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quinta-feira, junho 19, 2025

A Inteligência Artificial irá revelar-se uma mais valia.


 

A imagem foi gerada através IA.

Recuperar é que está a dar, texto original do chatbot Co Pilot (Inteligência Artificial - I.A.). A IA ao serviço da recuperação dos comportamentos adictivos.

"Recuperar o que fomos, o que sentimos, o que perdemos no caminho.
Recuperar a coragem de tentar de novo, o brilho nos olhos e a vontade de seguir.
Porque cair não é o fim - é só a pausa antes do impulso.
E hoje, mais do que nunca, recuperar não é só tendencia; é resistência, é renascimento.
É o novo "dar certo". Porque agora, dar é recuperar... e recuperar é viver." texto do CoPilot IA

Comentário do autor do blogue. É uma verdade inquestionável e incontornável, a Inteligência Artificial (IA) veio para ficar não só em Portugal, como no mundo inteiro. Fenômeno idêntico às redes sociais HI5, Facebook (2005) Twitter, LinkedIn, etc. É a globalização graças ao poder do www (internet). Segundo um relatório de uma expert Mary Meeker, segundo o Euro News, apelidada de "Rainha da Internet", o sobejamente conhecido e pioneiro chatbot da IA o CHATGPT, da Open AI, após o seu lançamento ao publico, em Outubro de 2022, alcançou o astronómico numero de 800 milhões de utilizadores, em Abril de 2025. A empresa vale 3.5 biliões (quantos zeros são??). Curiosidades!!
Sou um otimista, nesse sentido, antecipo avanços e benefícios na utilização da IA na Intervenção, Prevenção, Tratamento e Recuperação dos comportamentos adictivos. São as pessoas e seus familiares, "apanhadas" na rede da Adicção, que vão beneficiar. Por exemplo, novas ferramentas contra o estigma, muito presente na sociedade (há demasiado tempo), novas ferramentas na intervenção, diagnostico, plano de tratamento e recuperação. Atualmente, a Adicção está presente na vida das pessoas em áreas, que há 20 anos atras ninguém imaginava. Hoje existem mais casos de Adicção na população jovem, refiro-me à dependência das redes sociais, gadgets ( por exemplo, utilização excessiva de telemovel), gamming, acesso indevido a vários tipos de conteúdos inadequados para a idade, por exemplo, acesso à pornografia aos 10,12 13 anos.  Não haverá uma cura, mas a IA pode revelar-se uma mais valia na recuperação, por exemplo, através de aplicações, acesso a informação apropriada e atualizada, acesso a equipas de profissionais multidisciplinares e centros de tratamento em regime de internamento. Há 30 anos, de experiencia na prevenção e tratamento das dependências (Addiction Counselor), o termo Adicção (conceito de doença - Associação Americana da Medicina da Adicção) e Adicto na sociedade e profissionais da área eram desconhecidos completamente.  

segunda-feira, maio 12, 2025

Contra o estigma no tratamento da adicção


 

«Estamos duas vezes armados se lutarmos com fé» Platão

Platão, segundo relatos e escritos da altura nasceu entre 427/428 a. C., em Atenas. Foi um filosofo e matemático do período clássico da Grécia Antiga. Foi considerado a figura central na história do grego antigo e da filosofia ocidental, juntamente com o seu tutor Sócrates e seu pupilo Aristóteles. Platão ajudou a construir os alicerces da filosofia natural, da ciência e da filosofia ocidental e também tem sido frequentemente citado como um dos fundadores da religião ocidental, da ciência e da espiritualidade. (fonte Wikipédia).

Desde 1993, trabalho com indivíduos adultos com adicção (doença com fatores neuro-bio-psico-social), 1) a substâncias psicoativas geradoras de dependência, licitas (bebidas alcoólicas) ou ilícitas, e também trabalho com indivíduos com 2) adicção a comportamentos adictivos (exemplo, jogo patológico, ao sexo) e indivíduos que são adictos a 3) substancias psicoativas e ao mesmo tempo comportamentos aditivos e/ou perturbação mental (comorbilidade – diagnostico duplo  ou triplo). São várias centenas, talvez um milhar de indivíduos e nenhum deles, nem um, alguma vez mencionou o desejo de se tornar um adicto. De salientar as implicações, severidade, as consequências e sintomas da adicção – cada caso é único. Ficar doente é o resultado de um processo gradual, dinâmico e complexo. Também é verdade que ninguém fica adicto a substâncias psicoativas ou comportamentos de um dia para o outro. Contudo se alguém está preocupado com o seu comportamento impulsivo e repetitivo, seja com o consumo de drogas, incluindo o álcool, ou comportamentos, isso pode querer dizer que já tem um problema de adicção na sua vida, mas, mas isso não quer dizer que vá pedir ajuda, naquela altura, naquele momento, podem passar anos a fio até que a ajuda eficaz, direta ou indireta chegue.

Na sociedade, um dos fatores mais negativos relacionados com o tratamento da adicção é o estigma. Felizmente, comparativamente, com há trinta anos atras, hoje o estigma persiste e continua a fazer vítimas, mas aparenta estar mais “enfraquecido” devido aos avanços no tratamento, na informação dos meios sociais, no apoio psico social de várias instituições do estado e/ou privadas, no apoio de proximidade por parte dos profissionais e na informação disponível na internet. Convém realçar que apesar de evolução e dos avanços o estigma não desapareceu. Desde os seus primórdios, há milhares de anos atrás até à atualidade o estigma (as pessoas, as famílias e a sociedade) permanece ativo como uma doença, com marcas bem visíveis. Mudam-se os tempos, mas não se muda as vontades. Não são as pessoas de fracos recursos, os “alvos” prediletos, a adicção é um fenómeno transversal na sociedade, afeta “ricos”, pobres”, “pretos”, “brancos”, “mestiços” advogados ou mecânicos, etc.

Como é que se trata a doença da adicção, num contexto onde o estigma permanece ativo e a influenciar negativamente, pessoas, famílias, profissionais e instituições (sociedade)?

Como se combate o estigma que conduz ao isolamento, à doença (adicção) depressão, à separação, à vergonha e a negação?

