sexta-feira, março 07, 2014
O jogo problemático é um problema de saúde publica
Este artigo foi publicado no Jornal de Negócios (17 de
Fevereiro de 2014) e está disponível só para assinantes online , nesse sentido, disponibilizo-o
para si que é seguidor do blogue Recuperar é que está a dar.
Jornal de Negócios: Nos últimos
anos, o volume de jogos de fortuna e azar e apostas desportivas foram aumentando
quer em locais físicos, mas como através da Internet. Esse crescimento foi
acompanhado pelo registo de incremento de pessoas com adicção de jogo?
O incremento de pessoas com adicção ao jogo e o jogo
patológico, através da Internet tem sido exponencial. Por exemplo, no final dos
anos 90 a maioria dos indivíduos adictos ao jogo, em casinos, eram adultos na
casa dos 40 e dos 50 anos. Hoje em dia através do acesso online, chegam às consultas indivíduos com problemas associados ao
jogo com idades entre os 24 e os 30 anos. Todavia, isso não quer dizer que todos
sejam adictos ao jogo, isto é, alguns são indivíduos com problemas associados
ao jogo que varia entre moderado e grave. Na sua pergunta refere adicção, nesse
sentido, importa saber o que é a adicção. A adicção afecta a saúde do
indivíduo, os vínculos familiares, incluindo das crianças, o desempenho
profissional e a qualidade de vida. Ser adicto não é uma escolha pessoal. Ao
longo de vinte anos de experiência profissional, na área da adicção, nunca ouvi
nenhum individuo afirmar que escolheu ser adicto. Não é um acto voluntário, o
individuo perde o controlo, a compulsividade, o craving (desejo intenso e irracional pela actividade) e continuação
do comportamento apesar das consequências negativas. A Sociedade Americana da
Medicina da Adicção define a adicção como uma doença primária, crónica que
interfere e afecta o sistema/estrutura do cérebro responsável pelo prazer e
recompensa, pela motivação e memoria e os circuitos neuronais adjacentes. Sabemos
que uma alteração e disfunção destes circuitos neuronais conduzem ao
aparecimento de sintomas a nível biológico, psicológico, social e espiritual no
indivíduo, que se reflectem na busca e recompensa patológica do prazer. Por
outras palavras, a adicção funciona como uma “almofada” perante determinadas
situações e adversidades ao longo da vida do indivíduo. Este fenómeno repete-se
com a adicção às substâncias psicoactivas lícitas, incluindo o álcool, as
ilícitas, vulgo drogas, com o jogo, o sexo, as compras, o furto. A fim de ficar
esclarecido existe um critério que identifica o jogo problemático (moderado a
severo) e um critério para a adicção (doença primária e crónica). A adicção não
é um vírus.
Segundo estudos (American
Medical Association, EUA, 2000) existem factores genéticos em comum entre
os indivíduos jogadores patológicos do sexo masculino e o álcool. Todavia, também
gostaria de referir que nas últimas duas décadas, com os avanços tecnológicos e
a investigação, principalmente nos EUA e Canadá, ainda estamos a aprender sobre
o que é a adicção; as causas, a identificar aqueles indivíduos mais vulneráveis
e os tratamentos disponíveis mais adequados.
Jornal de Negócios: É possível
traçar o perfil do jogador compulsivo?
Segundo uma investigação no Canadá, os indivíduos com
problemas associados ao jogo compulsivo (patológico) apresentam quatro vezes
mais probabilidades de serem diagnosticados com doença mental, relacionado com
perturbação do humor e ansiedade, do que os indivíduos não jogadores. A
actividade associada ao jogo começam na adolescência, com mais prevalência no
sexo masculino do que no sexo feminino.
Na minha experiência profissional o perfil do individuo
jogador compulsivo oscila entre os 24 e os 56 anos. Sexo masculino, classe
media/alta, licenciados com carreiras profissionais estáveis, trabalham em
excesso, têm dívidas, gostam de quebrar regras e correr riscos, são impulsivos
e egocêntricos. Acreditam que o dinheiro é a causa e/ou a solução para os seus
problemas. Alguns deles afirmam, em situações de desespero, ideações e
tentativas de suicídio. Alguns destes indivíduos são oriundos de famílias
desestruturadas com problemas de álcool, jogo e violência doméstica.
Jornal de Negócios: As
autoridades estão despertas para fiscalizar a multiplicidade de jogos
disponíveis?
Na minha opinião, as autoridades estão conscientes deste
fenómeno, mas ainda não existe vontade politica para mudar esta realidade
associada aos problemas do jogo. Posso dar um exemplo, na última semana, todos
os meios de comunicação social e redes sociais, faziam referência à morte do
actor galardoado de Hollywood, Philipe Seymour Hoffman por overdose de drogas ilícitas. Se pensarmos em indivíduos com
problemas de jogo, não me recordo de nenhum caso, de figura publica, quer seja
estrangeiro ou português que tenha sido noticia. Todavia, quando surgem
notícias relacionadas com indivíduos e o jogo patológico, o destaque é
direccionado para actividades ilegais, dívidas, burlas, tribunais, são,
erradamente, considerados casos de polícia. As pessoas são presas e estigmatizadas.
Não recebem o devido tratamento.
Persiste o estigma, a vergonha e a negação. Actualmente, a
indústria do Jogo é um negócio de muitos milhares de euros. Em Portugal, o jogo
é um problema de saúde pública que ainda permanece obscuro e por avaliar os
seus efeitos e consequências. É preciso vontade política.
Entre 01 de janeiro e 30 de novembro de 2013 foram gastos em
apostas 854,9 milhões de euros no Euromilhões, em dez anos os portugueses
gastaram nove mil milhões. Nos primeiros três meses de 2013 os portugueses
gastaram 101 milhões de euros em raspadinhas. Segundo um estudo conduzido pelo
Centro de Estudos de Sociologia da Universidade Nova de Lisboa, a raspadinha é
o terceiro jogo pelo qual a população, entre os 15 e os 74 anos, revelou ter
maior dependência. Falta saber os valores e o impacto das lotarias, nos
casinos, bingos, e jogos ilegais, nos cafés e bares das aldeias de norte a sul
do país.
Jornal de Negócios: Quais os
perigos do jogo online? A adicção apresenta-se de forma diferente?
Segundo a minha experiência profissional, os perigos do jogo
online são insidiosos e complexo
visto haver da parte do jogador patológico, acesso ilimitado à Internet,
independentemente da hora, do local, do dispositivo (computador, telemóvel, tablet). Conheço casos de indivíduos,
quando chegam ao local de trabalho, ligam o computador, e imediatamente começam
a jogar ou a consultar os sites de apostas
ou poker ou mercado de valores, e
assim permanecem, em segredo, sem conhecimento dos seus colegas e/ou entidade
patronal, até ao final do dia. Obviamente, este tipo de actividade compromete
seriamente o desempenho do trabalhador. Também utilizam os smartphones e os tablets
para continuar a jogar/apostar em casa no final do dia de trabalho. Afirmam «É
uma forma prazerosa de descontrair e relaxar, depois de um dia stress no trabalho». Negligenciam a
relação com a sua parceira, com os filhos e/ou outro tipo de actividades
sociais. Na maioria dos casos, a família desconhece ou permanece ignorante
quanto às consequências reais do jogo. Alguns indivíduos permanecem «ligados»
às actividades associadas ao jogo durante 12 a 14 horas diárias. Gradualmente vai
aumentando a actividade associada ao jogo/apostas por longos períodos com
incremento da frequência, da intensidade e da duração. Quanto maior a exposição
à actividade associada ao jogo/apostas, maior o risco de desenvolver a adicção.
Jornal de Negócios: Como é
possível “investigar” este tipo de adicção?
É preciso um plano nacional que vise erradicar e/ou atenuar
o estigma, a negação e a vergonha associados aos comportamentos adictivos.
Existem mitos e preconceitos que visam discriminar o individuo adicto e a sua
família. Segundo relatos das famílias, que pedem ajuda nas consultas, afirmam
“Quando soubemos do problema do jogo do meu filho, decidimos ocultar de toda a
gente, incluindo a família mais próxima e tentamos resolver o problema em casa.
Mais tarde, reconhecemos que foi o pior que podíamos ter feito, porque ao invés
de melhorar, ainda agravou mais, com a agravante de ter dividido a relação
entre o eu e o meu marido. No fundo, sentimos imensa vergonha, porque nunca
imaginamos que o meu filho pudesse ter um problema desta natureza. Levamos
algum tempo até aceitar que aquilo que fazíamos para ajudar, só piorava. Hoje
admito, como mãe, que sinto imensa vergonha do problema do meu filho. Só sabe o
mal que isto é, quem passa por elas.”
