa e mais alto do que nunca, e as árvores estavam carregadas de frutos. Todos os comerciantes queriam comprar os seus produtos e toda a gente vinha adquirir os seus legumes, frutos e animais. Em poucas semanas, o homem, que fora tão pobre, estava rico.
O lavrador tinha um vizinho que habitualmente era bem-sucedido. Este homem rico sempre olhara com desdém para o lavrador e ridicularizara o seu trabalho. Agora via que o lavrador estava quase tão rico como ele e, ainda por cima, em tão pouco tempo. Um dia, não conseguiu aguentar mais a curiosidade e foi visitá-lo.
— Parabéns, vizinho, pela sua recente boa sorte. Devo dizer que estou admirado com a rapidez com que conseguiu fazer prosperar esta quinta. Qual é o segredo?
— É simples. Encontrei a raiz do meu infortúnio. O meu problema veio vangloriar-se da minha má-sorte e eu apanhei-o. Enfiei-o num buraco fundo, que cobri com pedras, um buraco que fica na minha pastagem. Essa é, sem dúvida, a razão pela qual finalmente tive sorte, depois destes anos todos de trabalho e fracasso.
O lavrador rico não gostou que o vizinho tivesse finalmente triunfado na vida. Naquela mesma noite, rastejou até ao buraco onde o problema do vizinho estava enterrado. Durante toda a noite levantou as pesadas pedras e cavou a terra até encontrar o problema. Desamarrou-o e pô-lo em liberdade.
— Muitíssimo obrigado — gritou o problema. — O senhor é um verdadeiro amigo.
— Agora — disse o homem rico — podes voltar a atormentar o teu antigo dono outra vez.
— Não, não, não! — Gritou o problema. — Aquele homem tratou-me muito mal e atirou-me para dentro deste buraco. Mas o senhor foi tão amável em libertar-me! Vai ser um amo muito melhor. Vou ficar consigo para sempre. Assim foi e assim devia ser."

  • Dan Keding, Stories of Hope and Spirit
  • Little Rock, August House Publishers, 2004, (Tradução e adaptação)


segunda-feira, maio 07, 2012

Pedidos de ajuda que quebram o estigma, a negação e a vergonha III


Pequenos excertos de pedidos de ajuda que recebo todos os dias por email, posteriormente foram enviadas respostas a cada situação em especial.
Se você identificar com alguma situação e ou comportamento em concreto pode escrever um email e solicitar apoio. A resposta será enviada o mais brevemente possível. Todos os dados pessoais foram alterados de forma a manter a confidencialidade.

A publicação destes pequenos excertos tem como propósito quebrar o ciclo disfuncional associado ao estigma, à negação e à vergonha. Na sociedade atual, é cada vez mais frequente o aparecimento deste tipo de problemas, refiro-me aos comportamentos adictivos. Por vezes, a distancia, entre pessoas com problemas adictivos idênticos, pode ser uma porta, um prédio e/ou uma mesa do escritório. A ajuda surge quando o ciclo disfuncional do silêncio é  interrompido. Peça ajuda. 

Pedidos de ajuda que quebram o estigma, a negação e a vergonha.

1. “Chamo me J. e gostaria de saber como gerir/ conduzir uma situação de consumo excessivo de álcool. A pessoa em questão não reconhece o consumo abusivo. Bebe praticamente todos os dias sozinho e em contexto não-social. Quando o faz, num contexto social, o consumo de bebidas alcoólicas tende sempre para o excesso. Estou preocupada e não sei como conduzir esta situação.”

2.“Chamo me A. e sou filho de mãe alcoólica e isso reflete se na minha vida sentimental. Os meus pais separaram se quando eu era criança, vivi com a minha avó até ao início da adolescência, depois fui viver com a minha mãe e aí então, foi realmente muito difícil. Sinto me inadequado e desconfiado nos relacionamentos de intimidade. Sou demasiado exigente comigo e com as outras pessoas, inclusive tenho a necessidade de controlar tudo e todos. Descobri o seu blogue e por isso  procurei a sua ajuda. “

segunda-feira, abril 30, 2012

A importância da defesa pessoal, segundo João Carvalho



A sociedade moderna, foi sendo educada a confiar a terceiros, competências essas, que em última instância serão nossas. Um bom exemplo disso será a educação dos nossos filhos, a gestão das nossas casas, a nossa saúde e também a nossa segurança.