Perante estas duas questões, iremos abordar o que é o estigma e como afeta pessoas, familiares, profissionais e instituições ligadas à prevenção, ao tratamento e á recuperação dos comportamentos adictivos-

O que é o estigma? Segundo o dicionário da Bertrand da Língua Portuguesa, entre os antigos gregos designava sinais corporais com os quais se procurava evidenciar alguma coisa de extraordinária ou de mau acerca do estatuto moral de quem os apresentava. Tratava-se de marcas corporais feitas com cortes ou com o fogo que identificavam de imediato um escravo ou um criminoso. Por exemplo o conceito atual é mais amplo, considera-se estigmatizante qualquer característica, não necessariamente física ou visível que não se coaduna com o quadro das expectativas sociais acerca de determinado individuo. Referencias: Erving Goffman

quinta-feira, fevereiro 13, 2025

Amor e desamor


 Foto Lumen IA

 

Amores e desamores

Mito. Afirma-se, com frequência que um dos requisitos para uma relação duradoura está relacionado com o individuo gostar de si próprio o suficiente, (e em primeiro lugar) e só assim consegue relacionar-se com o outro. O amor que temos por nós próprios (indivíduos) é diferente do amor que nutrimos pelo outro (relação romântica). Quando selecionamos determinada pessoa (especial) entra em jogo um conjunto de energias poderosas e em muitos casos incontroláveis, designadas de vinculação. A evolução humana revelou existir imensa vantagem para a sobrevivência uma coexistência entre indivíduos (vinculação de intimidade, de interesse, de confiança, proteção) a fim de se protegerem, preocuparem um com o outro/a (ele ou ela é parte de mim), aquilo que designamos de intimidade, pertença, coesão, vulnerabilidade, confiança, cumplicidade. Não sejamos naïfs, a evolução também contemplou (e continuamos o processo) com aqueles indivíduos que tinham outros interesses completamente antagónicos, refiro-me ao amor/intimidade.

«Aquilo que se faz por amor está sempre além do bem e do mal.» Friedrich Nietzsche

Mito relação romântica - «O amor vence tudo» Evocamos o amor para justificar algumas crenças, atitudes e comportamentos disfuncionais para o relacionamento romântico. Crescemos, com a ideia de que o amor vence tudo, nesse sentido, evocamos a ilusão para o amor vencer. Na prática não resulta, pode servir de justificação para o desamor.

Recuperação dos comportamentos adictivos de longa duração. Seres sociais. Falar sobre o amor, num contexto social entre família, com o/a filho/a, amigos, colegas de trabalho, numa reunião, com um estranho no comboio, etc, significa que estamos honestamente a partilhar ideias, conceitos, reflexões, expressar sentimentos que realmente importam, no que aos vínculos de intimidade e vulnerabilidade, diz respeito. Falar sobre o amor ou o desamor, honestamente, é falar da "cola" que permite ao amor expandir valores/princípios, criar sinergias, reforçar vínculos e raízes, largar a zona de conforto e explorar o universo imaterial do outro e vice-versa. Falar sobre o amor e a vulnerabilidade, não é conversa lamecha, é conversa de pessoas adultas e integras. Se não falarmos sobre o amor estaremos a privar de participar em áreas tão significativas como a liberdade, a vulnerabilidade, a confiança, a família, a espiritualidade. Conversar sobre o amor é explorar vinculações (sistemas) complexas, profundas na psique (individuo) e nas relações com os outros. Conversar sobre o amor deparamo-nos com mitos sobre o amor, a paixão (obsessão/sofrimento), efeito químico de sensações intensas e prazerosas associadas ao sexo. Confrontamo-nos com o dilema: é sexo/química ou amor? É paixão (obsessão) ou amor? Qual é a relação entre o amor e o sexo?  Durante um período da vida, precisamos do amor para desenvolver e prosperar, como de oxigénio para respirar. Esse período extremamente marcante desenrolou-se após o nascimento e durante a infância.

«Lutar pelo amor é bom, mas alcança-lo sem luta é melhor.» William Shakespeare, “Noite dos Reis”

Está em recuperação dos comportamentos adictivos? 

Sabia que a adicção pode estar associada ao sexo (sexo compulsivo)? Sabia que a adicção ativa, no individuo, interfere nas competências e capacidades para amar? Qual é a sua definição de amor? Considera que a sua definição de amor funciona? Já alguma vez foi “obrigado/a” a rever e a alterar algumas ideias, crenças sobre o amor? Considera que tem dúvidas em distinguir a paixão (obsessão) e o amor, isto é, na maior parte das vezes a paixão (obsessão) é sinónimo de relação de intimidade de curta duração (é humanamente impraticável estar demasiado tempo sob o efeito da obsessão/sofrimento)? Está numa relação duradoura e é feliz, se a resposta é sim, quais são os fatores que contribuem para manutenção e duração da relação?

quarta-feira, janeiro 29, 2025

Os Principios Básicos da Literacia Financeira para Pessoas com Comportamentos Adictivos, por Rita Piçarra



Uma Ferramenta Essencial para a Recuperação e Bem-Estar

A literacia financeira é a capacidade de entender e utilizar eficazmente diferentes habilidades financeiras, incluindo a gestão financeira pessoal, a elaboração de orçamentos e o investimento. Para pessoas que desenvolveram comportamentos adictivos, seja em recuperação ou não, a literacia financeira é uma ferramenta essencial para alcançar a estabilidade e o bem-estar. Vamos explorar alguns dos princípios básicos da literacia financeira e como podem ser aplicados na vida quotidiana.

1. Compreender a Importância de um Orçamento

Elaborar um orçamento é o primeiro passo para uma gestão financeira eficaz. Um orçamento ajuda a entender quanto dinheiro entra e sai todos os meses. Para pessoas em recuperação de comportamentos adictivos, um orçamento pode ser uma maneira de recuperar o controlo sobre as suas finanças, identificar gastos desnecessários e garantir que recursos sejam alocados para necessidades fundamentais como habitação, alimentação e tratamento. Além disso, um orçamento bem planeado pode ajudar a estabelecer limites claros para os gastos supérfluos, permitindo que as pessoas em recuperação evitem tentações financeiras que possam comprometer a sua estabilidade.

Para criar um orçamento eficaz, comece por listar todas as fontes de rendimento, incluindo salários, benefícios sociais e outras formas de rendimento. Em seguida, liste todas as despesas fixas e variáveis, como renda, serviços públicos, alimentação, transporte e despesas médicas. Subtraia as despesas totais do rendimento total para determinar se há um saldo positivo ou negativo. Utilize este saldo para ajustar o orçamento, cortando despesas desnecessárias ou encontrando formas de aumentar o rendimento.