Em Portugal, a investigação ainda está numa fase
embrionária, apesar de haver alguns profissionais dedicados ao estudo do jogo
patológico, onde destaco o trabalho do Dr. Pedro Hubert. Para além da
investigação, são necessários profissionais que assumam o compromisso, isto é,
que dediquem a uma parte significativa das suas carreiras à formação continua,
à investigação, à partilha de conhecimentos, experiencias e criarem-se equipas
pluridisciplinares que se dediquem exclusivamente ao tratamento e recuperação
dos comportamentos adictivos, e do jogo em particular. É necessário mobilizar a
comunidade, em particular, e a sociedade, em geral para este tipo de fenómenos
emergentes e transversais. Qualquer pessoa está exposta e vulnerável. Aquelas
pessoas que consideram que a adicção só acontece aos outros, são provavelmente
aquelas que apresentam mais factores de risco.
Quais são os custos do jogo patológico que representam para
os cofres do estado? Em termos de comparação os custos do álcool representam
200 milhões de euros. Os custos do tabaco representam 500 milhões de euros.
Se houver, da parte dos decisores políticos, dos meios de
comunicação social, legislação, um plano nacional de prevenção e tratamento como
está acontecer com o tabaco, creio estarem criadas as condições para haver mais
pessoas informadas, profissionais e instituições dedicadas ao tratamento. Como
resultado, destes esforços, nos últimos anos, o número de pessoas que procurou
ajuda para interromper a adicção ao tabaco. aumentou significativamente.
Jornal de Negócios: Quais os
perigos da publicidade relacionada com o jogo?
O mesmo fenómeno repete-se com o álcool, com o tabaco e também
com o jogo. Apesar de haver mudanças nos paradigmas sobre o tabaco, em relação
ao resto, as leis existentes ainda são permissíveis e não existem instituições
credíveis independentes que monitorizem o marketing
agressivo e a publicidade associada aos comportamentos adictivos. Isto é, o
problema não são as substâncias psicoactivas lícitas e/ou o jogo, o real problema
são as pessoas. Algumas pessoas conseguem consumir drogas, beber bebidas
alcoólicas e/ou jogar socialmente sem que isso represente um problema para as
suas vidas, todavia, enquanto outras, felizmente em menor numero, apresentam um
risco maior. Tal como referi, no inicio, infelizmente existem muitos casos de
pessoas que faleceram como consequência da adicção às substâncias psicoactivas,
nos últimos anos, só para enumerar alguns, Michael Jackson, Amy Whinehouse,
James Gandolfini, Witney Houston e
Philipe Seymour Hoffman. Segundo as Nações Unidas estimam-se que 160 mil
milhões de dólares oriundos do tráfico de drogas, anualmente, sejam lavados na
banca internacional. O fenómeno é idêntico com o jogo legal e ilegal. Os lucros
astronómicos, os interesses financeiros e económicos estão acima dos direitos
das pessoas. Apesar de sabermos que entre indivíduos com problemas de jogo o número
de suicídio é elevado e os custos para o estado elevadíssimos, todavia, esta
realidade ainda é negligenciada. Parte dos lucros da indústria do jogo deviam
ser revertidos para a investigação e o apoio no tratamento do jogo.
Jornal de Negócios: Quais são as
principais tendências de futuro?
Após duas décadas a trabalhar na área dos comportamentos
adictivos as tendências destes fenómenos relacionados com a natureza humana,
são para se manterem. Estamos vulneráveis perante a dor e conseguimos
convencer-nos que conseguimos ludibria-la recorrendo a estratégias e mecanismos
cuja finalidade é o prazer imediato. No outro lado deste fenómeno, felizmente,
também existem muitos casos de pessoas que recorreram à ajuda profissional ou
através dos grupos de ajuda mútua dos 12 Passos (Jogadores Anónimos) que
conseguiram ultrapassar a adversidade. Da mesma forma, que se estudam as causas
e os sintomas do jogo patológico, também é necessário estudar aquelas pessoas
resilientes que permanecem em recuperação durante períodos duradouros. Essas
pessoas são um recurso valiosíssimo para a comunidade. É preciso sensibilizar o
público em geral, através de informação e haver uma participação cívica mais
activa, em relação a estes temas. Participei num programa, numa escola sobre a
prevenção das dependências, e foram enviados para a associação dos pais,
centenas de convites, apareceram seis pais. Perante a negação e a passividade é
preciso uma revolução nesta matéria. Os nossos filhos merecem que os adultos
zelem pelos seus direitos a uma vida plena.
Para terminar, gostaria de publicar um email que recebi de uma pessoa adicta ao jogo, do Brasil, também
podia ser portuguesa, enquanto escrevia este artigo, a pedir-me ajuda.
«Chamo-me Adélia. Li o seu blogue e a minha pergunta é a
seguinte. Estava viciada em jogo de bingo (vídeo) naquele nível de pensar em
suicídio, de jogar o dia inteiro e fazer ate xixi na máquina para não levantar
e ir ao banheiro. Às custas de muito sofrimento e terapia estou à 1 ano e 2
meses sem jogar. Acho que é bom eu te contar como forma de estudares o meu caso.
Como você sabe, a dependência das drogas é diferente do jogo, o corpo não tem
contacto com drogas, mas tive abstinência terrível, tudo tudo mesmo, e só não
tive convulsões. Felizmente, estou um pouco ou bem melhor. Queria saber porque
é que ainda tenho depressão? Você acha que preciso de um anti depressivo ou vai
melhorando sem remédio? Obrigada, fica com Deus, Adélia (nome fictício)»
Este tipo de problemas não acontece só aos outros. O silêncio
não resolve, pelo contrário, a tendência é para se agravar. Lá porque não se
vê, não quer dizer que não existe.
sábado, fevereiro 15, 2014
A adicção não é um vírus
Após as noticias recentes sobre o falecimento do actor de
Hollywood, Philipe Seymour Hoffman vítima
de overdose de drogas ilícitas,
intoxicação que ocorre quando o
individuo consome uma determinada quantidade de droga que os sistemas vitais do
organismo são impedidos de funcionar adequadamente, veio levantar a questão sobre a importância
da abstinência, da recuperação da adicção e da recaída.
Philipe Seymour Hoffman permaneceu abstinente durante 23
anos consecutivos. Se o actor faleceu aos 47 anos, fazendo as contas, parece ter
iniciado a recuperação com 24 anos. Iniciar a recuperação com esta idade, por
si só é um feito extraordinário, mas por outro lado, revela, desde cedo e ao
longo do seu desenvolvimento, um individuo vulnerável (predisposição) aos
efeitos e consequências da dependência de substâncias psicoactivas, do Sistema
Nervoso Central, após duas décadas abstinente, paradoxalmente, recaiu e acabou
por morrer de overdose. Não faleceu
de cancro ou de doença cardíaca, mas vítima da adicção.
Já em meados de 2013, segundos os media norte americanos, Philipe
S. Hoffman deu entrada num centro de tratamento para uma desintoxicação,
durante dez dias, depois de ter recaído em heroína. Após ter completado o
programa de desintoxicação, aparentemente parece ter voltado a frequentar as
reuniões de Alcoólicos Anónimos (AA), note-se, já o fazia desde os 24 anos de
idade, até 2014. Uma semana antes de morrer, foi à sua última reunião.
Este incidente, adquiriu um destaque mediático visto Philipe
S. Hoffman, ser um actor galardoado com vários prémios, todavia, gostaria de
transpor este caso para o cenário da dependência de drogas, da recuperação e da
recaída em Portugal. Existem historias semelhantes de indivíduos adictos, em
Portugal, que também permanecem períodos consideráveis abstinentes, em
recuperação, mas que acabam, por um conjunto de motivos, reiniciar os consumos
de substâncias psicoactivas, incluindo o álcool.
Como profissionais, quando nos deparamos com um individuo
adicto a substâncias psicoactivas, vulgo drogas, devemos considerar a
abstinência uma meta prioritária? A minha resposta é sim. Um individuo com um
historial significativo de dependência (adicção) precisa de ajuda e recursos, a
fim de repensar, sobre o seu estilo de vida e as drogas.
De acordo com a minha experiencia profissional, visto ainda não
existirem estudos em Portugal sobre o tratamento, a recaída e a recuperação da
adicção às drogas, o primeiro ano de abstinência é um período crucial, mas ao
mesmo tempo critico para o individuo. A adicção às drogas lícitas, incluindo o
álcool, e as ilícitas, interferem e comprometem o funcionamento e o desenvolvimento
normal do cérebro – estruturas associadas ao prazer e recompensa, assim como a
motivação, a memória e a capacidade de tomar decisões. A adicção, conforme vai evoluindo,
gradualmente vai incapacitando o individuo de sentir, pensar (défices cognitivos)
e tomar decisões saudáveis, ao mesmo tempo, vai deteriorando os vínculos entre
as pessoas significativas; perda do controlo, síndrome da abstinência,
problemas familiares e profissionais, tolerância às drogas, impotência
associado ao sentimento de culpa e a vergonha, a negação e o estigma. Na
perspectiva de um individuo adicto, a abstinência total de drogas é
interpretada como uma privação radical, com custos psicológicos e sociais
consideráveis, porque as substâncias psicoactivas, apesar das consequências
negativas funcionam como uma almofada, um amortecedor, um «remédio» e
representava um estilo de vida.