Os governos manipulam as pessoas, mediante interesses financeiros e criam melhores ou piores condições de vida consoante as necessidades dos mercados, hoje em dia existe um novo tipo de escravatura. Escravatura, que será mais dissimulada, talvez até pelo adormecimento de grande parte da população, mas também porque as pessoas foram ensinadas a viver (fuga/evitamento) com medos. Alguns exemplos, medo da religião, medo dos governos, medo dos patrões, medo … medo e mais medo!

Provavelmente, são poucos, aqueles que conseguem viver realmente livres … livres de medos infundados, livres nas suas atitudes e livres, na sua forma geral, de viverem em plenitude este dom que temos que é a vida !
Basta recuarmos, alguns seculos, e as pessoas viviam em pequenos grupos, e era nesses grupos que estabeleciam regras para o funcionamento da comunidade. Plantavam em comum, viviam em comum e a defesa das suas aldeias era feita por todos. Completamente alheios, em grande número dos casos, a leis e regulamentações impostas por terceiros, escolhiam viver as suas próprias leis e tradições.

O que nós observamos, hoje em dia na nossa sociedade, são cidades sobrelotadas e onde, apesar de existirem tantas pessoas, os níveis de isolamento são cada vez maiores.
Não é de estranhar observarmos alguém ser assaltado em plena luz do dia e apesar de dezenas de pessoas assistirem ao assalto, nenhuma tem sequer iniciativa para tentar ajudar a vítima.

quarta-feira, abril 25, 2012

Pessoas Especiais (Mentores) Lewis Melvin Schulstad


Recentemente faleceu o Coronel Lewis Melvin (Mel) Schulstad ex piloto da United States Air Force (USAF). Pessoa ilustre, visionário e um pioneiro, e sem sombra de duvidas, um individuo determinado e dedicado à causa do tratamento e da recuperação da adicção às substâncias psicoactivas lícitas e/ou ilícitas. Dedicou uma parte significativa da sua vida a promover o reconhecimento da carreira/profissão do Addiction Counselor. Inclusivamente, em 1974, foi o co-fundador e antigo presidente National Association of Alcoholism Counselors and Trainers, que uns anos mais tarde, em 1976, se viria a tornar National Association of Alcoholismo Counselor, e finalmente em 1982, na actual National Association of Alcoholism and Drug Abuse Counselors (NAADAC), congénere da portuguesa Associação Nacional de Conselheiros em Abuso de Drogas e Alcoolismo (ANCADA).

Schulstad(Mel) permaneceu 46 anos em recuperação da adicção. Com frequência partilhava a sua história na recuperação e de esperança. Apos a sua reforma, manteve-se disponível para ajudar e apoiar os outros.

Foi o c-autor do livro, com James Millan,  “Under the Influence”, 1984 e autor do livro “Beyond the Influence”, 2000. Ambos os livros foram marcantes no tratamento (biologia da adicção) e na recuperação da adicção.

Data do nascimento: 09 de Março de 1918
Data da morte: 06 de Janeiro de 2012

Uma singela e profunda homenagem a este ser humano “especial”, um ícone, cujo contributo, para um mundo melhor, irá permanecer presente na memória de muitas pessoas, incluindo aqueles que estão em recuperação. Os meus pêsames à sua família.

Comentário: é urgente, novos recursos e competências, pessoas dedicadas, especializadas e instituições dedicadas, tanto a nível cientifico como empírico, no tratamento da doença da adicção às substancias psicoactivas licitas, incluindo o álcool, e/ou ilícitas. É imperativo aproximar a ciência (investigação) da prática (experiencia) e formar equipas multidisciplinares, de pessoas competentes, dedicadas e abnegadas com a causa. São necessárias reformas (quanto à metodologia, epidemiologia e etiologia) direcionadas à prevenção, ao tratamento e à recuperação, assim como um maior envolvimento da sociedade, cujo principal intuito é derrubar o estigma, a negação e a vergonha associado a esta doença. Aos indivíduos doentes, assim como às suas famílias, incluindo as crianças, é urgente devolver a dignidade que eles têm direito. Recuperar É Que Está A Dar

sábado, abril 21, 2012

14ª Dica Arte de Bem-Viver‏ de 26/06/2011 - Adiar a gratificação imediata



Olá
Adiar a gratificação imediata. O que é que isso significa?