2. Gerir Dívidas

A dívida pode ser um dos maiores obstáculos para a recuperação financeira. É crucial entender os tipos de dívida (como cartões de crédito, empréstimos pessoais, etc.) e desenvolver um plano para pagá-las. Priorizar o pagamento de dívidas com taxas de juro mais altas pode ajudar a reduzir o fardo financeiro mais rapidamente. Manter um diálogo aberto com credores e procurar aconselhamento financeiro pode ser essencial para gerir de forma eficaz as dívidas existentes. Além disso, é importante evitar contrair novas dívidas desnecessárias durante o processo de recuperação.

Para gerir eficazmente as dívidas, comece por fazer uma lista de todas as suas dívidas, incluindo o montante devido, a taxa de juro e o prazo de pagamento. Em seguida, elabore um plano de pagamento que priorize as dívidas com as taxas de juro mais altas, enquanto continua a fazer pagamentos mínimos nas outras dívidas. Considere também a possibilidade de consolidar as dívidas em um único empréstimo com uma taxa de juro mais baixa, se isso for viável.

3. Poupança e Fundo de Emergência

Ter uma poupança é um objetivo fundamental para a estabilidade financeira. Criar um fundo de emergência pode proporcionar uma rede de segurança em momentos de crise, evitando que se acumulem mais dívidas. Mesmo pequenas contribuições regulares podem crescer com o tempo e fornecer um colchão financeiro necessário. Para pessoas em recuperação de comportamentos adictivos, um fundo de emergência pode ser particularmente importante, pois oferece uma sensação de segurança e estabilidade durante períodos de incerteza.

Para começar a poupar, defina uma meta de poupança realista com base nas suas circunstâncias financeiras. Automatize as transferências para a poupança sempre que possível, para garantir que uma parte do seu rendimento seja reservada regularmente. Além disso, procure oportunidades para reduzir gastos e direcionar as economias para o fundo de emergência. Lembre-se de que cada pequena contribuição é valiosa e que a consistência é a chave para construir uma poupança sólida ao longo do tempo.

sexta-feira, dezembro 06, 2024

Motivação para a Mudança - sentimento raiva

 

 


A violência é um comportamento irracional humano complexo e transversal na sociedade. Em cada um de nós, existe um potencial significativo de raiva, hostilidade, agressividade. Ao longo de mais três décadas de experiência profissional observei/observo esse comportamento irracional (cérebro – mecanismo fight ou fly) em pessoas que jamais pensávamos assistir. Indivíduos, homens e mulheres de “ar doce” tornarem-se agressivos. Há muito que decorre um debate científico inflamado sobre o comportamento violento; é resultado de fatores psicológicos, sociais ou biológicos. Investigação atual indica que violência resulta, de facto, de uma combinação dos três.

No tratamento dos comportamentos adictivos o sentimento de raiva e o ressentimento (gestão de conflitos e gestão da raiva) assumem destaque no plano de tratamento do individuo, quando existem evidências de passividade/agressão verbal, física ou emocional, quer seja durante a adicção ou também ao longo da vida.  Alguns indivíduos com comportamentos agressivos/passivos desenvolveram mecanismos psicológicos de forma ocultar, reprimir e a negar a raiva e o ressentimento incapacitando os a ser honestos consigo próprios e com os outros, consciente ou inconscientemente. Estes mecanismos servem, principalmente, para culpar os outros afastando-os de qualquer responsabilidade, alimentar egos (preconceitos sociais) direcionar o foco da raiva, das doses elevadas de adrenalina e cortisol a fim de reforçar a crença distorcida de que é preciso estar alerta porque o mundo não é um lugar seguro.

As pessoas agressivas/passivas costumam ter reações irracionais despoletadas, por “gatilhos”, devido a sentimentos de injustiça reais ou cenários imaginários e repisam/ruminam os pensamentos incessantemente, assim como, ficam frequentemente emperradas em certas ideias fixas distorcidas ou comportamentos impulsivos. Também costumam interpretar as situações, com um grau de critica excessiva reagindo impulsivamente. Existem indivíduos com longo historial de problemas com agressividade e o abuso de drogas e álcool, jogo patológico, problemas com figuras de autoridade, passividade, incapacidade de aceitar críticas, relações tóxicas, violência doméstica, problemas com a justiça, indivíduos institucionalizados (exemplo, cadeia, estabelecimentos de apoio a crianças), trauma, comportamentos antissociais, ruminar ideias (vingança), problemas familiares disfuncionais, problemas de impulsividade no local de trabalho (colegas, direção, chefia, questões de género, etc.)  depressão e ansiedade. Evitando estereótipos, os homens e a agressividade está associada a comportamentos físicos, irracionalidade, ameaça ao estatuto (macho) e impulsivos (adrenalina, cortisol). Enquanto nas mulheres a agressividade é reprimida e manifestada de uma forma mais impercetível e indireta, por exemplo, evitam o confronto direto, partilham com os seus pares (boatos), criam ligações e argumentos que servem para ruminar (ideias de vingança). Todavia, existem homens e mulheres agressivos e impulsivos.

domingo, julho 28, 2024

Contra o estigma, a negação e a vergonha


Contra o estigma, a negação e a vergonha. Em pleno seculo XXI, estas três palavras poderosas, possuem um efeito nocivo e têm um  impacto devastador na sociedade, são como uma pandemia. A sociedade somos todos nós. O fenómeno é transversal, no dia a dia, afectam pessoas, familias e instituições no tratamento e recuperação dos comportamentos adictivos, através de preconceitos, tabus, segredos, recaídas, solidão e crenças retrogadas profundamente enraízadas no individuo. O meu trabalho, contra o estigma, a negação e a vergonhar é diagnosticar, informar, educar, acreditar, emponderar e ser um aliado na transformação de juizos, crenças, atitudes e comportamentos no individuo, na familia e na sociedade. Apesar dos efeitos adversos, é possivel recuperar dos comportamentos adictivos e adoptar um novo e saudavel estilo de vida. Existe a esperança.

quarta-feira, abril 03, 2024

Passagem pela metamorfose para a liberdade de ser

 

Atualmente, sabemos que certos circuitos e estruturas neuronais estão associados à adicção, a dopamina (neurotransmissor) é uma caraterística biológica comum em todas as dependências e comportamentos adictivos.