Generalizando, o consumo do álcool é encorajado na nossa
cultura, somos seres sociais que utilizamos as bebidas alcoólicas com o intuito
de «olear» a comunicação. Como profissionais, este tipo de paradigma poderá
influenciar a nossa abordagem. Um individuo adicto fica incapaz de adoptar
comportamentos saudáveis se consumir drogas, incluindo o álcool. Com muita
frequência, escuto este tipo de comentários, entre indivíduos adictos em
tratamento das drogas: «Abstinência total? O quê? Nunca mais vou usar drogas?
Beber álcool? No verão… ao jantar entre amigos e beber um copo… fumar um charro
de vez em quando?»
Um individuo adicto, mesmo em recuperação por longos períodos,
não consegue erradicar das suas memórias as sensações e experiências intensas
de bem-estar e alivio que as drogas proporcionaram. Este estilo de vida,
centrado nos efeitos das drogas, funcionava como um excelente antidoto de forma
a gerir sentimentos desconfortáveis associados ao stress/tensão, ao tédio, à frustração originando uma sensação de
despropósito em relação ao rumo da sua vida. A dependência psicológica das
substâncias, não desaparece só porque o corpo está livre de drogas – lógica
adictiva, exacerbado pelas características da personalidade. Costumo afirmar
que viver dependente de drogas é uma ocupação, idêntica ao um emprego, que
consome imenso tempo e energia, 24/24 horas, 7 dias por semana e 365 dias por
ano. É o assunto mais importante e central na vida do individuo, mais
importante até que a própria família, incluindo as crianças, a saúde, a
carreira profissional, etc, etc.
Quais são os motivos que levam um individuo abstinente e em
recuperação, durante 23 anos, a reiniciar o consumo? Após vários períodos
duradouros em recuperação, alguns indivíduos decidem violar o voto da
abstinência. Eis relatos que ouço, nas consultas:
- “A minha vida está porreira, por isso, comecei a beber bebidas alcoólicas às refeições ou quando saio com amigos à noite. Nada de anormal.”
- “Comecei a beber álcool, socialmente e tudo corria bem durante alguns anos, até ao dia que voltei a consumir a minha droga de escolha, (nestes casos pode ser heroína ou cocaína) e rapidamente a compulsão tomou conta de mim. Ao fim de umas semanas já estava outra vez agarrado às drogas.»
- “Estive abstinente, durante 18 anos, a minha vida estava óptima, mas um dia, a relação com o meu marido acabou e decidi divorciar-me. Senti-me desesperada e sozinha com dois filhos nos braços. Perdi o sentido da minha vida, despertei para uma realidade que não estava preparada e a única solução foi reiniciar o consumo de drogas. Apesar de estar abstinente tanto tempo, soube onde me dirigir para comprar drogas, como consumir e decidi ocultar esta situação da minha família e no trabalho. Mais tarde, quando descobriram que andava a consumir drogas e alcool, foi uma tragédia…foi uma grande desilusão tão grande que nem consigo descrever.”
- “Estive abstinente de drogas, durante 14 anos, adorava o meu trabalho, tinha uma excelente carreira profissional, um bom ordenado e era feliz. Um dia, de repente, fui despedido e fiquei no desemprego. Perdi qualidade de vida e senti-me injustiçado. Andei uma semana, cheio de pena de mim próprio, fiquei deprimido, não conseguia suportar a minha cabeça e estar com a família e amigos. Dormia até há hora do almoço e gerou-se, dentro de mim, uma sensação de inutilidade e impotência insuportável. Um dia, não sei explicar como, decidi começar a beber bebidas alcoólicas, e uns meses depois reiniciei o consumo nas drogas.”
- “Estive abstinente de drogas, incluindo o álcool, durante 20 anos, criei uma empresa e um projecto de vida. Era um sonho tornado realidade, depois do inferno que passei com a adicção às drogas. Decidi reconstruir a minha dignidade e a auto estima. As pessoas de família começaram a acreditar em mim, inclusive o meu pai, ajudou-me financeiramente para avançar com o meu projecto profissional. Depois de iniciar a empresa, não pensava noutra coisa, que consistia em obter reconhecimento e a concretização de um sonho de infância. Passados 18 anos, trabalhava 12 a 14 horas, não dormia, andava ansioso e sempre em stress, só pensava em ganhar dinheiro. Sabia que para ter sucesso precisava de produzir, ganhar mais dinheiro, manter o estatuto e dar o meu melhor. Vivia única e exclusivamente para o trabalho. Um dia, fui parar, às urgências do hospital, deprimido e com ataques de pânico. Este episódio, veio alertar-me para a minha incapacidade, de gerir o negocio e ganhar mais dinheiro, sabia como atenuar a angustia, a depressão e a ansiedade. Reiniciei o consumo de bebidas alcoólicas, e passados 2 anos o consumo de cocaína, socialmente com amigos para me divertir e descomprimir, mais tarde, a heroína e os ansiolíticos.”
Para terminar, os indivíduos com um historial significativo
de dependência (adicção) de substâncias psicoactivas, do Sistema Nervoso
Central, lícitas incluindo o álcool e medicação prescrita pelo médico (do grupo
das benzodiazepinas – por exemplo, os ansiolíticos) e as ilícitas devem
considerar a abstinência uma regra. Tal como referi, estes indivíduos adictos
desenvolveram uma predisposição, uma vulnerabilidade física e psicológica, ao
contacto com drogas, que os colocam em risco de reiniciarem a adicção activa,
que pode ser despoletada a qualquer altura, evento adverso e dor intensa, doença,
etc, independentemente das suas vontades. Isto é, enquanto permanecerem
abstinentes, a adicção permanece controlada; refiro-me á compulsão e à obsessão
associado às drogas - ao prazer. De notar que, quando afirmo abstinência, refiro-me
à «auto medicação», porque existem excepções, indivíduos adictos, em
recuperação, precisam de medicação, e acima de tudo, acompanhamento
profissional digno. Ao contrário, daquilo que algumas tendências e tradições
disfuncionais da nossa cultura teimam em reforçar, é possível ter uma vida
plena abstinente, sem drogas lícitas, incluindo o álcool, e as drogas ilícitas.
São necessários estudos inovadores, não me refiro
somente às causas, aos sintomas da dependência das drogas, incluindo o álcool,
mas aquelas pessoas, adictos e adictas, que após um historial de adicção
activa, permanecem longos períodos em recuperação. Paralelamente, precisamos de
contrariar o estigma, a negação e a vergonha. Ainda ouço, com frequência
pessoas, e alguns profissionais, a afirmarem que os indivíduos em recuperação
duradoura, são «ex drogados» ou «ex toxicodependentes». Quando não
compreendemos determinados atitudes e comportamentos dos outros, a nossa tendência
é para criticar, e em casos de ignorância, dizer mal. É necessário retirar os rótulos,
desmistificar e corrigir certos paradigmas disfuncionais e profissionais desactualizados,
revelarmos mais humildade e reconhecimento alheio, pensarmos «fora da caixa», a
fim de compreendermos melhor quais são as competências e os recursos, que dotam
estas pessoas fantásticas e resilientes perante o apelo (perpétuo) dos efeitos
das drogas lícitas e/ou ilícitas. Eles e elas não estão imunes ou curados, porque
a adicção não é um vírus, pelo contrário, investem na prevenção da recaída e
consideram que a recuperação acrescenta significado e propósito ao rumo das
suas vidas. Para todo o efeito, também são uma referência para a família, para comunidade
e a sociedade, incluindo profissionais. Eles andam aí à espera que de serem chamados
a participar no tratamento, na recuperação e na prevenção da recaída. Recuperar
é que está a dar contra o estigma, a negação e a vergonha.
Philipe S. Hoffman, R.I.P.
e as minhas condolências para a família.
quarta-feira, janeiro 08, 2014
Dr. David J. Powell
1945 - 2013
Foi com imenso pesar e consternação que soube da noticia da
morte do Dr. David Powell. Faleceu no dia 1 de Novembro de 2013, com 68 anos,
na sua casa junto à sua família nos EUA.
O Dr. David J. Powell era licenciado em Filosofia, Mestre em
Psicologia, Doutorado em Relações Humanas, Formador e Supervisor Clinico
(Powell Blended Model of Supervision,
Presidente do International Center For Health Concerns, Presidente do Clinical Supervision Institute. Professor Assistente no
Departamento de Psiquiatria da Universidade de Medicina de Yale. Foi
colaborador na área da supervisão em Instituições reputadas internacionalmente
tais como; Hazelden, Betty Ford, Caron Foundation, Hanley Center, Gateway
Rehabilitation. Foi pioneiro no Programa de Apoio a Empregados direccionado
para empresas tais como; Rolls Royce, IBM,
The Trump Organization. Desenvolveu programas de supervisão para a Marinha dos
EUA e para os Marines. Esteve envolvido em varios projectos, na área no tratamento
da dependência química e alcoolismo, em alguns países da Asia e Europa. Nos
últimos anos, colaborava com uma instituição para jovens dependentes químicos
(drogas) na Turquia. Colaborava com varias revistas americanas para o
tratamento e recuperação da dependência química e alcoolismo. Foi autor de
vários livros, dos quais destaco “Clinical Supervision in Alcohol and Drug
Abuse”. Era um defensor dos Doze Passos, dos Alcoólicos Anónimos, como recurso
para a recuperação do individuo dependente, da sua família e uma mais valia
para a comunidade/sociedade.