É humano procurar a gratificação, a satisfação e o reconhecimento através das pessoas, lugares e coisas, é uma forma de recompensa, de aprovação e ou de agradecimento.
Todavia, na nossa sociedade, desenvolvemos o culto/habito pela competitividade e pelo consumismo na procura do caminho mais curto (atalho) e menos doloroso, neste sentido a gratificação/prazer imediata assume uma necessidade impreterível e disfuncional na gestão das emoções, gestão das prioridade, no critério da recompensa e gratificação individual. Se conseguirmos parar, por uns breves momentos, e reflectir sobre os nossos comportamentos, concluímos "Queremos as coisas já... ou de preferência para ontem."  Evocamos os princípios ( as palavras), mas procuramos satisfazer o nosso Ego (atitudes e comportamento). Aquilo que dizemos que somos; não é coerente com aquilo que fazemos. A nossa vontade, através dos impulsos reactivos e irreflectidos, na busca da gratificação imediata é suprema, como se a própria sobrevivência dependesse disso.

Adiar a gratificação imediata compromete o prazer imediato. Como? Primeiro, executamos as tarefas mais complexas que exigem auto sacrifício, disciplina, reflexão, criatividade, responsabilidade e determinação. É um processo de maturidade na gestão das competências cognitivas e sociais, dos impulsos, da dor e do prazer (balança emocional) nas coisas simples do dia-a-dia. Aprende-se a privilegiar (prioridades) os valores morais/éticos acima do prazer imediato, por ex. através da abnegação e o altruísmo Vs. egoísmo frenético e egocêntrico.

Se conseguirmos fazer uma gestão construtiva do desconforto emocional e da dor acabamos por aceitar esta condição, as prioridades, em primeiro lugar, ao invés de gerir a dor com um único proposito - preencher o vazio emocional (isolamento, solidão) com pessoas, lugares e coisas. 
Muitas vezes o que queremos (ter) não é o que precisamos (ser).

Votos de uma semana recheada de momentos de disciplina, honestidade, abnegação, reflexão, responsabilidade e determinação.

Cumprimentos

Nota: Esta Dica é um excerto do Retiro Espiritual Online (Programa Desenvolvimento Individual).


Comentário: Sabia que a Dica Arte de Bem-Viver começou com uma "brincadeira" para os amigos, em Abril de 2011? Passado um ano é enviada para mais de 300 pessoas, para vários países de expressão portuguesa (Portugal, Angola, Moçambique e Brasil) e para os Estados Unidos da América. Vai na sua 56ª publicação. Caso deseje receber a Dica basta enviar um email para joaoalexx@sapo.pt. No assunto da mensagem escreva: Dica Arte Bem-Viver. Todos os dados são confidenciais. É grátis

quarta-feira, abril 18, 2012

O que é que aconteceu à felicidade da mulher?




Recue uns 40 ou 50 anos e imagine-se, como mulher, a viver nos anos do Portugal do Estado Novo. Nesse passado não tão longínquo, as mulheres casadas não podiam ausentar-se do país sem autorização escrita do marido e as enfermeiras não podiam casar. A gestão dos bens do casal, incluindo da mulher, pertenciam ao marido e numerosas profissões estavam legalmente vedadas às mulheres.
Hoje os tempos são outros e, comparativamente, a situação da mulher melhorou muito, mesmo que ainda haja muito a fazer culturalmente. As mulheres são mais independentes, têm mais direitos e liberdades, formam-se em maior número nas universidades, distinguem-se em diversas profissões e ascendem a lugares de adminstração ou cargos politicos.
Com estas mudanças, teriamos, assim, muitos motivos para ter elevados índices de felicidade nas mulheres, mas paradoxalmente tal não acontece. Segundo alguns estudos* de referência, desde a década de 70 que o nível geral de felicidade da mulher nos EUA e na Europa, tende a cair e acentua-se à medida que a mulher avança na idade, contrariamente ao do homem. Em Portugal, as mulheres trabalham mais e dormem menos, as doenças associadas ao estilo de vida e ao stress, assim como o consumo de tabaco e anti-depressivos tendem a aumentar.

quinta-feira, abril 12, 2012

O problema não é o álcool, são as pessoas.


No seguimento das recentes  declarações Secretario de Estado Adjunto e da Saúde, nos meios de comunicação social, sobre a prevenção, direccionada aos jovens, afirmou,  tem “falhado tudo” considero relevante abordar a questão do álcool e as pessoas.