Dopamina, neurotransmissor que despoleta o gatilho (desperta) do desejo, da vontade associado ao prazer/recompensa é o mesmo que influencia a distorção do pensamento e do autoengano.  A adicção é uma doença que consegue defraudar o individuo ( e família). Diz, “Não existe tal coisa…” ou “Existe doença, mas só os outros é que ficam doentes…” ou “Eu consigo controlar…” Existem uma longa lista de justificações e auto engano (falsas crenças, rotinas, rituais, tradições), que o individuo, consciente e/ou inconscientemente, fomentam a incapacidade de diálogo racional consigo próprio (mente para si mesmo, sem ter a noção que o raciocínio/lógica não corresponde aos fatos e realidade). Interessante, observar que este processo também é identificado nas dinâmicas familiares. Nestas situações, se o individuo fosse sujeito ao poligrafo (detetor de mentiras), as suas afirmações eram consideradas verdadeiras. No prazer, na recompensa, no alheamento proporcionado pela adicção, paralelamente, existe um custo, uma divida, “um castigo moral”, “uma sentença”, um estigma que pode levar anos a desaparecer da vida e da recuperação do individuo, assim como, da família.

Durante os anos 50 investigadores americanos conduziram uma experiência sobre os mecanismos neurobiológicos associados ao desejo e à motivação. Para surpresa dos investigadores, quando bloquearam a libertação de dopamina em ratos, estes perderam toda a vontade de viver. Passados uns dias os ratos deixaram de beber água e morreram de sede. Quando os investigadores inverteram o processo, os cérebros dos ratos foram inundados de dopamina, ficaram de tal modo desejosos e motivados que se deslocavam ao local onde obtinham a dopamina 80 vezes por hora. Será assim tão diferente nos humanos? O jogador médio de slot machines é capaz de acionar o dispositivo das máquinas barulhentas 600 vezes por hora. A dopamina é libertada não apenas quando se sente prazer, também é libertada quando se antecipa o prazer. Os indivíduos dependentes do jogo, do alcoolismo, drogas, co dependência, sexo apresentam picos elevados de dopamina antes de jogarem, beber bebidas alcoólicas, consumir drogas, ausência de limites na relação (caos/disfuncionalidade), ou desejo intenso/fantasias sobre o sexo. Esta antecipação do desejo e do alheamento é complexa e pode revelar-se extremamente poderosa na personalidade de alguns indivíduos, por exemplos, nos impulsos, nas funções cognitivas, certo e errado (valores morais universais), regular emoções.

terça-feira, janeiro 30, 2024

A avaliação na prevenção da recaída (fatores de risco e fatores de proteção)




Capacidades e competências cognitivas e emocionais em recuperação.

Como podemos executar melhores, e mais eficientes, planos de prevenção de recaída dos comportamentos adictivos personalizados (cada caso é um caso), sabendo de antemão que estamos, como seres humanos, expostos à perda da capacidade de avaliação? Da perda do juízo, do discernimento, do bom senso e capacidade critica.

Nascemos e vivemos com esta característica enviesada, portanto em recuperação dos comportamentos adictivos este enviesamento está presente no caminho. Qual é a atitude que desenvolvemos no caminho de recuperação que construímos, gostamos, protegemos, queremos ver reconhecido e melhore a autoeficácia (olhar para nós mesmos como vencedores perante a adicção)? Acontece com um número significativo de indivíduos, há medida que avançam no caminho, pretendem que a recuperação seja duradoura, mas mais importante, revele a melhor versão deles próprios (presente). A recuperação dá trabalho, senão vejamos. Diante a mudança de atitudes e comportamentos (por exemplo, reestruturação cognitiva e literacia emocional) já não se utiliza o termo “Porquê”. Utiliza-se o termo “Como.” O individuo é o agente da mudança.

Vou tentar resumir o conceito de recuperação da adicção. Cada individuo, deverá ter o seu próprio conceito de recuperação. Não é um único evento, é um caminho abrangente e personalizado, abarca a abstinência de drogas lícitas e/ou ilícitas, incluindo o álcool, a sobriedade, crenças/convicções, relações especiais com pessoas significativas, planear e coordenar, identificar traumas e/ou comorbilidades e procurar ajuda, reestruturação cognitiva e literacia emocional (honestidade, compromisso, regular as emoções, assertividade, espiritualidade, promover um estilo de vida que contempla a saúde física e mental, a carreira profissional, hobbies, auto cuidado, fatores de risco e fatores de proteção da deslize/recaída, relações saudáveis e um caminho/rumo com sentido e propósito.

 O que significa avaliação? Quando procuramos a melhor resposta/abordagem é importante recorrermos à avaliação/discernimento/capacidade critica. Diante problemas, desafios e conflitos almejamos possuir capacidades e competências eficientes e resilientes que promovam a autoeficácia.

Porque é que o discernimento/bom senso/capacidade critica é tão importante nas decisões, planos, objetivos?

terça-feira, dezembro 05, 2023

Estou em recuperação


Eu, sou o António e sou Alcoólico.

Estou em recuperação há 23 anos. Neste momento posso dizer que o tempo passa depressa. Quando bebia, tudo me acontecia, havia uma poluição de vozes na minha cabeça,  era infernal.

Devo grande parte da minha recuperação à minha Mãe. Nunca deixou de acreditar em mim. Fazia parte das Familias Anónimas e soube como lidar comigo, principalmente nas nalturas certas.

Vou relatar 2 episódios no inicio de recuperação que me ajudaram muito a compreender o que é estar em recuperação. Aceitação da doença e como relacionar comigo próprio e com os outros de uma forma positiva e assertiva. Fiz 2 tratamentos num espaço de 1 ano. O primeiro 1999 e o segundo em 2000.

1º Episódio

Antes de 1999 fiz algumas reuniões de Alcoolicos Anónimos (AA) por sugestão da minha Mãe.

Fui a uma reunião e uma senhora mais velha partilhou a sua dificuldade em comprar uma tv para a filha que tinha sido muito importante na sua recuperação. No final da reunião em conversa com um companheiro de sala critiquei a Sra. Disse que não fazia sentido, era uma palhaçada, e isto não é alcoolismo.O companheiro da sala disse-me:

António, esta senhora tem vários anos de recuperação, já não tem vontade de beber, vontade essa que tú deves ter neste momento. Tú podes ajudar e em vez disso, estás a criticar.  Quando saires da reunião vais beber certamente. 

Dez minutos depois já estava a beber e foi a 1ª bofatada de luva branca que levei dos AA. Só mais tarde é que dei significado a este episódio. Identificação e interajuda contra a negação e a critica.

Em 1999 Após um acidente viação, conduzia completamente bêbado em que o carro foi para a sucata. Não compareci no julgamento e a policia compareceu na minha morada dias depois.

Aceitei ir para tratamento, não tinha alternativa. Mais uma vez foi a minha Mãe a funcionar nas alturas certas e a organizar a minha vida.