Certamente ficou imenso para dizer sobre o Dr
David Powell, um distinto e ilustre profissional, mas gostaria de destacar a
sua simplicidade como pessoa, com o qual tive o privilegio de conhecer. Um ser
humano extraordinário.
Todos nós, profissionais e instituições, ligadas ao
tratamento da adicção e da recuperação de drogas, incluindo o álcool, perdemos uma
referência importante, todavia, o seu conhecimento e sabedoria irá permanecer
vivo no coração daqueles que, em conjunto com ele, partilham a mesma paixão. O
Dr. Powel ensinou-me o seguinte; «Para se ser um profissional competente no tratamento
da adicção é preciso faze-lo com paixão, profissionalismo e ética». O meu
profundo e sentido bem-haja.
sábado, janeiro 04, 2014
28ª Dica Arte Bem-Viver, de 02/10/2011
Olá, exclusivamente para si, Bom Ano de 2014.
A 28ª Dica Arte Bem-Viver, está relacionada
com o trabalho e o espírito de equipa.
Durante catorze anos consecutivos trabalhei num contexto de
equipa, com supervisão individual, altamente dinâmico, que me possibilitou um conhecimento
muito significativo a nível pessoal e profissional.
Passamos uma parte significativa das nossas vidas a
trabalhar. Enquanto crianças, ouvimos com muita frequência: «O que é que queres
ser quando fores grande?». Desde cedo fazemos um grande investimento na
realização profissional e levamos adiante esse projecto, com altos e baixos, avanços e recuos, até ao final dos nossos
dias. Crescemos e amadurecemos a trabalhar. Somos ensinados a ambicionar
segurança, prestigio, reconhecimento, poder e sucesso. Se não monitorizarmos os
objectivos e o propósito, podemos até ficar adictos ao trabalho (workaholics), desenvolvendo expectativas
irreais, e assim sacrificar todas as outras áreas das nossas vidas, exemplos:
relacionamentos de intimidade, família, incluindo os filhos, auto conceito,
amigos, hobbies.
Considero, ao contrário daquilo que muitos pensam, que a
questão financeira não é a motivação principal para um excelente desempenho
profissional. Considero dois factores importantes. Primeiro: A gratidão
(paixão) de desempenhar algo pela qual estamos dotados e que se enquadra no
nosso perfil. Segundo: um óptimo ambiente de trabalho (ex. espírito de equipa).
Não é sinónimo de excelência, de compromisso e/ou
profissionalismo ser medico, engenheiro, advogado, ou possuir um MBA (master business admnistration ) etc. Na
minha opinião, acima de tudo é preciso atitude, compromisso, liderança e
dedicação à causa. Quero dizer com isto que, existem pessoas que desempenham a
sua profissão e/ou seguem as suas carreiras, mas poucas são profissionais de
excelência.
Trabalha em equipa? Algumas curiosidades, sobre o espírito de
equipa, baseadas na minha experiência profissional:
1. Em termos de potencial, o que é que você acrescenta à sua equipa
de trabalho (espírito de equipa)?
2. Em termos de potencial, o que é o/a distingue dos seus
colegas?
Sabia que tudo aquilo que acontece no seio do trabalho de equipa/grupo
influencia cada um dos seus membros, ainda que possa não ser notado. Alguns
factores que influenciam a dinâmica de grupo de trabalho: aceitação, apoio e
esperança, altruísmo e vivências (diversidade)e avaliação. E o potencial (mais
valia) que cada membro da equipa proporciona aos restantes membros do grupo.
Sabia que as pessoas que nunca tenham trabalhado num
contexto de grupo/equipa, de início, apresentam a tendência para percepcionar o
grupo como uma entidade fechada e confusa à qual sentem uma certa hostilidade.
Algumas pessoas pensam: «Que grande confusão» ou «Tanta gente! Isto vai ser um
complicado.» Não conseguem ter uma perspectiva organizada.
Um dos factores mais importantes, para o êxito ou o
insucesso no trabalho de grupo, é a disponibilidade, de cada indivíduo para
este tipo de contexto, assim como, as suas características pessoais. Refiro-me
ao compromisso e/ou a falta dele.
Sabia que o trabalho em equipa pode fornecer um nível de
estimulação significativo capaz de activar processos que permitem a tomada de
consciência das suas próprias qualidades, das suas áreas de maior dificuldade
no relacionamento com as outras pessoas e facilitar novas crenças construtivas.
« I Love My Job» e você?
Cumprimentos
Votos de uma semana de trabalho motivada para a auto
realização e para o espírito do grupo.
Comentário: Sabia que a Dica Arte de Bem-Viver começou com uma "brincadeira" para os amigos, em Abril de 2011? Atualmente é enviada para mais de 500 pessoas e vários países de expressão portuguesa (Portugal, Angola, Moçambique e Brasil) e para os Estados Unidos da América. À data deste post vai na sua 145ª publicação. Caso deseje receber a Dica Arte Bem-Viver (semanal) basta enviar um email para joaoalexx@sapo.pt. No assunto da mensagem escreva: Dica Arte Bem-Viver. Todos os dados são confidenciais. É grátis. Recuperar É Que Está A Dar.
sábado, dezembro 14, 2013
"Ser vulnerável, é apenas uma das características."
Tudo começou com a sensação de
que o barco andava sem rumo, corria sempre mal, os erros eram sempre os mesmos, e de repente, percebi que não existia o “mundo está contra mim” e sim o “é
necessário aprender a estar no mundo”. A vontade de mudar falou mais alto e
fervilhou dentro de mim. Preciso de ajuda… Foram inúmeras as tentativas de
relações de intimidade, no entanto, eram sempre voláteis, rápidas e quando
estava aparentemente a ser bom (controlado por mim) acabavam por terminar.
Chegava à conclusão que afinal não tinha sido tão bom, era a minha vontade que
fosse bom que sustentava a relação. Aí o mundo desabava, mais uma vez. Quando
olhava pela janela via apenas o que sentia nos relacionamentos amorosos, não
existia mais nada ou quase nada. Percebi que o limiar entre a sanidade e a
patologia era curto, procurei ajuda, comecei por conhecer mais sobre mim e
aceitar. A palavra resiliência passou a fazer parte do meu vocabulário. Sentir
é ok, saber gerir é uma grande sabedoria, alguém disse que a vida é uma peça de
teatro que não permite ensaios. Ou seja, aprender com os erros, conhecer e
viver…sem nunca esquecer que a vida é feita de opções e nós somos a personagem
principal. As escolhas são nossas. Ainda a caminhar na minha jornada de
recuperação, estou menos angustiada, aprendi a gerir o sentimento de
ambivalência e a tomada de decisão passou a ser uma plataforma mais segura.
Resumindo, hoje olho pela janela e observo interações, nuns dias observo
pessoas a circular na rua, noutros as árvores que estão ao lado das pessoas, é
sempre diferente. Mas, vejo e sinto mais coisas. Sou mais feliz e vivo um dia
de cada vez, recuperar é que está a dar.
S.
sexta-feira, dezembro 06, 2013
Recuperar das compras compulsivas
As compras compulsivas são um problema actual menosprezado.
Todos os dias fazemos compras. Todos os dias, por
variadíssimas razões e motivos gastamos dinheiro. Gastamos dinheiro porque
estamos tristes ou porque estamos felizes. Gastar dinheiro faz parte do
dia-a-dia, do ser social, da auto estima e isso é OK.
Entretanto, existe outra realidade, sobre o gastar dinheiro,
que tem sido negligenciada. Somos bombardeados a um número indeterminado de
estímulos para fazer compras, onde para isso, necessitamos de recorrer a estratégias
altamente engenhosas para equilibrar os nossos orçamentos. Perante tanta
oferta, facilmente nos iludimos com o “Preciso de comprar aquilo…” quando na
realidade, “aquilo” não é uma prioridade, mas uma necessidade de satisfazer os
nossos desejos e vontades com base no prazer imediato. Basta entrarmos no
centro comercial e ao fim de 15 minutos, já dispomos de uma lista de coisas que
precisamos de preciso comprar. Sentimo-nos bem a gastar dinheiro. Todos nós
estamos sujeitos a este fenómeno, todavia gastar dinheiro compulsivamente,
comportamento adictivo, está associado a uma fonte intensa de prazer e
bem-estar com consequências negativas (problemas familiares, incluindo as
crianças, stress, dividas, créditos,)
efeito semelhante ao individuo que abusa de substâncias psicoactivas, vulgo
drogas.