Nunca é demais, relembrar que a nossa cultura promove e incentiva o consumo/abuso de bebidas alcoólicas, em jovens menores de idade. Vejamos os resultados do estudo do Instituto da Droga e da Toxicodependência (IDT). De acordo com a referida notícia, no Jornal de Noticias, o estudo do IDT sobre o consumo de álcool, tabaco e drogas em meio escolar refere que os jovens portugueses começam a consumir álcool cada vez mais cedo, beber em maiores quantidades e a embriagarem-se mais vezes. Estes fenómeno, sobre os jovens beberem maiores quantidades e embriagarem-se mais vezes já motivo de investigação e medidas excecionais de prevenção, quer seja nos Estados Unidos da América (EUA) ou no Reino Unido há pelo menos dez anos ou mais, é designado de Binge Drinking (beber álcool cujo intuito é a intoxicação/embriaguez). Em Portugal, não existe Prevenção, por exemplo em relação ao binge drinking. Até há data da publicação deste post, ainda é permitido por lei, aos jovens menores de idade, consumirem/abusarem de bebidas alcoólicas com a conivência dos políticos, dos tribunais, da ordem dos médicos e dos advogados.

Segundo o mesmo estudo, efetuado pelo IDT, 37% dos alunos com 13 anos (menores de idade) já experimentou beber álcool, numero que sobe para 90,8% nos jovens com 18 anos. Depois destes dados, pergunto:

Na minha opinião pessoal, estes números são apenas a ponta do iceberg. Em algumas zonas remotas do país, tipo aldeias, não existe controlo sobre este fenómeno.

terça-feira, abril 03, 2012

Sabedoria popular actualizada



O conhecimento acumulado, ao longo de gerações, enriquecido pela experiência e que se mantém actualizado nos dias de hoje e mais além. Já diz o povo...


Alimento pro pensamento.



Ditados populares

"Mais homens se afogam num copo do que no mar."

“Ao bêbado e ao tolo, dá-se o caminho todo.”

“Porcos com frio e homens com vinho fazem grande ruído.”

"As bebidas fortes fazem os homens fracos."


segunda-feira, abril 02, 2012

Dica: Recuperação dos Comportamentos Adictivos


Dica: Recuperar da Adicção activa é um processo complexo e pode ser altamente dinâmico. Nesse sentido, se você é do sexo masculino sugiro o seguinte.
Invista na monitorização e comunicação das suas emoções com indivíduos do mesmo género. Estabeleça laços de intimidade, de honestidade, de empatia, de respeito com homens. Fale dos aspectos vulneráveis do seu carácter (as suas inseguranças, os seus receios).  Contrarie o preconceito e a tradição imposta na nossa sociedade de que o "Homem não chora." ou "Homem não revela as suas fraquezas e ou sentimentos" ou "Homem é duro"
Responda a esta simples questão:
Na sua opinião como é que define a sua masculinidade?

sábado, março 24, 2012

Recuperar da adicção ao jogo


Chamo me Rogério Lima, moro em Alagoinhas/BA, no Brasil, jogador compulsivo em recuperação há 270 dias, graças ao meu Poder Superior[i],  às minhas reuniões de ajuda mutuo, aos meus amigos e ao amor que sinto pela minha família.

 É com muita felicidade e gratidão que aprendi a viver um dia de cada vez, e tem dado certo. Sei o quanto preciso do meu ontem, para fazer julgamentos de minhas imperfeições. Tenho muitas ferramentas para fazer o meu hoje em abstinência, reformulando meus antigos comportamentos e acreditando positivamente que só eu posso, mas não posso sozinho. Quanto ao meu amanhã e seus resultados, somente meu Poder Superior poderá traçar este caminho.

Sei que tenho erros e acertos; tristezas e alegrias; desânimo e vitalidade; isso acontece porque sou humano e carrego um turbilhão de sentimentos. Hoje, vivendo o programa de doze passos, sei o quanto é importante identificar e trabalhar essa intensidade de emoções que passam por mim diariamente.

Compreendo que felicidade completa não existe, e também não teria graça. Preciso encher minha alma de aceitação e renuncia, parece contraditório, porém a vida é assim, viver o lado positivo e me manter invadido de fé e serenidade para os problemas que venham a acontecer.

Aprendi a acreditar no tempo de Deus[ii], durante esse 270 dias sem qualquer tipo de aposta, situações que imaginava demorar a acontecer, simplesmente aconteceram. Defino isso como entrega! Algo jamais praticado por mim.