Iniciei o meu primeiro tratamento. Inicialmente não foi fácil. Aceitação do 1 Passo (Admitimos que eramos impotentes perante a nossa adicção e que tinhamos perdido o dominio da nossa vida) foi complicada, as confrontações, só queria sair e beber.  Fui ficando, comecei a envolver-me, fiz amizades, os conselheiros sempre impecáveis, mas não fui honesto.

Tinha terminado uma longa relação afectiva e guardei só para mim os  sentimentos e acontecimentos que tinha passado com a minha companheira.

Quando terminei o tratamento, iniciei uma nova vida, com reuniões AA e grupos dos Narcóticos Anónimos, tinha amigos, tinha um padrinho, uma vida profissional activa e recuperar a minha companheira era para mim a cereja no topo do bolo. Correu mal.... Recai e entrei de novo num processo destrutivo.

Senti muita vergonha por ter falhado, mentido, só queria estar de novo sozinho a beber e a ouvir novamente as vozes poluentes na minha cabeça. Bebe! Bebe! Só mais uma........

A minha Mãe voltou a ser fundamental para mim. Disse-me para pedir ajuda no centro tratamento. Sugeriram-me ir a uma reunião e partilhar a recaída.

2º Episódio

Fui a reunião dos AA, só queria ser o primeiro a partilhar e sair da sala, estava farto, não me sentia bem e queria beber. No final da partilha principal, um companheiro de sala antecipou-se e iniciou a partilha. Fiquei fulo, mas ouvi a partilha. Era um sr brasileiro, que passava horas na internet, nos blogs e isto em 2000, e contou o seguinte:

Um alcoólico foi parar a um centro tratamento e no fim do tratamento o pai dele financiou  abertura de uma empresa. Ele precisava de uma secretária e num anúncio que colocou apareceram 2 candidatas. Escolheu uma secretária bonita sem formação e vez de uma feia com formação.

A empresa corria bem e quando quando fez 1 ano de recuperação foi jantar com a secretária para festejar. Correu mal, envolveu-se com ela e começou a beber, recaiu.

Pergunta do Blog

Quando é que recaiu??

Quando escolheu a secretária bonita???

Quando fez 1 Ano de recuperação??

Quando ouvi esta partilha identifiquei-me tanto, fez-se luz! Quando é que eu recaí?

Quando omiti ou quando fui beber 10 meses depois.

Percebi que recuperação não é recuperar o que tinha perdido. Estar em recuperação é uma nova forma de viver a vida.

Fui novamente para um centro tratamento em que procurei lidar comigo próprio. Percebi que aceitar a minha doença, lidar com os meus problemas, pedir ajuda e ajudar os outros foi fundamental para entrar e manter em recuperação.

Os conselheiros que conheci ajudaram muito e agradeço toda colaboração e experiência de vida e paciência que tiveram comigo.

Hoje sou casado, tenho uma filha, adoro a minha familia. todos os dias, antes de ir para casa no final de um dia de trabalho passo por casa dos meus pais, já velhotes, para lhes dar um beijinho e saber como estão.

Tenho um padrinho há 24 anos que sei que posso contar sempre com ele. Um bom amigo.

Não tenho um hobbie. Gosto de cinema e ouvir música. Tenho um cão há 8 anos. Antes deste também tive outro. Todos os sábados e Domingos acordo cedo e vou para o parque da Bela Vista ou para Monsanto passear.

O Bugas vai solto e sempre à frente durante 1 hora. Eu sigo-o no meio dos meus pensamentos e muitas tomadas deciões foram aqui arquitectadas. São momentos meus. Dou muita importâcia e raramente falto.

Sugerir um livro – “Into the Wild”, existe também em Filme. Forte e pesado, um empurrão para tomadas de decisões.

Todos os dias rezo a oração da serenidade.

Obrigado João

Um abraço a todos

+24

António

Comentário: Obrigado António pela tua participação no Recuperar é que está a dar. Sucessos para a tua recuperação. Bem hajas

 

 

 

 

sábado, outubro 07, 2023

Dependência de Jogo Online e Offline


 Dependência/Adicção ao Jogo online e offline

A atividade relacionada com o Jogo, poderá transformar-se numa adicção/dependência, processo semelhante, por exemplo ao alcoolismo. Até recentemente, a dependência do Jogo (online e offline) era considerada tabu devido ao estigma e não existir informação pública sobre as causas, mecanismos e tratamento numa abordagem multidisciplinar. Quando surgem notícias, o Jogo está associado a casos de crime/polícia, aumentando exponencialmente o estigma. Aquilo que não compreendemos temos a tendência para ignorar e ao contrário do alcoolismo, na dependência do Jogo as pessoas não ingerem no seu organismo quaisquer drogas, apesar de alguns indivíduos adictos ao jogo, também abusarem de algumas drogas, referimo-nos por exemplo, a cocaína e ao álcool. Atualmente, apesar de o Jogo Online ter agravado o número de indivíduos dependentes, existe uma maior informação, compreensão sobre a natureza da doença, o conhecimento dos seus mecanismos e a implementação de medidas, junto de terapeutas, investigadores e decisores políticos a fim de desenvolverem abordagens eficazes na prevenção, na procura de tratamento e na recuperação.

Apesar de já estar disponível numa publicação antiga, neste blogue, vou apresentar mais uma vez as “Fases do Jogo Compulsivo, pelo Dr. Robert Custer.”

Fases do Jogo Compulsivo

Três fases distintas na progressão da adicção ao jogo pelo Dr. Robert Custer.

Primeira fase: Busca da euforia/acção – designada “sorte do principiante”, onde este perde e ganha nas suas sessões de jogo, perde algumas somas/poupanças significativas, faz empréstimos (ex. dinheiro emprestado a amigos ou familiares), todavia nesta fase ainda não sente o desconforto gerado pelos seus comportamentos.

 

Fase da procura da reposição do que gasta e perde. Nesta fase, surgem os danos significativos. Identificam-se as tentativas desesperadas de repor (reembolsar) as perdas, intensificam-se ainda mais as sessões de jogo (frequência e a duração). A autoestima deteriora-se e o sentimento de culpa intensifica-se. Esta fase pode prolongar-se por vários anos.

 

Fase de desespero, o indivíduo é totalmente obsessivo com o jogo. As perdas e o endividamento assumem dimensões significativas. Nesta fase, o indivíduo recorre a atividades ilegais como consequência da impulsividade. A família, a carreira profissional e a vida social ficam devastadas. Nesta fase, os jogadores adictos contemplam o suicídio e/ou a fuga (por exemplo: mudanças geográficas). Problemas com legais/justiça e, em última instância pedem ajuda para o seu comportamento problema.