Estamos prestes a iniciar a época natalícia, segundo a
tradição, é uma das alturas do ano que mais se gasta dinheiro. O Natal é um
período crítico de risco que justifica os exageros e os excessos em relação às
compras compulsivas. Por exemplo, no final de Janeiro do ano seguinte, os extractos
da conta bancaria são reveladores da perda do controlo, muitas vezes fonte de
discórdia e conflito entre o casal.
sábado, novembro 02, 2013
Paradoxo
"Paradoxo em recuperação.
Rendemo-nos para vencer.
Perdoamos para ser perdoados.
Para manter o que temos, entregamos, em vez de controlar.
A força advém da fraqueza.
Enfrentamos a dor para ficar mais resilientes.
A luz advém da escuridão.
A independência advém da dependência.
Vivemos, o mais intensamente possível, um dia de cada vez,
sabendo que um dia iremos morrer.” (tradução - autor anónimo)
Comentário: Apesar
da complexidade da adicção (e do ser humano), hoje sabemos que a adicção é uma
doença e podemos afirmar que existe esperança no tratamento e na recuperação.
O que é que significa a palavra Paradoxo? Segundo o
dicionário da língua portuguesa é:
“Opinião contrária à comum.”
Na vida, aprendemos através da dor, que aquilo que pensamos
estar certo, pode mais tarde estar errado. Perante o perigo e o risco,
associado aos comportamentos adictivos, desenvolvemos um sentimento de
impunidade e invencibilidade que nos embebeda, extremamente apelativo,
arriscado, intenso e sedutor; “É perigoso…mas vou controlar a situação. A vida
são dois dias e um é para acordar.” Na adicção activa, quando julgamos que
estamos a controlar, depois em retrospectiva, aprendemos com os erros, e
impotentes, concluímos que afinal a realidade é bem diferente.
Segundo o dicionário de Psicologia, de Roland Doron e
Françoise Parot, paradoxo “é uma proposição ao mesmo tempo verdadeira e
falsa, que acarreta deduções contraditórias, entre as quais a razão oscila
interminavelmente; dilema, círculo vicioso. “
Mais uma vez, tal como acontece na vida, vivemos entre duas
linhas distintas mas que estão interligadas entre si, a ilusão e a realidade. A
ilusão permite-nos fantasiar, criar e sonhar, a realidade permite-nos ser
honestos, disciplinados e responsáveis. O mesmo fenómeno sucede na recuperação
da adicção. A pessoa impotente, de acordo com o léxico comum, significa uma
pessoa vulnerável, fraca e condenada ao fracasso. Todavia, algumas pessoas
identificam a vulnerabilidade (impotência) em relação à adicção, todavia isso
não é impeditivo de terem o controlo sobre as suas atitudes, comportamentos e
adoptar estilos de vida saudáveis e construtivos. Por exemplo, o individuo que
está abstinente de drogas, incluindo o álcool, em recuperação, é impotente
perante as substâncias psicoactivas alteradoras do humor (sistema nervoso
central), porém consegue ter o controlo necessário para fazer a sua vida. O individuo
que é adicto ao jogo, ao sexo, distúrbio alimentar que está em recuperação é
impotente perante determinados atitudes e comportamentos de risco, que reforçam
a logica adictiva (compulsiva), porém consegue ter o controlo necessário para
executar as mais diversas tarefas e actividades do seu dia-a-dia.
Um dos paradoxos muito comuns. Não somos a pessoa que dizemos
ser ao nosso parceiro/a, ao familiar, nosso amigo/a, colega de trabalho; na
realidade, somos aquilo que concretizamos; aquilo que fazemos que está certo e/ou
errado. Por exemplo, empregamos palavras elaboradas e evocamos princípios, para
justificar um exercício de retórica, mas aquilo que fazemos, na realidade não é
coerente e íntegro.
Para si que está em recuperação da adicção integre os
paradoxos da vida de acordo com o alinhamento das suas próprias convicções e princípios.
Outro dos paradoxos que a maioria dos adictos, em recuperação encontra é; a
recuperação da adicção é um projecto individual, todavia porém, é reforçado
pela qualidade dos relacionamentos das outras pessoas. Da adicção ninguém
recupera sozinho. Todos nós possuímos uma história para contar, todos nós temos
problemas e a dada altura das nossas vidas precisamos de ajuda.
sábado, outubro 05, 2013
Recuperar é que está a dar, Kristen
Kristen Johnson ganhou dois Emmy`s, actualmente é actriz na serie da televisão "The Exes" e também é docente na Universidade de Nova Iorque. Veja o video sobre recuperação
Siga o link
sexta-feira, outubro 04, 2013
Qual é o seu limite para comprar?
Durante uma consulta com Carolina (nome fictício), 32 anos,
abordamos alguns dos motivos pela qual não se controla nas compras. Ela afirma
"Gasto o dinheiro que faz parte do orçamento para as despesas fixas da
casa e que me faz imensa falta, na realidade, após a adrenalina das compras, passado
uns dias, já perdi a pica (interesse) pelo artigo novo que comprei, fica
guardado no armário. No dia a seguir, encontro outro artigo novo, e
imediatamente arranjo mais uma justificação para gastar mais dinheiro que não
devia. Nunca é suficiente. Tenho acumulado algumas dívidas desnecessárias, por
exemplo com o banco, por causa da utilização abusiva do cartão de crédito. Ando
nesta compulsão há aproximadamente 10 anos."
Segundo a lógica que reforça o
comportamento compulsivo, não se controla nas compras porque :
- "Sinto me muito melhor comigo e mais segura"
- "Para fugir/evitar sentir coisas dolorosas"
- "Quando estou zangada, através das compras, expresso a minha raiva e frustração"
- "Fazer compras tem um significado importante; evoco fantasias sobre riqueza e estatuto"
- " Fazer compras é uma forma de fazer parte da sociedade onde todos têm uma fixação pela imagem"
Importante: Este
texto foi publicado com o consentimento da Carolina (nome fictício). Os parabéns,
pela honestidade e pela motivação para com a mudança de comportamento.
Comentário: O
caso da Carolina é revelador da compulsão e da perda do controlo perante a
sensação de prazer associado às compras. Desde a sua adolescência, ela revela
ter problemas, com a baixa auto estima, assim como, em manter relacionamentos
duradouros. Aparenta não possuir uma carreira profissional que lhe proporcione
um propósito e segurança. Também refere, que durante períodos atribulados e de
pressão, recorre às compras, a fim de ficar anestesiada e de não pensar mais no
assunto. Para além da compulsão das compras outros problemas significativos;
carreira profissional, relacionamentos românticos de intimidade e o corpo
(imagem e peso).
De notar, que algumas pessoas, em especial as mulheres,
estão mais vulneráveis e expostas à pressão e à obsessão da sociedade sobre a
imagem, refiro-me ao marketing
agressivo da indústria da moda. De acordo com a moda vigente, as mulheres devem
seguir as ultimas tendências, isso significa, que é tema serio de conversa entre
amigas.
Dicas:
- Quais são as consequências dos seus impulsos? Proteja os seus recursos, os seus relacionamentos e o seu sustento.
- Monitorize os efeitos das técnicas de marketing (publicidade) que interferem no seu comportamento sobre as compras. Por exemplo, saldos, revistas, publicidade nas redes sociais, por exemplo; no Facebook, etc.
- Diga Não à pressão social que visa reforçar o impulso para comprar coisas que você não precisa e/ou não quer. Algumas afirmações disfuncionais “ Se está chateada, vá às compras.”
- Certifique-se daquilo que realmente quer e precisa de comprar. Por exemplo; faça uma lista. Disponibilize o dinheiro suficiente somente para comprar essas coisas. Não utilize o cartão de crédito.
Deseja obter mais orientação sobre a compulsão nas compras?
Envie email xx.joao@gmail.com. Todos os seus dados são confidenciais.
Veja o trailer do filme: Confessions of a shopaholic trailer
sábado, setembro 21, 2013
O açucar em excesso pode tornar-se adictivo
Dada a escassez informação para o publico em geral, acabamos por ingerir açúcar, nos mais diversos tipos de alimentos, em quantidades excessivas e nefastas para a saúde. Erradamente, recorremos ao açúcar para nos mimar e "adormecer" as nossas emoções mais dolorosas, alívio típico do stress do dia-a-dia.
O açúcar afeta e pode comprometer seriamente o funcionamento normal do cérebro e assim provocar dependência. Neste caso específico informação é poder. Veja este video interessante e reflicta sobre o assunto em família, incluindo os seus filhos. Siga o link "That Sugar Film"
domingo, setembro 08, 2013
27ª Dica Arte Bem-Viver de 25/09/2011
Olá
Ao longo da vida vamos alargando e/ou reforçando o leque de pessoas com as
quais vamos interagindo, cujo historial é completamente distinto uns dos
outros (diversidade). É um processo dinâmico que também influencia o nosso
próprio carácter e algumas das nossas competências individuais e sociais (ex.
família e cultura). Todavia, alguns de nós são seres mais sociáveis do que outros.
Sabia que não podemos escolher a família. Não podemos
escolher o patrão ou os colegas de trabalho. Mas podemos escolher o parceiro/a
romântico e/ou amigos. Nesta diversidade de papéis e seleções, existe um certo equilíbrio
nos afectos e nas vínculos entre uns e outros.
A dica de hoje refere-se à pressão social. Como é que cada um de nós gere a
pressão social? As decisões que você toma, para gerir a pressão social, estão
enquadradas com os seus valores, objectivos e ideias?
Dicas:
1. Acontece com frequência, alguém não aceitar o seu Não?
Essa pessoa teima em não dar importância ao que você diz ou faz? Pense nesta
questão e responda: "Serei daquelas pessoas que desiste daquilo que
acredita, para fazer a vontade aos outros? Isto é, mais uma vez, vou ceder e
retroceder quanto ao Não e continuar a sentir-me ignorado/a?”
2. Se identificar um problema serio na comunicação com o seu
interlocutor, com tendência para se agravar (agressividade) opte por sair de
cena. Faça uma interrupção e abandone o local onde se encontra. Inspire e
expire. O problema na comunicação pode estar no conflito de posições
(paradigmas e preconceitos diferentes), a fim de se centrar no que é realmente
importante, invista nos interesses de ambas as partes para a solução. Aprenda
com isso.
3. Arrisque e decida com base na verdade (ética ou
moralidade) e na reciprocidade, abandone a posição do ego. Seja directo e
utilize as suas competências da comunicação (contacto visual, tom de voz,
linguagem corporal, ouvir sem interromper, postura).
4. Após identificar o problema procure as soluções
possíveis. Saiba antecipar que os critérios, de ambas as partes, são legítimos.
Será mais vantajoso, para o problema, se ambos encontrarem uma solução.
5. Coloque-se na posição do seu interlocutor. Irá
compreender o outro ponto de vista. Evite agir nos preconceitos e clarifique a
sua posição, isso não significa manter se intransigente. Separe as pessoas dos
problemas.
6. Aprenda a expressar os seus sentimentos, comece as frases
"Eu sinto..." em vez de "Tu és...". Respeite os sentimentos
das outras pessoas. Não adopte a culpa, como argumento, só agrava os problemas
já de si complexos e delicados, limita o dialogo.
7. Responsabilize-se pelos seus sentimentos e
comportamentos, ficará mais ciente do seu auto conceito e das suas limitações.
Saia da sua zona de conforto.
Votos de uma semana construtiva na gestão da pressão social
e valorização das competências individuais e sociais
Cumprimentos
Comentário: Sabia que a Dica Arte de Bem-Viver começou com uma "brincadeira" para os amigos, em Abril de 2011? Atualmente é enviada para mais de 500 pessoas e vários países de expressão portuguesa (Portugal, Angola, Moçambique e Brasil) e para os Estados Unidos da América. À data deste post vai na sua 129ª publicação. Caso deseje receber a Dica Arte Bem-Viver (semanal) basta enviar um email para joaoalexx@sapo.pt. No assunto da mensagem escreva: Dica Arte Bem-Viver. Todos os dados são confidenciais. É grátis. Recuperar É Que Está A Dar.
terça-feira, agosto 20, 2013
Recuperação da adicção - "The Anonymous People"
A Adicção veio para ficar com consequencias tragicas. Todavia, existe a esperança, milhões de pessoas encontraram a resposta para o seu problema.
Veja este video (trailer) do filme "The Anonymous People" siga o link
Anónimos em recuperação
Recuperar É Que Está A Dar
Pedidos de ajuda que quebram o estigma, a negação e a vergonha V
Pequenos excertos de pedidos de ajuda que recebo todos os
dias por email, posteriormente, foram
enviadas as respectivas respostas para cada situação.
Se você identificar com alguma situação e ou comportamento
em concreto pode escrever um email e
solicitar apoio. A resposta será enviada o mais brevemente possível. Todos os
dados pessoais foram alterados de forma a manter a confidencialidade.
A publicação destes pequenos excertos tem como propósito
quebrar o ciclo disfuncional associado ao estigma, à negação e à vergonha. Na
sociedade atual, é cada vez mais frequente o aparecimento deste tipo de
problemas, refiro-me aos comportamentos adictivos. Por vezes, a distancia,
entre pessoas com problemas adictivos idênticos, pode ser uma porta, um prédio
e/ou uma mesa do escritório. A ajuda surge quando o ciclo disfuncional do
silêncio é interrompido. É possível recuperar a dignidade, peça ajuda.
Pedidos de ajuda que quebram o estigma, a negação e
a vergonha.
- "Chamo M. durante uma pesquisa na Internet sobre a codependência encontrei o seu blogue que me despertou o interesse. Li vários artigos do blogue e gostei. Identifico um problema serio nos relacionamentos de intimidade. Não me sinto realizada e gostada, como considero que mereço. Sinto-me atraída por homens que não disponíveis para me amar. Não foi um caso, mas já acontece há alguns, demasiados, anos. Gostaria de saber como funciona as consultas online. Agradeço desde já a sua atenção e disponibilidade.
- "Chamo me J. e tenho 24 anos. Desde que me conheço sempre tive problemas com a comida. A comida é mesmo um vício. Às vezes, abuso imenso e depois só me apetece vomitar. Engordei 40kgs nos últimos 2anos. Parece que não consigo parar de comer e fico super irritada comigo própria por me ter deixado chegar a este ponto. Tenho sentimentos de culpa. Preciso de ajuda. Não aguento mais este sofrimento."
- "Chamo me C. quero pedir orientação sobre um problema que existe há anos na nossa família e que não conseguimos resolver.Um familiar, com 52 anos, tem há muitos anos problemas com álcool. Quando bebe, mesmo que sejam 3 ou 4 cervejas fica logo perturbado e torna-se agressivo. Saliento que ele não se embebeda todos os dias, mas quando o faz, duas ou três vezes por mês, conduz, já foi a tribunal por conduzir alcoolizado, já ficou sem carta de condução temporariamente, já teve que pagar multas elevadas e já cumpriu trabalho comunitário imposto pelo tribunal. Já perdeu vários empregos, aliás já está desempregado há 3 anos. Não sabemos o que fazer. A situação está a piorar cada vez mais. Precisamos de ajuda."
- Chamo me T. Encontrei por acaso o seu blogue sobre comportamentos de adição. A minha história é a de alguém que luta e sofre com a adição pelos doces. Tenho alternado entre períodos de ser muito cuidadosa e saudável e depois como que algo se apodera de mim e perco a noção de tudo, faço muito mal a mim mesma, isolo-me e caio na compulsão. Passei por alguns traumas na vida, de entre os quais ter ficado viúva aos 28 anos, e ainda bloqueei mais. Não sei porquê este meu perfeccionismo, de querer sempre tudo perfeito, exigir de mim e dos outros aquilo que afinal é mesmo humanamente impossível...tem sido muito complicado gerir todos os meus desequilíbrios e quedas, quer seja a nível pessoal, familiar e profissional. Preciso de ajuda, por favor."
Comentário:
Quebre o silêncio disfuncional, tal como aconteceu a centenas de indivíduos e
famílias resilientes que conseguiram alcançar a Recuperação e um novo modo de
vida. Se identifica um problema, você não está sozinho/a.
sexta-feira, agosto 09, 2013
Video interessante! Descubra a diferença, é gritante!
Você sabia que o alcoolismo e a dependência de drogas estão associados à violência doméstica?
Manual sobre os princípios gerais da Recuperação da Adicção
- Existem preferências individuais sobre os vários estilos de recuperação.
- Recuperação é direccionada para o individuo com vista a incutir-lhe competências individuais e sociais.
- Recuperação é um compromisso pessoal que exige mudança a longo prazo.
- Recuperação é holística.
- Recuperação integra questões culturais.
- Recuperação é um processo e um compromisso contínuo gerador de bem-estar e de um estilo de vida saudável.
- A recuperação é apoiada pelos pares e aliados/parceiros.
- Os fundamentos da recuperação estão enraizados na esperança e na gratidão.
- A recuperação é um processo de transformação (resiliência) e orientado para o desenvolvimento pessoal do individuo.
- A recuperação contempla uma abordagem construtiva contra a discriminação e rejeita a vergonha e o estigma.
- A recuperação consiste em fazer parte ativa na comunidade.
- Recuperar é uma realidade, significa que é possível recuperar. É um fenómeno diário; acontece todos os dias
Fonte: Center for Substance Abuse Treatment (CSAT) White Paper: Guiding Principles and Elements
of Recovery-Oriented Systems Care
Comentário: É possível recuperar do estigma, da vergonha
e da negação
O termo recuperação surge com o propósito de
contrariar o estigma associado às dependências e a toda a carga simbólica e
moralista negativa, onde a sociedade cataloga os indivíduos adictos como
pessoas marginais e fracas associado aos mitos, preconceitos e também visa
reforçar uma identidade social proactiva (cultura). Porque recuperar a
dignidade e a confiança outrora danificada é um longo processo.