Algumas atividades lícitas e/ou ilícitas associadas ao jogo: casinos, casinos online, apostas online, apostas desportivas, jogos de cartas, dados, lotarias e bingos. 

20 PERGUNTAS sobre o Jogo:

1. Você já perdeu horas de trabalho, convívio família ou da escola devido ao jogo?

 

2. Alguma vez o jogo já causou infelicidade na sua vida familiar?

 

3. O jogo afectou a sua reputação?

 

4. Você já sentiu remorso após jogar?

 

5. Alguma vez jogou para obter dinheiro para pagar dívidas ou então resolver dificuldades financeiras?

 

6. O jogo causou uma diminuição na sua ambição ou eficiência?

 

7. Após ter perdido você se sentiu como se necessitasse voltar o mais cedo possível e recuperar as suas perdas?

 

8. Após um ganho sentiu uma forte vontade de voltar e ganhar mais?

 

9. Você geralmente jogava até ao seu último cêntimo?

 

10. Você já pediu dinheiro emprestado para financiar o jogo?

 

11. Alguma vez vendeu alguma coisa para financiar o jogo?

 

12. Você já esteve relutante em usar o “dinheiro de jogo” para as despesas normais?

 

13. O jogo tornou-o descuidado com o seu bem-estar e o de sua família?

 

14. Alguma vez você já jogou por mais tempo do que planeava?

 

15. Alguma vez você já jogou para fugir de preocupações ou problemas?

 

16. Alguma vez você já cometeu, ou pensou em cometer um acto ilegal para financiar o jogo?

 

17. O jogo fez com que você tivesse dificuldades em dormir?

 

18. As discussões, desapontamentos ou frustrações fizeram com que você tivesse vontade de jogar?

 

19. Alguma vez você já teve vontade de celebrar alguma boa sorte com algumas horas de jogo?

 

20. Alguma vez você já pensou em provocar danos/magoar-se a si próprio como resultado de seu jogo?

 

Se 8 ou mais respostas positivas significa que tem adicção ao jogo.

 

Escala retirada dos “Jogadores Anónimos” e validada “cientificamente” como instrumento diagnóstico para definição de jogado compulsivo.

Se identificar um problema peça ajuda, antes que o problema tome conta da sua vida.

quarta-feira, setembro 13, 2023

Conflitos na comunicação


 Sabe o que significa a palavra Ressentimento? Segundo o Dicionário de Língua Portuguesa (6ª Edição) da Porto Editora, “Ato ou efeito de ressentir (sentir novamente) ou de ressentir-se; lembrança dolorosa de uma ofensa recebida; melindre; rancor.”

Se você identifica um ressentimento, isso é OK é normal. Na sua perspetiva, qual é o motivo pela qual ainda valoriza o ressentimento do passado? É um ressentimento de “estimação” ou considera-se uma vítima? Quais as consequências negativas do ressentimento? Derivado ao ressentimento, atualmente, como é que lida com os sentimentos? Considera que o ressentimento afeta, as pessoas significativas, à sua volta? Considera que o ressentimento afeta a comunicação com os outros? É agressivo/a? É passivo/a?

A comunicação desempenha um fator crucial na existência entre seres humanos cuja aprendizagem decorre ao longo da vida. É assim, desde há milhares de anos. Atualmente, a comunicação é alvo de estudo em instituições e pessoas, estuda-se a comunicação em organizações, comunidades, no trabalho, na família e no individuo em recuperação da adicção. 

Algumas dicas para a gestão de competências e conflitos na comunicação.

  • Assertividade é arriscar em ficar vulnerável e decidir com base na verdade.
  • Assertividade é utilizar critérios objetivos.
  • Assertividade é reciprocidade. Os seus pontos de vista são tão validos como os do outro.
  • Assertividade é fazer valer as suas competências e talento.
  • Assertividade é honestidade, escutar (refletir) e colocar-se nos “sapatos” do outro.
  • Assertividade é expressar os sentimentos e respeitar os sentimentos do outro.
  • Assertividade não é agressividade, passividade e ou manipulação.
  • Assertividade é definir limites nos relacionamentos.
  • Assertividade está associado ao desenvolvimento pessoal do indivíduo.
  • Assertividade é estar aberto à mudança e à adaptação da realidade.
  • Assertividade é escolher à vez, tirar à sorte e/ou deixar que a outra pessoa decida.
  • Assertividade é identificar o problema, em vez de atacar a pessoa.
  • Assertividade é centrar-se nas soluções em vez dos problemas (colocar barreiras à negociação/cedência).
  • Assertividade é conseguir antecipar os critérios, de ambas as partes, são legítimos realistas e específicos.
  • Assertividade é aprender a dizer não. Porque é que dizemos sim quando, na realidade, queremos dizer não?
  • Quais são os princípios associados à assertividade? De acordo com os princípios da assertividade, hoje quais foram as suas prioridades/limites?

Pode participar com ideias, comentários e partilhas. Bem haja

 

sexta-feira, abril 26, 2019

130ª Dica Arte Bem Viver - Mudança de comportamentos




Olá,
Dê as boas vindas à mudança, mas antes pense no seguinte. Olhe à sua volta, preste atenção e irá constatar que pessoas e coisas à sua volta estão em mudança. O próprio universo, desde as mais pequenas partículas às mais de 500 biliões de galáxias, incluindo o planeta Terra, tudo está em movimento.  Todavia, este princípio, nos seres humanos é diferente, não se aplica à forma como nos comportamos e sentimos, mesmo naquelas situações que colocam em causa, e/ou em perigo, a nossa felicidade e até a nossa saúde. Nós resistimos à mudança; essa é a nossa opção.