O termo
recuperação é abrangente, apesar de ainda não ser devidamente difundido em
Portugal, todavia, não é sinónimo de cura ou controlo sobre o consumo das
substâncias psicoactivas e/ou comportamentos adictivos. Na recuperação da
adicção não se aplica o termo cura, porque não se trata de um vírus que se
remove do organismo do individuo. A adicção é uma doença. O conceito de recuperação da adicção é
oriundo dos grupos de ajuda dos Doze Passos (Alcoólicos Anónimos), nos EUA,
desde os anos 30. Em Portugal, os termos
adicção e recuperação também surgiram associados aos grupos de ajuda-mutua
(Alcoólicos Anónimos, no final dos anos 70, e mais tarde, com os Narcóticos
Anónimos nos anos 80).
Sabia que o
termo recuperação da adicção é objecto de investigação nos Estados Unidos da
América e em Inglaterra?
Provavelmente,
devem existir dezenas, senão centenas de instituições, profissionais e indivíduos que actualmente,
também adoptaram o conceito de recuperação da adicção em vez de cura.
Recuperação
está intrinsecamente relacionado:
- Esperança,
- Decisões,
- Propósito,
- Pertencer a algo e
- Felicidade.
As
probabilidades de recuperar da adicção, refiro-me a uma recuperação duradoura,
são reduzidas se um/a adicto/a não for feliz. Se você está em recuperação,
pertence a uma classe de indivíduos especiais que escapam às estatísticas
daquelas pessoas que sofrem desta doença através da negação, estigma e
vergonha. Recuperar é que está a dar; isso significa que você está a explorar
outras opções mais viáveis, espirituais e criativas para ser feliz.
Caso
pretenda saber mais sobre o conceito Recuperação envie um email
para xx.joao@gmail.com
Saiba mais
sobre recuperação e a investigação nos EUA.
terça-feira, julho 30, 2013
Compreender o distúrbio alimentar
Para além da Anorexia Nervosa e da Bulimia Nervosa, segundo o Manual de Diagnostico e Estatística das
Perturbações Mentais (DSM-IV) refere a Perturbação do Comportamento Alimentar Sem Outra
Especificação, do Inglês EDNOS, é uma categoria para perturbações que não
preencham os critérios completos para uma Perturbação do Comportamento
Alimentar específica. Os exemplos incluem:
1. Para mulheres, todos os critérios de Anorexia
Nervosa estão presentes excepto a amenorreia (ausência da mestruação)
2 . Todos os critérios de Anorexia Nervosa, estão
presentes excepto que, apesar de uma perda de peso significativa, este
encontra-se dentro dos valores normais.
3 . Todos os critérios de Bulimia Nervosa estão
presentes excepto que os episódios de ingestão compulsiva e os mecanismos
compensatórios inapropriados ocorrem numa frequência inferior a 2 vezes por
semana, ou têm uma duração inferior a 3 meses.
4. Uso regular de comportamentos compensatórios
inapropriados por uma pessoa de peso normal após ingestão de pequenas
quantidades de alimentos (por exemplo, indução de vómito após comer 2
bolachas).
5. Mastigar ou cuspir repetidamente, mas não engolir,
grandes quantidades de alimentos.
6 . Perturbação de ingestão alimentar maciça: episódios
recorrentes de ingestão alimentar maciça na ausência dos comportamentos compensatórios
inapropriados característicos de Bulimia Nervosa.
Critério de investigação para a Perturbação de Ingestão Compulsiva:
Critério de investigação para a Perturbação de Ingestão Compulsiva:
A. Episódios recorrentes de ingestão compulsiva.
1. Um episódio de ingestão compulsiva é caracterizado pelas
seguintes condições: Ingestão, num período de tempo isolado (por exemplo,
qualquer período de 2 horas), de uma quantidade de comida francamente superior
à que a maioria das pessoas poderia consumir no mesmo espaço de tempo e sob
circunstâncias singulares;
2. Sensação de perda de controlo sobre a ingestão de durante
o episodio (por exemplo, sensação de que não pode parar de comer ou controlar o
quê ou quanto se está a comer).
B. Os episódios de ingestão compulsiva associam-se a 3 (ou
mais) dos seguintes sintomas
1. Ingestão muito mais rápida do que habitual;
2. Comer até se sentir desagradavelmente cheio;
3. Ingestão de grandes quantidades de comida apesar de não sentir
fome;
4. Comer sozinho para esconder o embaraço pela sua
voracidade;
5. Sentir-se desgostoso consigo próprio, depressão ou grande
culpabilidade depois de ingestão compulsiva.
C. Profundo mal-estar ao recordar as ingestões compulsivas.
D. As ingestões compulsivas têm lugar, em media, pelo menos
2 dias por semana durante 6 meses.
E. A ingestão compulsiva não se associa ao uso regular de
estratégias compensatórias inadequadas (purgantes, jejum, exercício físico excessivo)
e não aparecem no decurso de uma Anorexia Nervosa ou uma Bulimia Nervosa.
Se identifica um
problema de comportamento na relação com a comida, você não é a único/a, fale com o seu medico.
quarta-feira, julho 17, 2013
Negar a realidade significa agravar os sintomas
Sabia que uma parte significativa das pessoas com comportamentos
adictivos (drogas, álcool, jogo, distúrbio alimentar, sexo, codependência,
compras, furto) retardam um tempo considerável, em alguns casos décadas, até
finalmente reconhecerem que perderam o controlo das suas vidas? Derivado a um
conjunto complexo de factores, onde podemos destacar os mecanismos defesa psicológicos
(por exemplo a negação, a ambivalência), ficam incapacitados de interromper o
comportamento problemático, associado à procura do prazer intenso (excitação,
bem estar, alivio) mesmo com a consciência dos danos e consequências associadas
à adicção. A Adicção é uma doença primária, não é um sintoma de outro tipo de
doença.
Quando o passado (memorias) se torna um "peso"
intolerável e esmagador é necessário um plano de emergência, para o presente. É
um desperdício de tempo e energia reparar algo, do passado, no presente que na
realidade é irreparável. O tempo não pára ou volta para trás, mas a adicção
pode afectar e comprometer seriamente o individuo com consequências trágicas.
Muitas das pessoas que pedem ajuda, para os comportamentos adictivos,
o seu nível de motivação é significativamente reduzido, porque consideram que
não é algo divertido. Consideram ser assustador pensar que devem preocupar seriamente
com o comportamento problema em questão, na prática, se preocuparem pode
significar responsabilidade pela mudança e pelo compromisso. É do senso comum
que a dor faz parte do desenvolvimento das nossas competências e talentos,
todavia, fugimos dela; negando, iludindo, justificando, racionalizando e mentindo.
Por vezes, nem sequer reconhecemos que estamos a mentir, a nós mesmos, auto
ilusão.
- Evite o consolo no prazer imediato (drogas, e/ou comportamentos adictivos), evite culpar os outros de coisas que eles, na realidade, não são culpados. Evite a autopiedade e desafie o seu ego (dogmático).
- Procure as respostas às suas dúvidas e questões dentro de si mesmo, através do auto conhecimento.
- Procure alternativas recompensadoras para se mimar.
- Procure pessoas genuínas e honestas. Se você está doente, faça aquilo que a maioria das pessoas doentes faz, procure apoio, a fim de interromper a progressão da doença e iniciar a sua recuperação.
quarta-feira, julho 10, 2013
A personalidade não muda; mudam as atitudes e os comportamentos (prioridades)
Tradução: "A adicção pode comprometer seriamente a tua vida. A Recuperação irá mudar o rumo da tua história."
Gostaria de acrescentar que a adicção activa afecta e compromete seriamente a saúde, a família, incluindo as crianças, trabalho e relacionamento com colegas, problemas legais e/ou financeiros. A adicção activa afecta e compromete seriamente todas as áreas da vida do individuo (física, mental, emocional e espiritual)
A recuperação da adicção pode proporcionar oportunidades de desenvolvimento individual e social que o individuo nunca imaginou ser possível. Apesar de sabermos que a vida, nos reserva muitas e dolorosas adversidades, em recuperação não existem impossíveis.
Alguns tipo de adicção mais comuns: Substâncias psicoactivas, vulgo drogas, incluindo o alcool, jogo, sexo, disturbio alimentar, compras, furto, dependencia emocional, vulgo codependencia.
sexta-feira, junho 28, 2013
26/6 Dia para reflexão aprofundada sobre a consciência da realidade
O dia 26 de Junho assinala o Dia Internacional Contra o
Abuso de Drogas e o Trafico Ilícito. Este dia, para mim, é de reflexão, onde
dedico algum tempo à pesquisa de artigos publicados forma a manter-me
actualizado sobre a evolução deste fenómeno avassalador, para uns representou uma
verdadeira tragedia. Nomes sonantes vítimas das dependências, recordo, Micael
Jackson, Amy Winehouse e Whitney Houston, só para enumerar alguns, sem esquecer
os indivíduos desconhecidos e as suas famílias.
Em Portugal, estou em crer, que este dia, nunca mereceu a
devida atenção e até posso acrescentar que para a maioria da população
portuguesa passa despercebido, principalmente devido ao estigma, à negação e à
vergonha associados à dependência de substâncias psicoactivas, vulgo
toxicodependência. Estamos atrasados duas décadas em relação ao que se pratica,
se ensina, investiga e no tratamento das dependências a nível internacional. Trabalho
nesta área, desde 1993, e ainda constato, por parte dos profissionais de saúde,
um certo tipo de ignorância e/ou desinteresse. Por exemplo, as universidades
portuguesas ainda não possuem as condições e os recursos necessários a fim de
motivar os seus alunos para a área das dependências. Tenho outro exemplo, mais
concreto, conheci vários psicólogos e são unânimes em afirmar que aquilo que
aprendem, sobre as dependências nas universidades, é insuficiente. Já para não
referir a questão da prevenção das dependências, que tal como o tratamento do
abuso e dependência de drogas, é uma matéria que ainda não mereceu por parte
dos responsáveis políticos, dos media, dos tribunais e dos advogados, das mais
diversas Ordens de profissionais da saúde e da sociedade em geral a devida atenção.
Todos nós, eu e você, negamos as evidências óbvias.
quarta-feira, maio 29, 2013
A adicção não escolhe parceiros; são todos afectados
Sabia que o alcoolismo e/ou a dependência de substâncias
psicoactivas ilícitas afectam o sistema familiar ao longo de varias gerações.
Todos, sem excepção são afectados pela adicção, incluindo as crianças, por exemplo, através
da negligência e/ou abuso de menores.
Consequências prováveis, mas em muitos
casos negadas pelo sistema familiar: Abuso físico, sexual e emocional, as
necessidades físicas, psicológicas e sociais das crianças são negligenciados.
Sabia que muitas famílias, não são todas, afectadas pelo
alcoolismo e ou dependência de outras drogas são incongruentes derivado à negação dos sentimentos e à posse de um
ou mais segredos entre membros da família.
Sabia que as famílias perturbadas tendem a negar os
sentimentos, principalmente, os dolorosos. Alguns membros da família, incluindo
as crianças, não é permitido exprimir o que que sentem, por exemplo, o
sentimento de raiva.
As consequências negativas, óbvias da adicção, observadas
por todos, como um problema é negada. Acrescenta-se um novo modelo ou sistema
falso de crenças de forma a negar a realidade dolorosa, alguns exemplos, o
problema é a falta de dinheiro, a relação conflituosa entre cônjuges, o
problema é o filho/a que é irresponsável e que exige demasiada atenção,
dificuldades no emprego, demasiado stress,
etc. etc.
A negação da realidade, na família desestruturada, aliado ao
sistema de crenças, oculta e retarda o desenvolvimento e o crescimento dos
jovens e das crianças, nas áreas fundamentais da sua vida (Brown, 1986). Este
tipo de constatação pode ser doloroso, mas caso haja mudança de comportamentos,
pode ser o princípio do fim do sofrimento e da confusão.
Algumas características da família disfuncional: negligente,
desrespeitadora, incongruente, imprevisível, rígida e por vezes caótica.
Algumas mensagens
negativas na família disfuncional:
- "Que vergonha! O teu irmão/ã, é melhor que tu. Nunca fazes nada de jeito"
- "As tuas necessidades não interessam, cresce e aparece, porta te como um homem ou como uma menina bonita. Não chateies.”
- "Estou a fazer sacrifícios por ti, és tão estúpido/a, assim deixamos de gostar de ti,"
- “ Nunca irás conseguir nada na vida,"
- "Queríamos tanto que fosses um rapaz, em vez de uma rapariga ou vice-versa",
- "Como é que podes fazer uma coisa dessas? Os problemas da família ficam dentro da família." Algumas regras negativas:
- Não te zangues,
- Não chores,
- Faz como te digo; não como eu faço,
- Evita o conflito,
- Não faças essas perguntas,
- Não me desmintas,
- Estou sempre certo e tu estás sempre errado,
- Faz sempre um ar bem-disposto, os assuntos da família; não se falam na rua (segredos),
- Não respondas, porta-te bem e fica sossegado, limita te a fazer aquilo que te mandam
Sabia que os comportamentos adictivos afectam seriamente o
sistema familiar, incluindo as crianças. As pessoas desenvolvem padrões de
comportamento disfuncionais e rígidos (ex. negação, raiva, vergonha, medo),
criam alianças/tramas contra o indivíduo doente, distanciam-se ou envolvem-se
demasiado (codependência). Estão criadas as condições para uma crise, em muitos
casos, ocultada.
"A família é um organismo complexo composto por
diversas partes que compõem o todo” Dra. Claudia Black. Este todo, complexo,
funciona quando as partes estão sintonizadas (equilíbrio). Nos comportamentos
adictivos activos a dor aguda exige modificações e adaptações em muitos casos
radicais, sacrificando o equilíbrio das relações.
Século XXI - Estigma, a vergonha e a negação em acção. Sociedade
preconceituosa.
- "Eles (bêbados/drogados) são uns fracos".
- “Eles (bêbados/drogados) são uns marginais".
- "Eles (bêbados/drogados) não têm força de vontade"
- "Eles (bêbados/drogados) são assim porque a família não quer saber deles"
- "São (bêbados/drogados) porque não têm recursos (vitimas)"
- " São (bêbados/drogados) porque nunca lhes faltou nada e não sabem o que é a vida"
- "Ele é assim (bêbado/drogado) por causa da família"
- "Ela é assim (bêbada/drogada) sai ao pai. Ele também teve os mesmos problemas"
- "Não vale a pena dizer nada, eles (drogados/bebados) não se querem tratar"
- "Se um filho meu fosse assim (bebado/drogado) punha o logo na rua"
- "Esta gente (bêbados/drogados) devia ir todos presos..."
Publicada por
JOÃO ALEXANDRE RODRIGUES conselheiro certificado abuso de drogas e alcool
à(s)
quarta-feira, maio 29, 2013
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prevenção da recaída,
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vergonha tóxica
quarta-feira, maio 08, 2013
A recuperação faz toda a diferença
De acordo com as últimas investigações, através de imagem de ressonância magnética, sabemos que a adicção é uma doença do cérebro. Determinados
comportamentos e/ou o abuso de substâncias psicoactivas interferem e afectam a
estrutura cerebral responsável pelo prazer, motivação, memoria (sistema de
recompensa). Através dos comportamentos adictivos e abuso de substâncias
psicoactivas adictivas, provoca uma modificação dos circuitos neuronais e o aparecimento
de sintomas físicos, psicológicos e espirituais no individuo através da procura
e recompensa patológica do prazer e alivio imediato. Para que você perceba
melhor, esta região do cérebro controla os movimentos do corpo[i] o núcleo caudado (região do cérebro) situa-se na parte interna é muito
primitiva e faz parte daquilo que se chama cérebro reptilário. Esta região do cérebro
(sistema de recompensa) evoluiu muito antes dos mamíferos, há aproximadamente
65 milhões de anos. O núcleo caudado ajuda-nos a detectar e a aperceber de
determinada recompensa, a seleccionar entre recompensas, a preferir uma
recompensa específica, a prever uma recompensa e a esperar uma recompensa.
Se você é um adicto/a toda a sua vida (família, trabalho,
amizades, saúde, recursos financeiros, etc) gira em torno da recompensa da adicção
a comportamentos (jogo, compras, sexo, dependência emocional, distúrbio alimentar)
e/ou a substâncias psicoactivas lícitas, incluindo o álcool, e/ou ilícitas, geradoras
de dependência e fica comprometido/a em termos das suas decisões (atitudes e
comportamentos), por outras palavras; perde o controlo sobre as já referidas substâncias
e/ou os comportamentos adictivos.
Áreas do cérebro afectadas pela adicção:
- Recompensa (motivação)
- Prazer
- Motora (Aptidão psicomotora)
- Humor
- Memoria (processamento)
- Sono
- Cognição (défice cognitivo)
Considera que a sua adicção está a comprometer seriamente a
sua qualidade de vida e a qualidade dos relacionamentos com pessoas
significativas? Se estiver confuso/a em relação à resposta pode enviar um email para xx.joao@gmail.com e colocar as suas questões. Todos os dados são confidenciais (sigilo total).
[i] Referências
bibliográficas
Schultz, 2000; Delgado e colegas, 2000; Elliot e
colegas, 2003; Gold, 2003
Publicada por
JOÃO ALEXANDRE RODRIGUES conselheiro certificado abuso de drogas e alcool
à(s)
quarta-feira, maio 08, 2013
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