Segundo alguns estudos, o nosso cérebro é extremamente eficiente em nos recordar sobre as mais diversas maneiras como reagimos a determinados acontecimentos. Da mesma forma, o cérebro é igualmente eficiente em nos fornecer sugestões para as mais diversas situações. Isto é, perante determinadas acontecimentos e/ou situações reagimos de acordo com determinados padrões armazenados, que consideramos mais proveitosos. Este tipo de padrão revela-se útil, quando precisamos de tomar as devidas precauções, por exemplo, como evitar uma longa fila de trânsito, na auto-estrada, escolhendo uma estrada secundária com menos trânsito? Mas o mesmo padrão pode revelar-se prejudicial, quando sugere que façamos resistência à mudança, por exemplo, a algumas rotinas ou hábitos prejudiciais ou perigosos.

quarta-feira, janeiro 24, 2018

Abecedário da Recuperação dos Comportamentos Adictivos




  • Comportamentos Adictivos 2018
Abecedário da Recuperação. As palavras são poderosas e mudam as pessoas.
Abraços
Brindar
Convicções
Despertar
Espiritualidade
Felicidade
Genuinidade
Historia
Identidade
Justiça
Limites nas relações
Meditação
Nós
Objetivos
Poder superior, conforme cada um o concebe
Qualidade
Resiliência
Sentimentos
Tolerância
União
Voluntariado
Zelo


  • Caso você pretenda acrescentar algumas das suas palavras, ao ABC da recuperação envie email para xx.joao@gmail.com com as palavras ABC da recuperação no assunto da mensagem. Bem haja

quinta-feira, janeiro 11, 2018

São necessarios mais consensos do que divergências contra o estigma, a negação e a vergonha


Ao longo do meu trajeto profissional, desde 1993, escuto utentes motivados para recuperar (mudar) dos comportamentos adictivos, apesar da impotência e da perda do controlo, consequência da adicção (dependência de drogas lícitas ou ilícitas, incluindo o álcool, jogo patológico, sexo compulsivo, perturbação do comportamento alimentar, dependência emocional, videojogos, Internet) que colocam questões, com toda a legitimidade, sobre o tipo de tratamento mais adequado. É perfeitamente legitimo terem duvidas e/ou questões, todavia, as repostas não são de acordo com as suas expectativas e naturalmente, possuem a predisposição para ficarem resistentes ou ambivalentes. Quem é que gosta de mudar de atitudes e comportamentos? O ser humano foge da mudança. 

Ao contrario do que acontecia há vinte anos atrás, atualmente existe imensa informação, mas os mitos e tabus teimam em persistir sobre a adicção, ao longo dos anos, atribui-se a causa do comportamento adictivo ao stress, ao esposo/a, “às companhias”, problema de infância, período atribulado (separação/divorcio, desemprego, doença), trauma, conflitos familiares. Quando pensamos na causa e no tratamento da adicção, tudo isso, representa apenas uma parte do problema. Os próprios investigadores e terapeutas seniores não encontram um consenso sobre esta matéria. 

Na realidade, quando pretendemos tratar indivíduos doentes da adicção somos conduzidos para um universo muito mais complexo; refiro-me aos fatores neurológicos, biológicos, psicológicos e sociais. Atualmente, graças aos avanços tecnológicos (ressonância magnética) é possível compreender as implicações da adicção no cérebro – modelo de doença (estrutura cerebral responsável pela motivação, memoria, atenção/controlo e recompensa/prazer). Paralelamente, aos avanços tecnológicos, no plano das teorias do comportamento sabemos graças ao Project Match, estudo patrocinado pela National Institute on Alcohol Abuse and Alcoholism (Treatment Research Branch), nos EUA (desde 1989 a 1994) a seleção/eleição de três modelos comprovados no tratamento: 1 Entrevista Motivacional 2 Terapia Cognitiva Comportamental e 3. Twelve Step Facilitation (oriunda dos 12 Passos dos Alcoólicos Anónimos), mesmo assim e apesar dos esforços, dos avanços e/ou teorias ainda não existem comprimidos, receitas, profissionais ou abordagens terapêuticas milagrosas que funcionem para todos da mesma maneira, vulgo cura. Talvez esta seja uma das razões para a existência teimosa dos tabus e mitos. Cada caso é um caso e o utente é que faz o trabalho em recuperar da adicção, nesse sentido, como profissionais, precisamos de saber como compreender, apoiar e orientar.  Anteriormente, como profissionais, pensávamos que a inadequação do utente diante a teoria/modelo de tratamento era devido à sua negação – “Ainda não bateu no fundo…ainda tem que sofrer mais.”. Atualmente, pensamos que a inadequação, vulgo “negação” do utente pode estar no modelo que apresentamos, porque os utentes, embora impotentes, continuam a querer mudar o comportamento problema/adicção. Recordo alguns casos, de utentes que acompanhei, em “negação”, mais tarde encontrei-os com vidas saudáveis; segundo eles, recorreram a outros profissionais ou instituições e outros conseguiram faze-lo sozinhos, certamente acompanhados por familiares. Estes encontros serviam para questionar, refletir e pensar na minha abordagem sobre a motivação e a mudança de comportamentos adictivos; estes encontros foram verdadeiras lições transformadoras.

quarta-feira, agosto 30, 2017

O poder da escolha pessoal



  • «Estou cansado de chorar,
  • Estou cansado de gritar,
  • Estou cansado de estar triste,
  • Estou cansado de fazer de fingir,
  • Estou cansado de estar só,
  • Estou cansado de estar zangado,
  • Estou cansado de sentir que estou louco,
  • Estou cansado de sentir que estou preso,
  • Estou cansado de sentir que preciso de ajuda,
  • Estou cansado de saber o que tenho que fazer,
  • Estou cansado de perder oportunidades,
  • Estou cansado de sentir que sou diferente,
  • Estou cansado de perder pessoas,
  • Estou cansado de sentir que não tenho valor,
  • Estou cansado de sentir um vazio dentro de mim,
  • Estou cansado de sentir que não consigo libertar-me,
  • Estou cansado de pensar que gostava de voltar atrás e começar tudo outra vez,
  • Estou cansado com a vida, que gostava, mas que nunca irei ter,
  • Acima de tudo, estou cansado de estar cansado.» Autor anónimo

Este texto reflete um rol de problemas na vida do individuo. Reflete a frustração, a desilusão, o remorso e a ausência de esperança. Reflete a impotência, característica daqueles que sofrem sintomas (físicos e psicológicos) da adicção activa, seja a substâncias psicoactivas do sistema nervoso central, vulgo drogas lícitas e/ou ilíctas, seja a comportamentos adictivos (jogo, compras, sexo, dependência emocional, internet/redes sociais, perturbação do comportamento alimentar). A impotência, incapacidade do individuo em controlar a adicção, é por si só uma fonte inesgotável de dor e sofrimento.

quarta-feira, março 16, 2016

Recuperar é auto conhecimento



Em 2015 o Professor David Best e colegas da Universidade de Sheffield Hallam, Inglaterra, em parceria com a Action on Addiction conduziram o primeiro questionário sobre a recuperação da adicção - dependência de substâncias psicoativas do Sistema Nervoso Central, vulgo drogas, lícitas e/ou ilícitas. Os participantes no estudo incluíam indivíduos do sexo masculino (53%) e indivíduos do sexo feminino (47%) que atualmente residem em Inglaterra. 74% dos participantes, dependentes de outras drogas, afirmaram estar também em recuperação do alcoolismo. O questionário abrangente contemplou varias áreas da vida dos indivíduos:
  • Relacionamentos, educação, emprego
  • Saúde e bem-estar
  • Tipos de adicção
  • Recuperação (duração, abstinência)
  • Envolvimento em tratamento e/ou participação em grupos de ajuda mutua
  • Área financeira
  • Família e vida social
  • Justiça/questões legais

- De acordo com os resultados do questionário os indivíduos afirmaram ter um historial de dependência de substâncias psicoativas (adicção) de 20.4 anos. De salientar que os indivíduos dependentes de álcool apresentaram uma tendência para serem admitidos, em tratamento (receber apoio profissional - meia idade, 40 e os 65 anos), em faixas etárias diferentes, dos indivíduos dependentes de substâncias psicoativas, licitas e/ou ilícitas (drogas).
- O tempo/duração da recuperação do grupo dos intervenientes ronda os 8.3 anos
- Os indivíduos do sexo feminino revelam um historial diferente, quanto ao tempo que permanecem dependentes de substancias psicoativas, comparativamente aos indivíduos do sexo masculino, 17.7 (feminino) vs. 22.4 anos (masculino). Os indivíduos do sexo feminino iniciaram a recuperação mais cedo, comparativamente aos homens – 37.2 vs. 39.2 anos.
- 65% dos participantes consideram que continuam em recuperação, enquanto 7% considera estar recuperado, vulgo «curado».
- 70% afirma ter participado, pelo menos uma vez, numa reunião dos grupos de ajuda mutua, por exemplo, dos Narcóticos Anónimos, Alcoólicos Anónimos e SMART Recovery.
- 69% afirma ter recebido apoio profissional/tratamento.
- 51%. afirma ter sido sujeito a medicação prescrita pelo medico.

Conclusões
Os autores do estudo, admitem serem defensores do conceito de recuperação das dependências de substancias psicoactivas lícitas e/ou ilícitas, concentrando assim os seus esforços, principalmente, sobre os efeitos positivos da recuperação:
  • Redução acentuada, na colocação dos filhos de pais dependentes de substâncias psicoativas em recuperação, em instituições de apoio à criança, assim como, em relação ao reagrupamento/estrutura familiar apresentam resultados positivos concretos.
  • O índice de violência domestica, em indivíduos adictos ativos calcula-se entre os 39%, enquanto a mesma taxa entre os indivíduos em recuperação calcula-se entre os 7%, uma diferença significativa de 32%.
  • Aumento da empregabilidade, segundo o relatório do estudo, 74% dos indivíduos em recuperação permanece durante longos períodos no local de trabalho e 70% afirma pagar impostos, as suas dividas, assim como, voltam a ter acesso ao crédito, por exemplo, em instituições bancarias. 
  • Apresentam taxas reduzidas de problemas com a justiça, por exemplo; prisão. Aqueles indivíduos em recuperação, de longa duração, gradualmente deixam de se envolver em actividades ilícitas.
  • A conclusão final dos autores, sobre este estudo, reforça que a recuperação das dependências de substancias psicoactivas, licitas e/ou ilícitas, vulgo drogas, não se resume somente à interrupção dos comportamentos problemáticos e ao consumo de drogas, visa também a adoção de estilos de vida responsáveis e positivos em prol do autoconhecimento (selfcare) e da sociedade.
  • 79.4% dos participantes no estudo, após terem iniciado a sua recuperação, refere ter participado em ações de voluntariado na comunidade e participado em grupos cívicos.


Nota pessoal: Este estudo vem reforçar e contrariar o estigma, a negação e a vergonha associadas aos indivíduos dependentes de drogas, vulgo toxicodependentes, termo em desuso, a Organização Mundial de Saúde, designa de dependência de substâncias psicoativas.
Se recuarmos duas décadas, os indivíduos dependentes de drogas eram considerados marginais e excluídos da sociedade preconceituosa e mal informada. O mesmo preconceito também se alastrava às suas famílias. Para agravar ainda mais o cenário, já dramático, existia a crença generalizada que as pessoas dependentes não conseguiam recuperar, ou melhor dizendo, não conseguiam ficar curadas do seu «vicio»; era uma condenação para o resto das suas vidas. O diagnostico era considerado muito grave e estes indivíduos só conseguiam estabilizar da sua condição recorrendo a medicação, em doses excessivas, prescritas pelos seus médicos e ao internamento em instituições de longa duração e isoladas da sociedade, como se de um vírus tratasse.

quarta-feira, novembro 04, 2015

O álcool não é «remédio santo»


«Bebia para afogar as mágoas, mas as malditas aprenderam a nadar»

Frida Kahlo, pintora mexicana (1907-1954). Fotografia de Nicholas Muray (1939)

A famosa citação da pintora, mantém-se actualizada nos dias de hoje, e assim irá permanecer, para a eternidade. O ser humano, ao longo da historia, sempre atribuiu aos efeitos do álcool um papel preponderante na cultura, desde a religião, medicina, musica, literatura, às artes, etc.

O álcool é uma droga, que afecta o sistema nervoso central, que proporciona sensações fantásticas, mas na realidade, não resolve problemas, sejam eles quais forem, pelo contrario, pode representar uma fonte interminável de problemas graves. Na minha opinião pessoal, de acordo com a pratica profissional, o álcool é a droga mais consumida e é a mais perigosa. Porquê? Porque é legal, vivemos numa cultura, que promove e fomenta o consumo e o abuso de bebidas alcoólicas. Em pleno seculo XXI, apesar de o abuso e o alcoolismo serem um problema de saúde publica, os decisores políticos continuam a negar as evidencias cientificas sobre a problemática, assim como, falta implementar medidas preventivas que visem travar o abuso do álcool e o alcoolismo. Por exemplo, ao contrario do que acontecia há vinte anos, os casos de abuso do álcool e alcoolismo surgiam entre os 40 e os 50 anos, actualmente, são diagnosticados em jovens adultos.

Importante: Se você tem problemas na sua vida, o que é provável que tenha, como todos nós, é humano, não, repito, não recorra ao álcool para atenuar os sentimentos dolorosos, negar as evidências e/ou justificar o consumo e o abuso de bebidas com teor alcoólico. Procure alguém de confiança e expresse os seus sentimentos, em vez de optar pela solidão, vergonha e a angustia. Recuperar é que está a dar.